Quarta-feira, Junho 12, 2024
Opinião

Feliz Dia da (Não) Bicicleta em Almada

Inês Sarti Pascoal, especialista em urbanismo sustentável e ordenamento do território                                                                                                                                           

O Dia Mundial da Bicicleta (3 de Junho) celebra-se desde 2018 para evidenciar o papel que a bicicleta tem como meio de transporte eficiente, não poluente, económico. No entanto, são tão poucas as ciclovias urbanas em Almada que praticamente não há bicicletas a circular por cá.

 

Os benefícios da mobilidade em bicicleta não são novos. O que ainda não se observou no nosso território foi a implementação de infraestruturas que permitam utilizar a bicicleta como meio de transporte, de forma cómoda, eficiente e segura. O objetivo é que as pessoas que assim o desejem, consigam utilizar a bicicleta nas suas deslocações do quotidiano: para ir para o trabalho, escola, casa, comércio e serviços. Todo o concelho de Almada está bem servido de estradas para circulação em automóvel, mas ciclovias… É preciso pôr os óculos, e mesmo assim é complicado observá-las. É tentar neste mapa:

 

ciclovias-almada

Sabemos que as bicicletas podem circular na estrada junto dos carros. Está previsto no Código da Estrada e têm de circular com regras semelhantes às dos automobilistas. Mas também se sabe que a maioria das pessoas não está disposta a andar de bicicleta junto do tráfego automóvel, pela insegurança rodoviária que traz, pela pouca tolerância de automobilistas e os seus comportamentos agressivos, pela infraestrutura rodoviária que não está adequada à circulação em velocidades reduzidas, pela falta de fiscalização das autoridades.

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Das cerca de 395 mil viagens diárias em Almada, apenas 0,2% são realizadas em bicicleta. Esta não predisposição para pedalar junto do tráfego rodoviário é ainda mais evidente em mulheres. Em Almada, as mulheres representam apenas 17% de utilizadores/as de bicicleta, valor que revela uma desigualdade de género neste meio de transporte e que requer medidas concretas para a colmatar.

A Transportes Metropolitanos de Lisboa (TML), produziu a ferramenta biclaR, para dar apoio ao planeamento da rede ciclável dos municípios, incluindo em Almada. Nesta, é possível perceber a grande diferença entre as ruas propostas para existência de ciclovias, que, pelo seu potencial de utilização, permitiriam aumentar a quota modal deste meio de transporte e a localização da infraestrutura que existe atualmente.

 

ciclovias-hoje

A aposta que tem sido feita em Almada é maioritariamente em ciclovias de lazer que, na prática, servem para poucas deslocações quotidianas. Planear a mobilidade ciclável exclusivamente em torno das praias não vai resolver os problemas de congestionamento e utilização excessiva do automóvel em Almada. E os exemplos recentes que temos são esses: a ciclovia da Estrada Florestal, na Costa da Caparica, inaugurada o ano passado, e a ciclovia da Av. do Mar, junto à Fonte da Telha, que está em obras. Como se verifica no mapa elaborado por especialistas de mobilidade urbana em bicicleta, ciclovias nestas ruas não têm um grande potencial para aumento das taxas de utilização da bicicleta em meio urbano.

 

Planear a mobilidade ciclável exclusivamente em torno das praias não vai resolver os problemas de congestionamento e utilização excessiva do automóvel em Almada.

Alguns aspetos importantes para a utilidade das ciclovias é que sejam contínuas (sem interrupções ou obstáculos), que tenham ligação entre si (para criar uma rede pelo território), penetrem centros urbanos densos (porque é onde mais pessoas habitam), passem por diferentes freguesias (para que as pessoas se consigam deslocar entre zonas diferentes) e pelas interfaces de transportes (para que a bicicleta possa servir de complemento a deslocações distantes, promovendo a intermodalidade com o comboio ou o barco, por exemplo).

Em Almada, não é novidade a intenção de criar uma rede ciclável. Já o Plano Ciclável de 2005, previa a construção de cerca de 200 quilómetros. Mas também no último programa eleitoral do partido que nos governa constava a intenção de implementação de 100 quilómetros de infraestruturas cicláveis. A Estratégia Nacional para a Mobilidade Ativa Ciclável tem como meta alcançar uma quota modal em bicicleta nas cidades de 4% até 2025. E até já sabemos, pelo mapa da biclaR, onde têm de estar localizadas essas ciclovias em Almada.

No passado dia 3 de Abril, a União Europeia adoptou a declaração sobre o ciclismo, que prevê a criação de ciclovias seguras nas cidades. Com tantos planos e estratégias, de âmbito nacional, europeu e mundial, que indicam que é necessário repensarmos a forma como nos deslocamos, para alcançar a transição climática, será que podemos ter esperança de ainda vir a ter uma rede ciclável no concelho de Almada?

Até lá… Feliz Dia da Não Bicicleta em Almada!

 

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3 Comentários

  • Bom dia,
    Quero só acrescentar que mesmo a ciclovia nomeada como de lazer, assinalada no mapa entre a Trafaria e a Costa da Caparica, se encontra em bastante mau estado. Creio mesmo que nunca teve obras de reparação desde que foi criada, já nos longínquos tempos do polis da Costa, há cerca de 15 anos. Mas, neste caso, é infelizmente a continuidade na falta de atenção por parte da autarquia em relação a freguesias com menos eleitores votantes. No entanto, são muito úteis para exemplificar como zonas de elevada atração turística e potenciadoras de investimento.

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  • João Dinis Ferraz

    A zona ribeirinha de Almada está esquecida há mais de 30 anos.

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  • Miguel Jorge

    Vivo há 40 anos no funchalinho. A única forma de me deslocar de bicicleta até à Costa de Caparica sempre foi a via rápida. Uma estrada perigosa mas ainda assim, a única alternativa. Até que um dia, ganhou o estatuto de IC e aplicaram as regras de interdição a peões e bicicletas. Alternativas: zero. Os habitantes do funchalinho passaram a viver numa ilha rodeada de eixos interditos a bicicletas. A alternativa capuchos também não é nem nunca foi solução, devido à acentuada orografia e porque “desagua” no IC20. Mas o provincianismo autárquico sempre reinou na margem sul. Esta malta armada em Edil, nunca viajou ao primeiro mundo europeu de redes integradas de ciclovias. Acham que governar municípios basta ser militante de partidos. E o automóvel é Rei. O que está a dar é ostentar o modelo alemão ou o novo tesla acabadinho de comprar, para mostrar aos amigos que querem salvar o mundo com o automóvel novo. É o que temos…

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