Maria Luís Abreu, Vice-Presidente da Juventude Popular de Almada.
Se o clima está a mudar de forma estrutural, as redes de abastecimento de água não podem continuar a ser geridas como se estivéssemos ainda nos padrões do século passado.
Há um dado que devia envergonhar-nos coletivamente: em pleno concelho de Almada, a poucos quilómetros de Lisboa, há famílias que chegam a casa depois de um dia de trabalho e não conseguem tomar banho. Não conseguem cozinhar. Em alguns casos, nem sequer conseguem beber um copo de água da torneira. E isto não é uma exceção pontual — é um padrão que se repete e se agrava a cada verão que passa.
Nos últimos dias, várias localidades do concelho ficaram sem água durante horas, precisamente numa das jornadas mais quentes do ano. Moradores relataram desespero perante a falta de água, que afeta diretamente a sua higiene e alimentação diária. Quando a água finalmente chega às torneiras, muitas vezes chega sem a pressão mínima necessária — o suficiente para molhar as mãos, mas não para acender um esquentador ou encher uma panela. E o problema não fica pelas casas: também o comércio local, sobretudo cafés, pastelarias e restaurantes, sente o impacto desta escassez, uma vez que depende deste recurso essencial para funcionar.
O mais perturbador não é que isto aconteça — é que já não surpreende ninguém. Os Serviços Municipalizados de Água e Saneamento (SMAS) de Almada reconhecem publicamente que o verão traz uma pressão acrescida sobre a rede e têm promovido reuniões com as juntas de freguesia para preparar a época alta e reduzir consumos, nomeadamente na rega de espaços verdes. É um esforço louvável em teoria, mas que na prática se traduz, ano após ano, nas mesmas cenas: torneiras secas, filas por garrafas de água, e populações inteiras a organizar a vida à volta da incerteza de se hoje “vai haver água” ou não.
Este não é um fenómeno isolado de Almada. As alterações climáticas têm alargado a época de calor extremo e seca em Portugal, com o país a registar em 2026 mais ondas de calor do que em qualquer outro ano da década, superando inclusivamente o registo do ano anterior. Os solos perdem água mais depressa, os consumos disparam, e as infraestruturas — muitas delas antigas, com fugas e capacidade insuficiente — mostram-se cada vez menos preparadas para responder à procura. Se o clima está a mudar de forma estrutural, as redes de abastecimento não podem continuar a ser geridas como se estivéssemos ainda nos padrões do século passado.
É importante recordar aquilo que por vezes parece esquecido nas gavetas da gestão municipal: o acesso à água potável e ao saneamento foi reconhecido pela Assembleia Geral das Nações Unidas, em 2010, como um direito humano essencial ao pleno gozo da vida e de todos os outros direitos humanos. Não é um serviço de conforto, nem um extra que se possa cortar em nome de poupanças ou de obras em atraso. É uma condição básica de dignidade.
Quando um município permite, ano após ano, que os seus cidadãos fiquem sem água num dia de calor extremo, está a falhar numa das suas obrigações mais elementares. Não se trata de branquear as dificuldades técnicas — reforçar redes, substituir condutas antigas e aumentar a capacidade de reserva são obras complexas, caras e morosas. Mas a repetição do problema, verão após verão, sugere que o investimento não tem acompanhado a urgência real da situação, e que o planeamento continua a ser reativo em vez de preventivo.
Não estamos a falar de um inconveniente menor. Estamos a falar de crianças que não conseguem lavar os dentes antes de dormir, de idosos que ficam sem água para tomar a medicação, de famílias que adiam refeições porque não há água para cozinhar. Estamos a falar de comerciantes que perdem rendimento porque não conseguem servir os seus clientes. E estamos a falar, sobretudo, de uma desigualdade silenciosa: quem pode, compra água engarrafada e desvaloriza o problema; quem não pode, sofre-o na pele, todos os dias, sem alternativa.
Almada merece — como qualquer concelho português — um plano sério, financiado e com prazos claros para modernizar a sua rede de abastecimento. Merece transparência sobre onde estão as perdas de água no sistema, quanto vai custar resolvê-las e em que prazo isso vai acontecer. E merece, acima de tudo, que a água deixe de ser tratada como um problema sazonal e passe a ser tratada como aquilo que realmente é: um direito humano que não pode continuar a depender da sorte do termómetro.
Enquanto isso não acontecer, continuaremos a assistir, verão após verão, à mesma imagem incómoda: um país que se diz desenvolvido, onde ainda há gente que não consegue tomar banho depois de um dia de trabalho.




