Quarta-feira, Junho 12, 2024
CulturaDestaqueOutros DestaquesReportagens

Em Almada Velha, há um “petisco” especial servido com música e convívio

Almada Velha tem vindo a recuperar a dinâmica cultural graças ao “Petisco da Lata”, onde a diversidade musical se junta à conversa, servida entre cálices de vinho e conservas variadas.

 

Há uma esquina envidraçada, em Almada Velha, que acolhe um espaço especial, onde a música ao vivo e o palco aberto têm vindo a estimular uma dinâmica cultural em crescimento. No “Petisco da Lata” ouvem-se guitarras, flautas, melódicas, harmónicas, e por vezes, até um bandonéon —instrumento tradicional da Argentina. 

Hoje é quinta-feira, dia de palco aberto. Márcio Lima abre as hostes com a flauta e começa a tocar “Lamentos”, de Pixinguinha. Enquanto isso, Ronaldo Januário já está de harmónica em punho, preparando-se para se juntar à melodia. Pelo meio, Márcio vai contando um pouco da história e da música do Brasil, lançando muitas vezes o mote para as conversas que acabam por se propagar pelas mesas.

Publicidade
FCT-gif-2

A partir dali, tudo pode acontecer: nas noites de palco aberto, qualquer pessoa pode partilhar a sua criatividade junto do balcão do “Petisco”. Por vezes também condimentadas com leituras de poesia ou até momentos de sapateado, os longos serões no “Petisco” começam pelas 21h e prolongam-se pela noite dentro. Ninguém sabe quando irá terminar este espaço de liberdade e de partilha, onde se bebe cultura e inspiração.

À sexta-feira, Márcio regressa para encantar os petisqueiros em nome próprio, trazendo um serão acústico de chorinho e samba, sempre marcado pelas “histórias da música do Brasil”. Ao sábado, é o dia de Jô Franzine, músico que se faz acompanhar pelo seu “violão”, animar a noite.

 

PetiscodaLata
Jô Franzine e Ronaldo Januário juntos durante um serão musical.

 

Um encontro inesperado

Longe vão os dias em que Márcio Lima, músico e professor de educação musical “tocava só para a Susy e a Rosane”, as proprietárias do “Petisco da Lata”, localizado na Rua da Judiaria, na zona histórica de Almada. Foi em 2019 que teve início a história da música ao vivo no pitoresco espaço, quando o destino de Márcio se cruzou com o de Frederico Bolivar, jornalista televisivo natural do estado de Minas Gerais, no Brasil, que na altura vivia em Almada. 

Conheceram-se em Lisboa. Juntos, atravessaram o Tejo de cacilheiro, fizeram o caminho do Cais do Ginjal, subiram no elevador da Boca do Vento, assistiram ao pôr do sol, e depois rumaram à zona velha da cidade, chegando ao “Petisco”. Assim que conheceu o local, Márcio Lima, que canta, toca guitarra, flauta bisel e transversal, percebeu imediatamente que ali gostaria de partilhar a sua arte, propondo às duas proprietárias tocar às sextas-feiras. “Elas nunca tinham pensado em transformar o espaço num local de música ao vivo, mas aceitaram de imediato a sugestão e fizemos a experiência”, conta Márcio ao ALMADENSE, pouco antes de voltar a tocar “João e Maria”, de Chico Buarque.

No início, recorda, estávamos “só eu e elas”. Mas a experiência correu tão bem que rapidamente a noite musical se tornaria na mais concorrida da semana. Uns meses depois, Márcio trouxe uma amiga, a artista Tatiana Cobbett, para o ver a tocar. Acabaria por se tornar ela própria na principal impulsionadora das noites de palco aberto, que passariam a ter lugar todas as quintas-feiras. “A Tatiana ficou encantada com o espaço e quis trazer para cá o seu projeto intitulado “Ponto de Luz”. Como ela costuma dizer: “Tem aí um ponto de luz (tomada)? Então a gente ilumina”.

Com o tempo, a iniciativa foi atraindo mais e mais pessoas. Músicos e artistas começaram a misturar-se entre visitantes e curiosos. Apareceu Ronaldo Januário, instrumentista brasileiro, depois chegou Amaru, músico argentino, Michel, de origem belga que costuma cantar e toca cavaquinho, Laffayete Alvares Jr, cantor, Duarte Sobral, que costuma trazer o clarinete baixo, entre muitos outros. Quando chegou Jô Franzine, a música tornou-se regular também aos sábados. 

 

Melodia que embala os petiscos

Enquanto músico, o que atraiu inicialmente Ronaldo Januário ao “Petisco” foi a “possibilidade de ficar a tocar a noite toda vários estilos de música. Isso dá-me inspiração para escrever e tocar outros instrumentos”, conta. O músico, que se afirma “devoto da cultura blues”, também procura trazer para o palco aberto músicas mais antigas que falam de questões sociais. “É uma forma de criar uma viagem, uma boa viagem”, explica.

No futuro, Ronaldo acredita que a experiência musical que se cria no Petisco pode ir ainda mais além. “Estamos num centro histórico! Gostava de trazer os músicos mais velhos de Almada para tocarem connosco”, afirma.

 

PetiscodaLata

 

A afirmação do “plano B”

De terça a sábado, o “Petisco na Lata” abre as suas portas para um ambiente íntimo e com cores quentes que desperta o apetite para os petiscos e as conservas servidas por Susana Bourscheidt (mais conhecida por Susy) e Rosane Prola. 

Foi há sete anos que as duas sócias criaram este espaço especial em Almada Velha. Ao subir um degrau, entramos num lugar diferente, com cadeiras requintadas, móveis restaurados, gavetas no lugar de prateleiras e castiçais altos que iluminam as noites deste recanto da margem sul. A luz amarela das lâmpadas e das velas torna o ambiente acolhedor, num jogo de equilíbrio entre a decoração antiga e a criatividade. Mas todas as noites o mais quente é amabilidade e alegria com que Susy e Rosane recebem os visitantes.

“Esta semana recebemos uns clientes que vieram a Almada para ver um espetáculo e vieram aqui jantar. Acabaram por não ir ao concerto. Gostaram do ambiente, da música, da alegria e ficaram”, conta Rosane ao ALMADENSE.

O espaço parece um dominó bem montado de peças restauradas por Susy, a principal responsável pela decoração do espaço. “Para cada canto que se olha, há um detalhe”, nota Rosane. Há discos de vinil, livros e peças de mobiliário que são um deleite quando o olhar pousa no ambiente, já embalados pela música acústica e o paladar ora doce, ora ácido do vinho.

Ao sabor de um cálice, uma caipirinha ou de uma das variadas conservas, cuidadosamente selecionadas pela dupla, acompanhadas com pão ou queijo, ouvem-se melodias e vozes que atravessam culturas noite fora.

“Temos paladares diferentes. A nossa oferta é uma outra coisa, é uma experiência diferente e nós já conquistámos o público português” diz Susy sobre o projeto que era na verdade o “plano B” da dupla. A ideia inicial passava pela criação de um alojamento local em Almada Velha. Depois de vários anos a trabalhar em restauração, estavam com vontade de mudar de ambiente. Mas não foi assim que aconteceu.

As duas sócias conheceram-se em Porto Alegre, no Brasil, de onde são naturais. Na altura, Susy era produtora de espetáculos, enquanto Rosane vendia publicidade em revistas especializadas. 

Rosane veio para Portugal em 1989, trabalhou em vários restaurantes, tendo sido gerente do “Atira-te ao Rio”, no Cais do Ginjal, durante 20 anos. Quando Susy chegou a Portugal, em 1999, juntou-se à amiga no restaurante ribeirinho, onde trabalhou durante oito anos.

“Uma das coisas que eu não queria era trabalhar com ela, mas não adiantou”, conta Rosane entre risos. A verdade é que as duas são “ótimas a trabalhar juntas”, acabam por admitir. E isso nota-se no resultado. Inicialmente, o conceito do “Petisco na Lata” começou por ser sobretudo uma loja gourmet, mas depois “a Susy começou a fazer comida e acabou a conquistar o coração dos portugueses”.

Na abertura, em 2016, as duas empreendedoras experimentaram um horário mais diurno para o “Petisco na Lata”, mas depois da pandemia as pessoas “habituaram-se a jantar em casa e só começam a chegar depois das 22h”. Assim, definiram o horário que hoje se mantém: de terça a domingo, das 17h à meia-noite.

Admitem que os pequenos negócios são um desafio e que as despesas aumentaram muito desde 2016. Por isso, para pagar aos músicos, os “petisqueiros habituais” sugeriram a introdução do que chamaram um “couvert artístico”: dois euros que cada cliente paga e que revertem diretamente para os artistas que atuam naquela noite.

Depois de idas e vindas do Brasil, hoje Rosane e Susy sentem-se bem em Almada e é aqui que pretendem continuar a praticar a sua arte de bem receber. A elas juntam-se cada vez mais vozes e músicos de vários cantos do mundo, que ali param umas horas à noite para cantar e encantar os almadenses e todos os que visitam aquela esquina envidraçada da Rua da Judiaria, em Almada Velha.

 

Texto: Andreia Gonçalves e Maria João Morais

Fotos: Andreia Gonçalves

 

Dia Internacional dos Museus celebra-se com doze atividades em Almada

Publicidade
fct-cientistas

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *