Rendas em Almada estão “completamente desfasadas da realidade”

Depois de Lisboa, o drama de quem procura casa para arrendar rapidamente se estendeu a Almada. As fortes subidas de preços que verificaram nos últimos meses estão a levar muitos almadenses ao desespero.

 

Marta Monteiro vivia até há poucos meses com o filho de sete anos num T2 na zona das Torcatas, em Almada, pelo qual pagava 250 euros mensais. Deixou o apartamento para apoiar de forma provisória um familiar. Mas quando quis voltar a arrendar uma casa, a jovem de 27 anos percebeu que era tarefa impossível. “Consulto os sites de ofertas todos os dias, mas nem vale a pena ir visitar: não há nada que eu possa pagar”, conta ao ALMADENSE.

Neste momento está desempregada, mas Marta trabalha desde os 18 anos. Mesmo quando ganhava o salário mínimo, conseguia pagar a renda e assumir as despesas dela e do filho. No entanto, “hoje em dia é impossível. O preço de um apartamento em Almada é superior ao salário mínimo. Há um desfasamento total da realidade”, lamenta.

Grávida de quatro meses, vive atualmente na sala de uma amiga com o filho. Sem contar com o apoio do ex-companheiro, calcula que, no máximo, pudesse pagar 300 euros por um apartamento. No entanto, hoje nem um quarto encontra por esse valor.

Os preços elevados têm levado também a um forte aumento dos pedidos de apoio na secção de Almada da Associação dos Inquilinos Lisbonenses. “Todos os dias temos conhecimento de cartas de proprietários a denunciarem os contratos para depois aumentarem as rendas”, conta Ana Galego, que receia que a situação possa “levar a um aumento dos bairros de lata em Almada”.

Nem os mais velhos estão protegidos. “Temos vários casos de pessoas com 70 e 80 anos que perderam as suas casas”, refere. Uma delas é Maria Novo que, aos 78 anos, se prepara para deixar o apartamento T1 que habitou durante anos no Laranjeiro. O contrato de 260 euros está prestes a terminar, pelo que não terá outra alternativa do que mudar-se para uma casa de família no interior do país.

 

Praticam-se valores “impensáveis há seis meses”

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“Para cada casa que consigo para arrendar, tenho 50 pessoas à procura”, constata Paulo Esteves, gerente da imobiliária Century 21 em Almada. “Tenho uma lista de espera de muitas pessoas e não tenho casas para lhes oferecer. Assim que aparece uma, na mesma tarde fica arrendada”, conta ao ALMADENSE.

Rui Pedro Ferreira, da imobiliária Casas do Rui Pedro, que opera sobretudo na margem sul do Tejo, tem uma experiência semelhante: “quando temos uma casa para arrendar colocamos no site durante 15 minutos. É o tempo suficiente para recebermos 25 ou 30 contactos de clientes interessados”.

A proximidade a Lisboa e a escassez de oferta são apontados como principais fatores responsáveis pelo forte aquecimento do mercado de arrendamento em Almada nos últimos meses. Hoje um T3 em Cacilhas pode chegar facilmente aos 1000 euros. Praticam-se valores considerados “impensáveis há seis meses”.

A complicar a situação, o profissional aponta ainda a burocracia associada ao mercado de arrendamento como entrave para muitos dos que procuram casa. Considerando todos os documentos, comprovativos de rendimentos e avais necessários, “chega a ser mais complicado fazer um contrato de arrendamento do que um processo de compra e venda”, assinala Paulo Esteves.

Tendo em conta a dificuldade em encontrar habitação, há pessoas dispostas abrir os cordões à bolsa para assegurar um imóvel: “Aluguei um T3 na Charneca da Caparica por 1400 euros, em que o cliente pagou um ano à cabeça para garantir a casa. Desembolsou 16800 mil euros”, recorda Rui Pedro Ferreira.

 

Falta de oferta dificulta situação

“Em Portugal há uma falta de cultura de arrendamento”, e Almada -onde há milhares de casas desocupadas- não é exceção, observa Paulo Esteves. “Os proprietários ainda têm receio do arrendamento, acham que pode dar chatices”, refere o agente imobiliário. Por isso, “muitos senhorios preferem ter as casas fechadas do que colocá-las no mercado de arrendamento”, reconhecem na Associação de Inquilinos. A impressão é partilhada pelos agentes imobiliários que trabalham no concelho de Almada.

Por isso, para os operadores consultados pelo ALMADENSE, esta é uma área que precisa de medidas especiais, uma vez que é “fundamental” que imóveis hoje sem utilização regressem ao mercado. “Poderia haver benefícios fiscais para quem tinha as casas fechadas e as coloca a arrendar”, sugere Rui Pedro Ferreira. Já Paulo Esteves vai mais longe, admitindo “um maior agravamento de impostos para quem tem casas vazias”.

A nível global, apontam ainda a necessidade de aumentar a regulação do mercado de arrendamento, de forma a evitar que os preços continuem a subir de forma acelerada e, assim, mitigar o “desequilíbrio” que hoje se verifica. Quanto à autarquia, deveria “lançar medidas concretas para facilitar o arrendamento”, aponta Paulo Esteves.

No entanto, para além do projeto designado Almada Poente, que prevê a construção de 3500 fogos (mas que só começará a entregar casas a partir de 2023), não se conhecem outros planos do município de Almada para mitigar os problemas habitacionais no concelho. O ALMADENSE tentou obter mais informações sobre os planos da Câmara Municipal de Almada, mas a vereadora com o pelouro da Habitação, Teodolinda Silveira, não respondeu às questões colocadas.

Entretanto, os operadores temem que a situação só tenha tendência a agravar-se: “custa-me dizer às pessoas que não tenho casas. Socialmente é terrível não ter oferta para dar às pessoas”, afirma Paulo Esteves. Por sua vez, Marta Monteiro deixa o apelo: “não quero subsídios, só preciso de um tecto, uma casa para viver”, desabafa.

 

Pedidos de apoio social em Almada multiplicam-se

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