É no primeiro andar da Biblioteca José Saramago, no Feijó, em Almada, que Íris Bicho dinamiza um clube de leitura. O livro escolhido para o mês de maio foi “Ainda Não Estou Morta”, de Holly Jackson. Com as participantes sentadas em círculo, com vista para a Escola Secundária Romeu Correia, Íris pede para cada uma se apresentar, pergunta se todas leram o livro e qual foi a personagem preferida.
Com 22 anos, Íris Bicho concilia a vida académica com as atividades que desenvolve enquanto promotora de leitura. Foi durante a pandemia de Covid-19 que começou a fazer vídeos para as redes sociais sobre os livros que lhe passavam pelas mãos. Natural de Almada, recorda que a sua primeira casa se localizava a cinco minutos a pé da Biblioteca Central de Almada. Incentivada pela mãe, que a levava às bibliotecas, e pelas avós, que lhe compravam os livros de que mais gostava, acabou por adquirir desde cedo o gosto pela leitura.
Contudo, tal como muitas pessoas, foi a pandemia, que confinou milhões de pessoas nas suas casas, que a levou a retomar com mais regularidade a leitura. “Sempre fui uma pessoa muito irrequieta, precisava de estar sempre a fazer alguma coisa e a leitura acabou por surgir como um novo passatempo”, relata.
Depois disso, a vontade em conversar sobre livros levou ao surgimento do interesse pelas redes sociais. “Queria alguém para poder falar sobre livros e apesar da minha mãe gostar muito de ler, ela só gosta de um tipo de específico de livros”, conta. Com o objetivo de encontrar alguém com quem falar sobre livros, Íris Bicho entrou no BookTok e começou a fazer vídeos regularmente para esta plataforma.
Diariamente, Íris publica vídeos no TikTok e no Instagram, onde fala das suas leituras semanais, desafiando-se também a ler vários livros ao longo de uma semana. Nos vídeos que grava no escritório de casa, onde tem uma pequena biblioteca, fala regularmente sobre os livros que mais gosta, recomendando-os a qualquer pessoa que a assista.
BookTok: um fenómeno que influencia milhões
O BookTok, um fenómeno internacional da rede social TikTok, surgiu durante a pandemia de covid-19, quando muitas pessoas começaram a desenvolver outros passatempos. Resultando da junção entre book (livro) e tok (referente aos criadores de conteúdo para o TikTok), esta tendência tem como foco vídeos sobre livros, com muitas pessoas a partilharem as suas leituras e a recomendarem livros a quem os vê.
Graças aos seus vídeos sobre livros, Íris Bicho acabou por crescer nas redes sociais e, hoje, conta com mais de 30 mil seguidores, somando um milhão e meio de “gostos” no TikTok. Dada a sua visibilidade, para além de receber livros em primeira mão, começou a ser convidada pelas editoras para apresentações de livros, para eventos de lançamentos de novidades literárias, para moderar conversas e, ainda, para participar em debates sobre o mundo da leitura.
Este ano, já teve a “oportunidade de conhecer vários locais de Portugal, visitar escolas, contactar com autores e viver experiências” que, há cinco anos, lhe teriam parecido “impossíveis”, revela. Também em Almada, tem marcado presença em várias iniciativas, como aconteceu em abril, no festival literário “Raios Partam os Livros”.
Mais do que um passatempo, admite que, hoje em dia, encara a leitura ”já quase como um trabalho e não apenas como um hobby“, participando em diversas atividades ligadas a este universo, que lhe permitem retirar um rendimento. “Nunca pensei que chegasse até aqui”, diz.
Tendo, por isso, um grande alcance nesta plataforma, reconhece que acaba por ter influência naquilo que alguns jovens que a veem leem. “Já recebi diversos comentários de pessoas a dizer que não gostavam de ler e começaram a ler por causa dos meus vídeos ou que começaram a ler mais também por causa deles”, revela com entusiasmo. Se há alguns anos não tinha com quem falar sobre livros, agora, muitos dos seus amigos são leitores e “também já leem”, confessa.
Depois disso, Íris Bicho começou também “a ser convidada para escolas, para bibliotecas, para atividades na vida real”, conta. Quando vai às escolas, os professores agradecem-lhe imenso, admitindo que ela acaba por ter uma grande influência sob os alunos. “Os professores, muitas vezes, dizem-me que os seus alunos prestaram mais atenção à minha atividade do que a muitas aulas”, descreve. “É importante existir alguém a falar uma linguagem mais próxima da deles”.
Para a booktoker, parte dessa ligação nasce precisamente da identificação geracional criada nas redes sociais, já que muitos jovens acabam por se rever mais facilmente em alguém da sua idade a falar de livros de forma espontânea e informal, tornando a leitura menos associada à obrigação escolar. “O importante é começar”, diz.
Efeito BookTok no mercado livreiro

Para além do incentivo à leitura, o BookTok acabou por influenciar o mercado livreiro, principalmente o nacional. Segundo dados da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL), em 2025, foram vendidos em Portugal mais 6,9% de livros do que em 2024, passando de 13,9 milhões para 14,8 milhões de exemplares comercializados.
Mas o efeito do BookTok vai além do crescimento no número de livros vendidos, com muitas editoras a traduzirem livros que se tornaram famosos nesta rede social. “Hoje, existem muitos livros que têm, por exemplo, aqueles autocolantes de fenómeno do BookTok”, explica. “As próprias livrarias e editoras estão atentas ao impacto que as redes sociais têm.”
Também os autores nacionais têm beneficiado deste fenómeno, já que acaba por ser uma grande oportunidade para estes “se poderem expor e dar a conhecer”, acredita Íris Bicho. “Acho que nunca vi tantos autores nacionais e tantos jovens autores nacionais a serem publicados como nos últimos dois anos”, diz. Muitos destes autores entram em contacto com ela através das redes sociais para lhe oferecerem em primeira mão as suas novidades. A booktoker procura, por isso, divulgar estes novos escritores, dando-lhes outro espaço para se apresentarem ao público.
Contudo, embora se tenha verificado um crescimento do mercado livreiro em geral, parte desse aumento deve-se também ao crescimento do mercado de livros em inglês, igualmente impulsionada pelo BookTok. Íris Bicho admite que existem alguns entraves à leitura de livros em português, uma vez que, em muitos casos, “há livros que conseguem ser metade do preço ou dois terços do preço de um livro em português”, explica. Para atrair mais consumidores para o mercado em português, as editoras têm vindo a procurar responder de forma mais célere, procurando “tentar publicar o mais rapidamente possível os livros em português, com alguns lançamentos mundiais a acontecerem em simultâneo”.
Também devido ao fator financeiro, considera que as bibliotecas continuam a desempenhar um papel essencial no incentivo à leitura, ao permitirem o empréstimo de livros à população, tanto em formato físico como digital, através de iniciativas como a BiblioLED. “O livro digital cresceu imenso nos últimos anos e esta foi uma iniciativa incrível”, refere. Além disso, para Íris, é fundamental continuar “a tentar chegar a mais leitores, dirigindo atividades para várias faixas etárias”, bem como “fora do centro de Lisboa”.
No futuro, a jovem pretende continuar “a tentar incentivar as pessoas a lerem”, mas também quer “continuar a ver isto como algo divertido e não apenas como um trabalho”. Quero “poder continuar a apresentar livros de autores portugueses, divulgar os seus trabalhos e partilhar a leitura com o máximo de pessoas possível”.
Para além de incentivar à leitura através dos vídeos que publica nas redes sociais, a booktoker considera importante continuar a promover o contacto com os livros também fora do ecrã, através do Clube do Livro que dinamiza na Biblioteca José Saramago, no Feijó.
No fim da sessão de maio, Íris revela a próxima leitura. “Um a Zero”, do português Bruno Leão, vai ser a próximo livro a ser discutido, numa sessão, que vai contar com a presença do autor. O objetivo, garante, é continuar a atrair novos leitores e a criar espaços de convívio e comunidade em torno da leitura.






