Leques, ventoinhas e gabinetes inutilizados: calor continua a afetar centros de saúde de Almada

Utentes e profissionais enfrentam temperaturas elevadas nos centros de saúde de Almada. Câmara promete obras de requalificação em várias unidades, sem avançar datas.

Ao entrar na Unidade de Saúde Familiar (USF) Baía Tejo, localizada no 4.º piso do edifício da Av. Rainha Dona Leonor, no centro de Almada, sente-se de imediato o calor. A sala está cheia e vários utentes utilizam leques para se abanarem, tentando aliviar o desconforto. Outros optam por se juntar na pequena sala de espera, onde existe uma ventoinha no teto e algumas janelas estão abertas.

Cristina Pimenta espera há 15 minutos para ser atendida. Mostra o leque vermelho que acabou de guardar na mala. “Desde que entrei que tenho estado a abanar-me. Não se pode estar aqui”, diz ao ALMADENSE. A utente sentou-se junto às escadas, já que boa parte das cadeiras estão localizadas perto das janelas, que não abrem. “Não dá para se sentar ali, o sol está sempre a bater e fica ainda mais calor”, desabafa.

“Em quase todo o edifício há problemas com o calor, mas nos pisos 3 e 4 a situação é pior”, diz Ângela Valente, uma das seguranças que trabalha no edifício da Av. Rainha Dona Leonor, onde funcionam quatro unidades de saúde. “Nestes pisos, a situação é insustentável, é um sufoco”, diz. “Há algumas semanas tivemos de chamar uma ambulância porque uma pessoa estava a sentir-se mal, estava com falta de ar”, conta a profissional.

Em Almada, os problemas de climatização não são exclusivos deste edifício: a realidade é transversal a praticamente todos os centros de saúde do concelho. Em instalações antigas e com necessidades de manutenção, é frequente encontrar janelas danificadas, muitas vezes sem estores ou vidros duplos. As consequências fazem-se sentir tanto pelos utentes como pelos profissionais: nas salas de espera, as ventoinhas são utilizadas para tentar atenuar o calor. Nos gabinetes médicos, onde essas soluções nem sempre existem, as condições de trabalho tornam-se particularmente difíceis.

A situação não é nova e arrasta-se há vários anos. Em julho de 2024, a Comissão de Utentes da Saúde do Concelho de Almada (CUSCA) já alertava para a o problema, instando a Câmara Municipal de Almada, que nesse ano assumiu competências na área da saúde, a tomar medidas urgentes para resolver o problema.

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Há cerca de um ano, em julho 2025, a autarquia dizia ao Observador ter lançado um concurso público para a substituição integral dos aparelhos de ar condicionado em todas as USF de Almada. No entanto, questionada pelo ALMADENSE, a autarquia diz que neste momento não “existe um concurso público destinado à substituição integral dos aparelhos de ar condicionado das unidades de saúde do concelho”. De acordo com a mesma fonte, o que está agora a ser desenvolvido é “um conjunto de intervenções de manutenção, requalificação e substituição de equipamentos AVAC (Aquecimento, Ventilação e Ar Condicionado), na sequência da identificação de necessidades em 12 edifícios municipais onde são prestados cuidados de saúde”.

Para responder “às situações mais críticas de sobreaquecimento”, a Câmara de Almada garante que “adquiriu, em agosto de 2024, nove unidades portáteis de ar condicionado”, que foram distribuídas pela USF Feijó, USF Saúde Laranjeiro, pelas várias unidades de saúde no edifício na Avenida Rainha D. Leonor, pela USF Charneca do Sol e pela USF Nova Caparica. Está prevista ainda “a aquisição de mais dez unidades portáteis de ar condicionado para o edifício da Av. Rainha Dona Leonor, edifício do Laranjeiro, edifício da Sobreda e edifício do Monte de Caparica”, indicou ao ALMADENSE.

Tendo conhecimento da entrega de aparelhos portáteis de ar condicionado aos centros de saúde de Almada, Luísa Ramos, porta-voz Comissão de Utentes da Saúde do Concelho de Almada (CUSCA), afirma que “houve uma evolução positiva com a colocação destes aparelhos”, reconhecendo que “há caminho que está a ser feito”. A responsável sublinha, contudo, que a medida “não resolve o problema”. Perante a falta de resposta à “maioria das situações”, Luísa Ramos considera o cenário “lamentável”. “Sabemos que os médicos precisam de condições para dar consultas. Um médico não pode estar encharcado em suor enquanto fala com um utente”, refere.

Depois de fazer um levantamento das necessidades nos centros de saúde do concelho, a Comissão de Utentes concluiu que, embora a falta de ar condicionado seja uma realidade transversal a todas as unidades de saúde de Almada, as USF da Cova da Piedade e Baía do Tejo são as que apresentam a situação mais grave. O levantamento foi entregue à Câmara Municipal de Almada, mas a resposta obtida revelou-se pouco esclarecedora.

 

“Já fizemos queixas, mas continua tudo igual

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Ventoinha na sala de espera da USF Baía Tejo. Foto: Maria João Morais / Almadense

Entretanto, enquanto se aguardam as intervenções prometidas, o calor continua a fazer-se sentir no edifício da Av. Rainha Dona Leonor, onde funcionam, entre outras, a USF Baía Tejo e a USF Cova da Piedade. Para tentar minimizar o impacto das temperaturas elevadas, foram espalhadas ventoinhas pelo edifício.

Nos pisos 3 e 4, as funcionárias administrativas colocaram ventoinhas atrás dos balcões. Só nesta zona há pelo menos três equipamentos, comprados pelos próprios funcionários. No piso 6, uma outra ventoinha foi colocada no chão, a meio do corredor de acesso aos gabinetes médicos. “Tivemos de colocar esta ventoinha aqui, porque não há forma de o ar circular”, relata Ângela Valente ao ALMADENSE, explicando que alguns gabinetes estão inutilizados porque “os médicos não conseguem trabalhar com o calor que se faz sentir lá dentro”.

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Enfermeira na USF da Cova Piedade há 18 anos, Cristina Quintas refere que a situação piorou nos últimos anos. “Os aparelhos eram antigos e começaram a deixar de funcionar devido à falta de manutenção”, diz. “Chegámos a ponderar marcar menos consultas, porque não temos gabinetes suficientes que estejam em condições”, revela a enfermeira. “Durante a hora de almoço, a situação piora, já que o sol está constantemente a bater aqui”, acrescenta. “Fizemos imensas queixas, mas continua tudo igual”.

Ao ALMADENSE, a Câmara Municipal assegura que, no âmbito do conjunto de intervenções previstas, já foram realizadas obras de requalificação em várias USF do concelho, acrescentando que estão em curso ou em fase de preparação outras intervenções, nomeadamente nas unidades que funcionam na Av. Rainha Dona Leonor. Questionada sobre a previsão para a conclusão dos trabalhos, a autarquia indica que “as intervenções se encontram em diferentes fases de execução, não existindo uma data única para a conclusão global dos trabalhos”.

 

Com Maria João Morais

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