Associação TransMissão: apoiar e celebrar a comunidade trans em Almada

Criada em 2017, a TransMissão tem há seis meses um espaço físico em Almada. É a única associação que trabalha especificamente com e para a comunidade transgénero e não-binária no país.

 

Desde 2017 que a associação TransMissão apoia e celebra a comunidade transgénero e não-binária em todo país, através da facilitação de acesso a apoio psicológico, momentos de convívio, exposições culturais e ativismo político.

“Nunca tivemos qualquer problema por sermos abertamente trans. Por vezes perguntam-nos o que isso significa e a definição simples é: são pessoas que não se identificam no género que lhes foi atribuído à nascença”, explica Sacha ao ALMADENSE. Cofundador da TransMissão, este tradutor francês de 36 anos, vive em Portugal há oito anos.

Sobre as pessoas não-binárias, a associação explica que se trata de um “termo guarda-chuva”, que inclui várias identidades que não são integralmente ou exclusivamente “mulher” ou “homem”, questionando a “binariedade vigente”. Estas podem ou não identificar-se como trans.

A associação nasce da necessidade de colocar o foco da luta trans na “despatologização, nas identidades e na autodeterminação”, explica, por seu lado, Laura Rendas, estudante de Artes com 20 anos. Natural de Setúbal, faz trabalho voluntário na TransMissão há cerca de um ano.

Foi em setembro de 2021 que a TransMissão se instalou no centro de Almada, no nº 20A da Rua da Liberdade. As ações realizadas no novo espaço são essencialmente de vertente comunitária, focadas na “ajuda individual e apoio psicológico” explica Laura. “Temos cozinha, casa de banho e roupa, para quem na comunidade precise. Existe também um palco e exposições para dar apoio a artistas trans nacionais”, acrescenta.

 

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A escolha de Almada para a abertura de um espaço físico foi motivada pelas elevadas rendas em Lisboa. No entanto, Sacha reconhece a importância de descentralizar estas associações como forma de criar pontes entre pessoas trans e não-binárias que vivem em Portugal.

“É a primeira vez que temos um espaço nosso, que nos permite convidar outros coletivos e artistas. É muito poderoso termos este espaço físico, porque existimos oficialmente na rua, explica Sacha, lamentando que muitas vezes, as pessoas transgénero e não-binárias vivam “confinadas na marginalidade”.

Para além da participação em manifestações pelos direitos LGBT, a ação política da TransMissão destacou-se na pressão que fizeram junto de partidos e na participação em reuniões parlamentares após a aprovação da Lei nº 38/2018, que estabelece o direito à autodeterminação e expressão de género, com avanços como a possibilidade de alteração do nome no registo civil ou a proibição de que alguma pessoa seja obrigada a comprovar ter sido submetida a procedimentos médicos relacionados com a identidade de género.

 

Isolamento e precariedade: os desafios da pandemia

A importância de um espaço físico prende-se essencialmente com a procura de um lugar de reunião presencial e convívio em épocas festivas. “No Natal decorámos o espaço, trocámos prendas e fizemos uma ceia. Recebemos pouca gente, mas sem isso essas pessoas teriam passado a quadra sozinhas”, conta Sacha.

A interação social é um elemento central de apoio que foi desafiado pela covid-19, com grande impacto no isolamento da comunidade. “As pessoas trans e não binárias, muitas das vezes sentem-se isoladas dentro da família. Para contrariar isso, criámos conversas online que eram um espaço não moderado onde se podia conversar e desabafar”, recorda.

 

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A precariedade e o acesso dificultado a cuidados médicos como consultas psicológicas e medicação hormonal foram outros dos desafios. “A pandemia veio dificultar o acesso ao trabalho informal. Muitas pessoas ficaram sem recursos e sem alimentação”, explica Sacha.

“Em 2020 criámos, com outras associações e ativistas, uma rede de apoio trans para prestar ajuda alimentar, financeira e de medicação específica como terapia hormonal. A rede teve de parar alguns meses devido ao desgaste das pessoas voluntárias. Infelizmente, o nosso ativismo ainda não é muito sustentável”, explica.

De momento, a TransMissão continua a ter um papel central na área digital. Nas redes sociais, explica Laura, estão disponíveis as atividades semanais e o horário do espaço físico. Durante o mês de Março pode ver-se no espaço em Almada a exposição Lune’s Graveyars (em português, O Cemitério de Lune), artista não binária que satiriza a relação entre a religião e a imposição de padrões de género desde a nascença e ao longo da vida.

 

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