Gonçalo Mesquita Lopes, Politólogo
Almada Velha tem o potencial para ser um polo gerador de economias de proximidade, indústrias criativas e turismo cultural de qualidade. Para que isso aconteça, o paradigma de gestão territorial precisa de evoluir para uma estratégia integrada.
O debate sobre o desenvolvimento urbano contemporâneo coloca frequentemente as cidades perante um duplo desafio: a necessidade de expansão e modernização face à urgência de preservação e revitalização dos seus núcleos históricos.
No caso de Almada, esta dinâmica é particularmente evidente. Ao mesmo tempo que o concelho se projeta para o futuro através de grandes planos de requalificação ribeirinha e captação de novas centralidades tecnológicas, o seu coração histórico — Almada Velha — enfrenta desafios estruturais complexos que exigem uma reflexão profunda sobre o ordenamento do território e a coesão social.
Olhar para Almada Velha hoje implica ir além da dimensão patrimonial ou da nostalgia estética. Trata-se de analisar a funcionalidade de um espaço que, historicamente, funcionou como o motor da identidade e da vivência comunitária local. O cenário atual de imóveis devolutos, o encerramento progressivo do comércio tradicional e a perda de vitalidade urbana ao cair do dia não são fenómenos isolados, mas sim o reflexo de um modelo de crescimento urbano que, ao longo das últimas décadas, tendeu a privilegiar a expansão das periferias em detrimento da consolidação dos centros consolidados. A nível de políticas públicas, a reabilitação urbana de núcleos históricos apresenta uma enorme complexidade administrativa, jurídica e social, o que muitas vezes dita a perda de prioridade destes espaços nas estratégias de planeamento.
Como politólogo focado na análise de dinâmicas sociais e territoriais, entendo que é fundamental compreender que o desenho do espaço público molda diretamente a qualidade de vida e a fixação das populações. Um centro histórico que perde vitalidade gera uma fratura na continuidade geracional do concelho. Almada Velha possui uma morfologia urbana e uma escala humana que seriam ideais para responder a uma das maiores necessidades da atualidade: a habitação para as novas gerações. No entanto, o parque habitacional existente permanece em grande parte bloqueado, impedindo que os jovens qualificados encontrem no centro da cidade uma alternativa viável de fixação, empurrando-os para soluções habitacionais fora do tecido urbano consolidado.
Para compreender a urgência desta situação, basta observar os exemplos práticos que moldam o dia a dia deste território. Caminhar por artérias estruturantes de Almada Velha é deparar-se com um contraste doloroso entre o potencial do espaço e a realidade do edificado. Encontramos portais históricos emparedados com tijolo, coberturas de edifícios antigos que cederam à passagem do tempo e fachadas escoradas com estruturas metálicas que permanecem na via pública durante anos a fio, estreitando passeios e limitando a circulação pedonal. Esta degradação física tem um impacto direto na segurança e na atratividade económica.
Almada Velha possui uma morfologia urbana e uma escala humana que seriam ideais para responder a uma das maiores necessidades da atualidade: a habitação para as novas gerações. No entanto, o parque habitacional existente permanece em grande parte bloqueado.
Onde antes existiam mercearias de bairro, alfarrabistas ou pequenos cafés que serviam de ponto de encontro para a comunidade, vemos hoje montras tapadas com jornais velhos ou gradeamentos enferrujados. A desertificação comercial afasta as famílias, criando um círculo vicioso de desinvestimento que urge quebrar.
O nó górdio deste processo reside, em grande medida, nos entraves burocráticos e na morosidade dos procedimentos de licenciamento. A reabilitação urbana de edifícios antigos exige, por si só, uma abordagem técnica minuciosa devido às especificidades estruturais e patrimoniais do edificado. Quando a resposta administrativa se caracteriza pela rigidez e pela fragmentação de processos, o resultado é a dissuasão do investimento, tanto por parte de pequenos proprietários locais como de agentes económicos. A ausência de mecanismos céleres, integrados e desburocratizados, ou seja, uma verdadeira “via verde” para a reabilitação, funciona como um fator de paralisia. Simplificar e auditar os tempos de resposta administrativa não é uma questão de menor importância técnica; é a condição essencial para reativar a dinâmica económica e social de um território em risco de abandono.
Outro desafio prático reside na acessibilidade e na mobilidade urbana. Almada Velha desenvolveu-se numa época com necessidades de circulação muito diferentes das atuais. Hoje, a convivência entre o tráfego automóvel, a escassez de estacionamento ordenado e a necessidade de criar percursos pedonais confortáveis exige soluções inovadoras de engenharia e planeamento. Atualmente, os moradores enfrentam dificuldades diárias para aceder às suas habitações, enquanto os visitantes evitam a zona pela complexidade nos acessos. Uma estratégia eficaz teria de passar por bolsas de estacionamento periféricas e pela requalificação do pavimento, garantindo que quem tem mobilidade reduzida ou carrinhos de bebé possa usufruir do centro histórico sem barreiras intransponíveis.
Uma cidade que descura o seu núcleo antigo compromete a sua própria sustentabilidade a longo prazo. Almada Velha tem o potencial para ser um polo gerador de economias de proximidade, indústrias criativas e turismo cultural de qualidade. Para que isso aconteça, o paradigma de gestão territorial precisa de evoluir para uma estratégia integrada. Isto implica cruzar incentivos fiscais locais atrativos com programas de reabilitação que incluam habitação acessível e a devida qualificação do espaço público, tornando as ruas mais seguras, acessíveis e atrativas para o peão.
O futuro de Almada Velha não pode continuar dependente de soluções avulsas ou de planos teóricos que tardam em materializar-se no terreno. O planeamento do território exige uma visão holística, onde o progresso e a inovação das novas frentes urbanas coexistam em harmonia com a valorização da memória coletiva e a reabilitação do edificado histórico.
Devolver a centralidade e a vivência quotidiana a Almada Velha é um dos maiores desafios urbanísticos da atualidade.
Exige o esforço conjunto das instituições locais, dos proprietários e da sociedade civil, assente numa premissa clara: a defesa da identidade do território e o desenvolvimento económico não são metas opostas, mas sim duas faces da mesma moeda. Encontrar as ferramentas certas para desburocratizar e reabilitar o coração da cidade é o caminho necessário para garantir que Almada cresce sem perder as suas raízes.






Texto muito bonito, boas ideias mas devemos olhar mais para o que se passa na actualidade! Ver com olhos de ver, sermos críticos.
Hoje o concelho está ao abandono porque o concelho não é só Almada mas toda a região em volta, a identidade do território já não existe a pobreza alastra sem controle( barracas) o lixo cada vez é mais, não existe responsabilidade da parte do executivo. Hoje como Almadense sinto vergonha do meu concelho porque está dado ao abandono.