Quem passa na Rua Bernardo Francisco da Costa, junto ao Mercado Municipal de Almada, dificilmente imagina que, entre os números 38B e 40, funciona um espaço onde é possível reparar bicicletas de forma gratuita. É também de bicicleta que Rui Sebastian chega todas as últimas quintas-feiras do mês à Cicloficina de Almada, que decorre entre as 18h e as 21h. Hoje, chega mais cedo porque a sessão é especial: marca o 11.º aniversário da iniciativa e vai haver bolo para comemorar.
“O objetivo não é que sejamos nós a sujar as mãos. Procuramos ensinar para que sejam as pessoas a consertar as suas próprias bicicletas”, conta ao ALMADENSE enquanto vai buscar ao armário das ferramentas um suporte para colocar a bicicleta de João, que está com problemas na corrente. No pequeno espaço da Cicloficina, que alberga já pouco mais de uma dezena de bicicletas antigas grandes e pequenas, é possível realizar pequenos arranjos como afinar os travões, mudar a câmara de ar ou encher os pneus. Rui trabalha no departamento de ambiente da Câmara Municipal de Almada e é um dos sete voluntários regulares da Cicloficina. João também é um deles.
Inspirado na Cicloficina dos Anjos, em Lisboa, o projeto de Almada nasceu de forma um pouco diferente do habitual. “Normalmente, as cicloficinas criam-se desta forma: as pessoas arranjam uma caixa de ferramentas, um amigo sabe mecânica, o outro quer aprender e acabam por começar a fazer uma sessão uma vez por mês”, conta Rui Sebastian. Assentes na partilha de conhecimentos e no apoio de voluntários, as cicloficinas funcionam como espaços abertos à comunidade, onde qualquer pessoa pode aprender a fazer pequenos arranjos e a realizar a manutenção básica da sua bicicleta.

Contudo, em Almada, foi a Câmara Municipal, através da Agência Municipal de Energia (entretanto extinta), que tomou a iniciativa e propôs à comunidade a criação de um espaço para reparação gratuita de bicicletas. “Os voluntários acabaram por surgir e a Câmara ajudou na divulgação nas redes sociais e fez os folhetos. Foi sempre um grande apoio”, diz Rui. A Cicloficina de Almada surgiu em 2015 e, inicialmente funcionou junto a um dos quiosques do Mercado Municipal de Almada.
Há três anos, mudou-se para a parte traseira do departamento de ambiente da Câmara Municipal de Almada, já que o anterior espaço se tinha tornado demasiado pequeno para tantos voluntários e para armazenar as bicicletas que recolhiam. Para além disso, as condições não eram as melhores. “Acabámos por vir para aqui, mas este espaço também não é o ideal”, adianta Rui Sebastian.
A Cicloficina acabou por crescer e começou a ser convidada para outros eventos, levando os voluntários a organizarem sessões extra, que já se tornaram regulares na segunda quinta-feira do mês. Em maio, também marcaram presença no Mercado Circular, que decorreu no Mercado das Torcatas, em Almada. Para facilitar as deslocações e o transporte de materiais, a Câmara de Almada acabou por adquirir também uma bicicleta elétrica para a Cicloficina.
Um espaço de trocas e de reparação

Vogal da Junta de Freguesia da União das Freguesias de Almada, Cova da Piedade, Pragal e Cacilhas (eleito pelo Livre), Martim de Freitas é a presença mais recente. Esta é apenas a terceira vez que vem à Cicloficina. Há um mês não tinha uma bicicleta, nem sabia andar nela. “Decidi que queria aprender a andar de bicicleta, mas para isso precisava de uma. Por isso, vim cá, peguei numa das bicicletas que aqui estava e comecei a arranjá-la com a ajuda dos voluntários”. Agora, já vai à Costa da Caparica de bicicleta, embora admita que sem vias cicláveis seguras “não é tarefa fácil”, conta ao ALMADENSE.
Para além da reparação de bicicletas, a Cicloficina de Almada tem também um sistema de trocas, que permite a qualquer pessoa reparar uma das muitas bicicletas que se encontram na entrada. “Na primeira sessão, pedi ajuda e arranjei o mínimo para que a bicicleta ficasse andável. Depois, fui arranjando as restantes coisas”, explica Martim enquanto muda as manetes da sua “nova” bicicleta, com ajuda de João, que lhe vai explicando o que deve fazer. Rui conta também que “muitos pais deixam as bicicletas antigas dos filhos e depois vêm cá trocá-las por outras maiores”, quando estes crescem.
Na Cicloficina, é possível encontrar, por vezes, peças de antigas bicicletas para que substituam outras que se estragam. Quando é necessário substituir por novas peças, os voluntários aconselham as pessoas a deslocarem-se às lojas da cidade de Almada. “As cicloficinas são oficinas comunitárias. Não querem substituir as lojas e até temos parcerias com elas. Nós incentivamos as pessoas a irem comprar e tentamos não ter stock. Não queremos competir”, sublinha Rui ao ALMADENSE. Também as próprias lojas acabam por incentivar os seus clientes a deslocarem-se à cicloficina, quando reconhecem que o arranjo pode ser muito caro.
Cicloficina como “reivindicação do espaço público”
Francisco Morais juntou-se à iniciativa há quatro anos. Residente no Seixal, era voluntário numa Cicloficina no concelho vizinho, mas acabou por se juntar à Cicloficina de Almada, após a sua fechar. Para o arquiteto, a Cicloficina é mais do que uma simples iniciativa municipal. “É importante porque tem de servir como reivindicação do espaço público”, sublinha ao ALMADENSE. “A bicicleta é um meio de transporte de baixo custo e sustentável e acaba por promover a mobilidade ativa”, acrescenta.
Um dos objetivos da cicloficina é, por isso, promover a bicicleta como um meio de deslocação sustentável, contribuindo para uma mobilidade mais ativa no concelho e para uma cidade menos dependente do automóvel. Além disso, o projeto promove a redução do desperdício ao incentivar a reutilização de peças e componentes provenientes de outras bicicletas, fomentando a circularidade dos recursos.

Voluntária desde 2023, Catarina Freitas não tem muita experiência em mecânica, mas ajuda na iniciativa através do apoio logístico, acolhendo e orientado os serviços e recursos disponíveis. Promover a bicicleta como meio de transporte sustentável foi um dos motivos que levou a engenheira do ambiente a juntar-se à Cicloficina de Almada. “A vontade de querer trazer esta consciência e este prazer a mais pessoas, quer por questões ambientais, de saúde e mesmo de liberdade e autonomia, fez-me aderir a este movimento”, conta ao ALMADENSE.
Tal como Rui, Francisco Morais admite que este espaço já se tornou pequeno para a quantidade de pessoas que participam regularmente. “Vêm cada vez mais pessoas à Cicloficina, por isso achamos que era preciso mudarmos para um espaço maior”, assegura.
Mais do que um espaço para arranjar bicicletas, a Cicloficina de Almada é também num local de convívio, onde se fazem amizades, e de ponto de encontro da comunidade. Como a cicloficina funciona ao final da tarde e início de noite, muitas vezes, o convívio prolonga-se após a sessão. “Acabamos, por vezes, por trazer comida ou, então, quando saímos, vamos jantar a qualquer sítio”, conta Rui Sebastian. Hoje é um desses dias. Como a cicloficina celebra 11 anos, o final da sessão fica marcada por um convívio, por aperitivos e, ainda, por um bolo de aniversário, trazido por Catarina, para se cantar os parabéns. Daqui a duas semanas, voltam a encontrar-se.
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