O luxo do cinema à porta de casa em Almada

João Limão, investigador na área dos Estudos de Comunicação

Em Almada, fomos ficando com as salas de cinema cada vez mais vazias até que acabaram mesmo por fechar. A SFUAP encerrou em 1986, o Piedense nos anos 80, o Cine Incrível em 1993, a sala do Centro Comercial M. Bica em 2000 e a Academia Almadense em 2007. Mas alguns cinemas continuaram a resistir a esta tendência.

Não sei bem o que é o luxo. Faltam-me expedientes para melhor conhecer este substantivo de avistamento difícil. Mas a internet devolve-me que é um conceito fluído e muito pessoal. Ou seja, o conceito extravasa a opulência ou ostentação material que o caracterizava e pode revestir-se das propriedades de exclusividade, qualidade ou raridade, que lhe poderão conferir um qualquer exotismo.

Deambulo nesta reflexão por ter pensado um destes dias no raro e luxuoso que é podermos ter cinema à porta de casa em Almada. Parece simples e demasiado prosaico. Mas não é. Defendo até que é cada vez mais raro, atendendo à proporção com que se têm fechado salas. De acordo com o Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA), os portugueses assistiram à chegada de 2026 com menos 112 salas de cinema, encerradas no ano anterior. São já cinco as capitais de distrito no país sem exibição comercial regular de cinema (Beja, Bragança, Guarda, Portalegre e Viana do Castelo).

Não é um fenómeno novo. Na minha cinefilia militante que me levou até algumas vezes a trocar aulas de licenciatura (as menos interessantes) por sessões na Cinemateca, acabei por ver fecharem-se muitas das salas que preenchiam o meu roteiro regular. O Condes (em 1996), o Quarteto (2007), o Londres (2013), o King (2013)… Também em Almada ocorreu algo idêntico.

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Encontro-me já demasiado distante do longínquo ano de 1914, quando o Cine-Patté abriu as suas portas no Largo da Câmara ou dos subsequentes Cine-Eclair, assim como das sessões do Clube José Avelino, que nos são relatadas no pequeno livro “Os Animatógrafos de Almada”. Mas recordo-me ainda de alguns dos pequenos (e grandes) cinemas da cidade. Recordo-me do alvoroço infantil das matinés aos domingos de manhã com o meu primo, no cineteatro do Clube Recreativo Piedense. Ali mesmo a poucos passos de casa, mas que me pareciam muitos nas pernas curtas dos cinco anos. Ou daquela montanha-russa de quase duas horas de emoções, do nó na garganta, ao lado da minha mãe, na sala da SFUAP, com o E.T a levantar voo no ecrã. Ou o espanto perante aquela sala de 830 lugares do Cine-Teatro da Academia Almadense, quando nós, mais de uma dezena de adolescentes, assistimos a uma sessão da tarde de “O Último Imperador”, num aniversário de uma colega de escola. Recordo-me mais tarde da sala semivazia do Piedense, numa sessão do “Aliens – O recontro final”, e de termos sido convidados para espreitar a sala de projeção. Ou de assistir aos “Cornos de Cronos”, no balcão de um Cine Incrível praticamente deserto. Ou ainda do modo como fomos impedidos de assistir a “Um Coração Selvagem”, na sala de cinema do Centro Comercial M. Bica, numa sessão da meia-noite que não tinha público suficiente. Éramos quatro e não se realizavam sessões com menos de cinco pessoas…

Tudo espaços que entretanto fecharam. A pouco e pouco — ou se calhar não tão devagar assim—, fomos ficando com salas cada vez mais vazias, com alguns curiosos e cinéfilos resistentes, até que estas acabaram mesmo por fechar. A SFUAP (1986), o Piedense (nos anos 80), o Cineteatro Incrível (1993), a sala do Centro Comercial M. Bica (2000) e a Academia Almadense (2007). Primeiro, havia sido a televisão a responsável pelo desvio de público, depois foi a vez dos videoclubes. Mais tarde, a televisão por cabo e o computador, mas também o tablet e o telemóvel. Os ecrãs foram ficando cada vez mais pequenos, e o consumo cada vez mais individualizado. O entretenimento passou a ocorrer mais dentro de casa e menos em espaços coletivos. Os cinemas ressentiram-se e começaram a desaparecer.

Mas alguns cinemas continuaram a resistir a esta tendência. Não apenas os cinemas multiplex no centro comercial. Mas os cinemas de bairro, de porta para a rua. Alguns continuaram a concorrer com os multiplexes, com a televisão e sobretudo com o cinema em casa. É certo que é confortável sentarmo-nos no sofá e usarmos o comando para escolher por entre uma imensa lista de filmes. Mas o ecrã em casa, por melhor e maior que seja, nunca é equiparável ao grande ecrã da sala de cinema. Como disse um dia Godard: “Quando vamos ao cinema, olhamos para cima; quando vemos televisão, olhamos para baixo” [no original: «Quand on va au cinéma, on lève la tête. Quand on regarde la télévision, on la baisse.»]. Ver cinema em casa faz com que se perca o périplo ritual à sala de cinema. Não interrompe a banalidade do dia-a-dia e apenas convoca o cinema para domesticação do quotidiano.

Desde o meu regresso a Almada que lentamente me fui deixando convencer pelo Auditório Fernando Lopes-Graça. Um dia uma sessão de um filme que não pudera ver em Lisboa, depois outra, de outro que estivera em exibição numa fase de prazos profissionais complicados, depois mais outras, até adquirir uma certa regularidade. Outras vezes, mais raras, consegui assistir a algumas sessões no Auditório Osvaldo Azinheira, na AIRFA, como as extensões do CineEco (Festival Internacional de Cinema Ambiental da Serra da Estrela), e outras, essas raríssimas, no Salão das Carochas, como “O Garoto de Charlot” numa sessão do Salão Piolho. Nunca visitei o Auditório da Costa da Caparica. Espero fazê-lo em breve. Agora, vemos chegar o novo CineCarochas, o anunciado cineclube de Almada, que se instala no já referido salão. É mais uma boa notícia. Mais uma sala para ver cinema perto de casa. Um ponto de entrada na ficção cinematográfica, mas também um ponto de encontro com o outro que, como eu, se assume como público, num duplo sentido da palavra: aquele que vê e que pode ser visto a partilhar essa ação.

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Eu agradeço e fico satisfeito. Saio de casa em cima da hora, de mãos nos bolsos, sem precisar de me enfiar no carro nem apanhar transporte público, e sigo a caminho, com a aragem fresca a bater-me no rosto, animado a imaginar o filme que irei ver a seguir e também as pessoas que poderei encontrar. Dizem-me que é pouco e que não é razão para tanto regozijo. Não ligo. Para mim, ficar perto, ir a pé, ter tempo e fazê-lo com gosto são tudo pequenos predicados de um certo tipo de luxo…

 

Novo cineclube nasce no Salão das Carochas, em Almada, para celebrar o cinema português

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