O sentinela cego da Margueira: a normalização do vazio

Pedro Oliveira, especialista em Investigação e Gestão de Riscos, Licenciado em Ciências Sociais com especialização em Sociologia, formador e consultor

Substituir a memória operária da lisnave e aquela efervescência multicultural que eu testemunhei em criança por um postal de luxo que fala inglês, virado de costas para a cidade sobrevivente que pulsa nas margens, não é modernizar Almada; é desertificá-la espiritualmente.

Olho para o céu de Cacilhas e vejo, recortado contra a luz mansa da primavera, o pórtico da Lisnave. Está ali como um sentinela cego, uma gigantesca estrutura de ferro que fita o Tejo em silêncio, guardando as memórias de um tempo em que o concelho não se resumia a marcas de água e postais asséticos para turista ver. Escrevo sobre este território não como quem olha para um plano de pormenor urbanístico bloqueado nas gavetas do poder, mas com a legitimidade de quem cresceu a respirar a sua época de ouro. Lembro-me bem do restaurante que os meus pais tinham ali mesmo em Cacilhas, nos anos de maior fulgor do estaleiro. Lembro-me da minha mãe na cozinha, a preparar os petiscos e as especialidades que faziam vir gente de longe, e de mim, ainda rapaz, a absorver as histórias de operários e marinheiros vindos dos quatro cantos do mundo. Cacilhas era o cais do mundo porque a Lisnave era o motor da carne.

Diagnostico hoje este espaço como quem vê uma amputação na alma coletiva de Almada. Há mais de um quarto de século que os estaleiros da Margueira fecharam. Vinte e seis anos. Uma geração inteira de almadenses cresceu e fez-se adulta a olhar para um muro cinzento que lhes rouba o rio, habituando-se à inércia, ao betão esquecido e às promessas que nunca saem do papel. E nós?

Nós aceitámos….

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Vejo nisto a “Normalização do Desvio” territorial levada ao seu expoente mais cruel. Tornou-se “normal” gerir uma cidade mantendo o seu coração histórico transformado num cemitério de ferro e entulho, vedado à carne e ao sangue de quem cá vive, esquecendo que o progresso daquela terra foi erguido pelo suor, pelo ruído violento dos camartelos e pela resiliência de milhares de homens que ali deixaram a vida.

Agora, o marketing imobiliário da antiga “Cidade da Água” ganha fôlego institucional com o recente plano “Parque Cidades do Tejo” apresentado pelo Governo. Promete-se tudo para os nossos 58 hectares: comércio, milhares de fogos de habitação e, no topo do anúncio político, uma grandiosa “Ópera Tejo”. Há um nexo de causalidade que a soberba do betão e o lirismo estatal teimam em ignorar. Pergunto-me que Almada estão a desenho quando propõem erguer uma sala de Ópera ali onde antes ecoava o metal pesado. Substituir a memória operária e aquela efervescência multicultural que eu testemunhei em criança por um postal de luxo que fala inglês, virado de costas para a cidade sobrevivente que pulsa nas margens, não é modernizar Almada; é desertificá-la espiritualmente. Corre-se o risco de criar um cenário assético, empurrando a nossa identidade e as nossas pessoas para a periferia da periferia, trocando o homem pelo camarote. As promessas megalómanas para o Arco Ribeirinho Sul não são novas, mudam os governos, sucedem-se os palcos, enquanto o muro da Margueira continua de pé.

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Vista panorâmica da antiga Lisnave. Drone: André Nóbrega / Almadense

Mas o erro de análise vai mais fundo, tocando a engenharia de risco que o poder político teima em negligenciar. A Lisnave operava na gestão do risco físico e imediato do operário no terreno. O futuro que agora desenham para a Margueira, colado à linha de água, esconde os novos fantasmas do século XXI: o risco ambiental crónico, com uma contaminação silenciosa de décadas de indústria pesada impregnada no subsolo, onde hidrocarbonetos, metais pesados como o chumbo e o cádmio, e resíduos de tintas antifouling persistem nos sedimentos, a par da ameaça física das alterações climáticas, com a subida do nível das águas e o risco real de galgamentos costeiros em cenários de forte agitação marítima. Erguem-se projetos multimilionários sobre uma bomba-relógio invisível, sem que a Proteção Civil ou o ordenamento real tenham uma palavra a dizer perante a pressa do capital e o voluntarismo dos anúncios políticos.

Não podemos aceitar que a resiliência de Almada se meça por obras de fachada, por túneis submersos de papel ou por promessas que envelhecem nos escaparates das campanhas. Cuidar do território é curar o solo, mas é, acima de tudo, devolvê-lo ao seu povo. Uma cidade que esquece de onde veio o seu suor, as suas especialidades e as suas histórias, aceitando viver sob a sombra do vidro dos outros ou ao som de uma ópera para elites estrangeiras, condena-se à invisibilidade. A política e o ordenamento servem para isto: para resgatar o vazio e garantir que o progresso não se faça, mais uma vez, expulsando quem ali tem as suas raízes.

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Arte Xávega, entre o museu e o mar

 

2 Comentários

  1. Não é preciso exagerar, a melhor memória que eu tenho da Margueira é anterior à Lisnave, quando tomava banho no rio com risco de cortar os pés nas cascas de ostras, remeniscencias de um Tejo despoluído. A Lisnave trouxe barcos gigantes, trabalho pesado, ruido e, também, muita nafta, que se agarrava aos pés nas praias da Caparica.

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