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Rodrigo Francisco: “A relação que desenvolvemos com os espetadores não se esgota com a ida ao teatro”

Em 2012 tornou-se no mais jovem diretor de teatro do país, ao suceder a Joaquim Benite, de quem foi assistente e com quem desenvolveu uma visão de teatro para a comunidade, que hoje continua a imprimir nas criações que coloca em palco.

Neste Dia Mundial do Teatro, 27 de março, viajamos com Rodrigo Francisco, diretor artístico da Companhia de Teatro de Almada (CTA), pela origem do grupo que aqui se instalou em 1978 —vindo de Campolide— e pelo trabalho que veio a desenvolver, tanto na dinamização cultural como na criação de um público novo em Almada.

Um público de várias camadas, que hoje continua a aderir ao “prazer inteligente da reflexão e de consciencialização política” a que a companhia de teatro o convoca. Afinal, os quase 50 anos de atividade contínua em Almada deram “os seus frutos”, acredita o diretor, que olha para si “mais um autor do que um encenador”.

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O primeiro contacto que teve com o teatro foi um pouco por acaso. Como é que se deu essa evolução até, anos depois, em 2012, se tornar no mais jovem diretor de uma companhia histórica do país?

Aos 16 anos fui bater à porta do teatro de Almada a dizer que precisava de um trabalho de verão. Na altura estava-se a trabalhar no Festival de Almada e acabei por colaborar na edição desse ano, em 1997. Participei na montagem da peça “O Carteiro de Pablo Neruda”, que foi um espetáculo marcante da companhia. Acabei por ficar a trabalhar na companhia esporadicamente, ao mesmo tempo que estudava. Primeiro no secundário e depois já no ensino superior.

 

Desde essa altura que esteve sempre ligado à Companhia de Teatro de Almada?

Exatamente. E tive sempre uma ligação a Joaquim Benite. A dada altura, ele convida-me para trabalhar numa parte da atividade da companhia que lhe era muito cara, que era a atividade de edições. Uma componente que ainda hoje mantemos: a edição dos programas. Cada vez que há uma estreia, publicamos um conjunto de textos que têm a ver com o espetáculo que levamos a cena. A dada altura, o Joaquim percebeu que eu tinha uma pulsão para escrever e desafiou-me a escrever uma primeira peça e eu escrevi, intitulada “Quarto Minguante”, que estreou em 2007, encenada por ele.

 

Foi assistente de Joaquim Benite. Como o recorda? O que é que lhe transmitiu?

Recordo-o como um homem que formou várias gerações de profissionais de teatro. Não só atores, como também encenadores ou produtores. Um homem com uma grande preocupação pedagógica. Nunca estabelecia uma relação somente laboral com as pessoas com quem colaborava. Ele próprio, como jornalista estava imbuído desse espírito que se vivia nas redações dos anos 60/70. Imprimia na forma como trabalhava um dinamismo muito peculiar e original, no sentido de implicar pessoalmente cada pessoa que estava envolvida na execução de um projeto, quer se tratasse de um espetáculo ou na organização do Festival, nunca deixava que a automatização do trabalho se instalasse. Ou seja, cada um tinha de ter claro por que estava a fazer o seu trabalho.

 

Joaquim Benite teve também um papel fundamental na criação da Companhia de Teatro de Almada, que começou em Lisboa, com o Grupo de Teatro de Campolide.

Sim, era um grupo amador, com gente muito jovem. A dada altura, convidaram o Joaquim Benite, que era crítico de teatro no Diário de Lisboa, para dirigir um primeiro espetáculo que se chamava “O Avançado Centro Morreu ao Amanhecer”, em 1971. O espetáculo teve muito impacto e, no ano seguinte, “A Vida do Grande D. Quixote de la Mancha e do Gordo Sancho Pança” venceu o prémio de Melhor Espetáculo de Teatro Amador de 1972. Como o grupo era amador, apresentava-se praticamente praticamente todos os fins de semana em vários pontos do país. Era impressionante: uma atividade frenética e abundante, organizada por miúdos de 20 e poucos anos.

 

É uma companhia que nasce num contexto de oposição ao regime, com uma importante componente de intervenção social.

Sim, muitos desses jovens vinham das belas artes, de arquitetura e estavam ligados à oposição, de uma forma politicamente mais ou menos organizada. Havia um ânimo de que as coisas iam mudar. Lendo alguns textos dessa altura percebe-se isso. Em 1973, a companhia estreia uma adaptação do romance “O Grande Cidadão”, de Virgílio Martinho, que originou este título de jornal: “Golpe de Teatro em Campolide”. Ou seja, fazia-se o trocadilho com o golpe de Estado. Impressionou-me imenso quando vi essa notícia com esse título. Depois da revolução, a companhia profissionaliza-se e, em 1977, instala-se no Teatro da Trindade. É impressionante quando se vê os registos de espetadores. Era uma companhia que funcionava na altura sem apoio do Estado e vivia apenas da receita de bilheteira. As sessões esgotavam sistematicamente.

 

O grupo acaba por se instalar em Almada em 1978.

Isso inscreve-se naquilo que foi o movimento de descentralização cultural e teatral na altura, que levou grupos dos grandes centros urbanos a instalarem-se em sítios onde não havia teatro. Foi o caso de Almada.

 

Antes disso, Almada não tinha uma grande tradição de teatro?

Não tinha muita tradição para além do teatro amador que se fazia nas coletividades. A companhia instala-se aqui, ainda como Grupo de Campolide, inicialmente no teatro da Academia Almadense, levando a cena “As Travessuras de Till Eulenspiegel”, em 1978. No ano seguinte, estreiam um texto de um autor completamente desconhecido na altura, que se chamava José Saramago. “A Noite” é uma peça em que se conta, a partir da redação de um jornal, a noite da passagem do dia 24 para o 25 de abril. É certo que antes disso em Almada não havia teatro profissional, mas havia uma grande população, nomeadamente de operários dos estaleiros navais. Foi feita uma enorme atividade de animação e dinamização cultural junto dessas pessoas, que nunca tinham ido a um espetáculo de teatro.

 

Ou seja, vieram criar um novo público aqui em Almada.

Absolutamente, o Joaquim Benite falou disso em muitas entrevistas. Vem-se aqui criar um novo público. Sendo espetadores que não estavam habituados a ir ao teatro, estavam mais predispostos a um tipo de teatro mais experimental, no sentido de levar à cena textos que até aí nunca tinham sido feitos. Até 74 nunca se tinha feito [Bertolt] Brecht em Portugal, por exemplo. Um teatro que implicasse os espetadores, no sentido de os levar a refletir sobre a realidade e as suas vidas e o contexto político, histórico, social em que viviam. Que não fosse um teatro de mero entretenimento, mas que apelasse ao prazer inteligente da reflexão e também de uma consciencialização política. Essas pessoas, que não tinham práticas culturais, eram o terreno em que o Joaquim Benite procurava semear alguma consciencialização política.

 

Conseguiu-se construir esse público em Almada.

Sim, quando se fala da Companhia de Teatro de Almada é quase um lugar comum falar no seu público. Aquele público que acompanha o Festival desde a primeira edição e que acabou por contactar com alguns dos melhores fazedores de teatro do mundo.

 

Se pensarmos na nossa experiência enquanto espetadores, às vezes há espetáculos que esquecemos no próprio momento em que estamos a assistir e depois há aqueles que ficam connosco para sempre.

 

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O Festival de Teatro distingue-se também por ser organizado pela própria Companhia de Teatro.

É verdade. É uma originalidade, que nos distingue bastante. Não conheço no mundo nenhum festival com a nossa dimensão que seja organizado por uma companhia de teatro. Não é habitual.

 

Isso marca a diferença na relação que se cria com as companhias que vêm de fora?

Sim. Não só com as companhias, mas também com o público. Temos, por exemplo, o Grupo de Amigos do Teatro Municipal Joaquim Benite, que já tem quase um milhar de membros. São pessoas com as quais vamos criando uma relação que passa também pelas conversas que temos no foyer do teatro, às quais chamamos as “Conversas com o Público”, para refletir sobre os temas dos espetáculos que apresentamos. Procuramos que a relação que desenvolvemos com os espetadores não se esgote com a ida ao teatro. O Peter Brook tem uma frase de que gosto muito que é: “os bons espetáculos são aqueles que começam quando acabam”. Ou seja, são aqueles aos quais nós regressamos.

 

Por vezes, até lhes damos um significado diferente passado uns dias.

Absolutamente. E alguns passado uns anos. E outros duram para a vida inteira. Se pensarmos na nossa experiência enquanto espetadores, às vezes há espetáculos que esquecemos no próprio momento em que estamos a assistir e depois há aqueles que ficam connosco para sempre. Então, nesta relação com os espetadores, há o corolário da temporada teatral no verão, em que tradicionalmente os teatros fecham mas, antes de irmos de férias, fazemos teatro ao ar livre. Organizamos um festival que se inscreve naquela linha de festivais de teatro que surgem na Europa após a Segunda Grande Guerra, em que há um grande conflito que causa estragos e traumas enormes no continente europeu, mas em que, ao mesmo tempo, surgem estes eventos como o Festival de Avignon, em 1947. De alguma forma, o teatro vem sarar algumas feridas que os políticos abriram. O teatro pode servir para isso. O Festival de Almada insere-se nessa tradição. Nos anos 80 não havia muito contacto entre as companhias portuguesas. Muitas vezes, os criadores estavam um tanto acantonados nos seus próprios espaços, com os seus próprios públicos. O festival acabou por funcionar como um ponto de encontro entre esses criadores.

 

Este teatro é um espaço construído para ser aberto à comunidade em que está inserido, para contrariar a ideia dos teatros como edifícios fechados que só abrem para apresentar espetáculos.

 

E mesmo durante o ano, aqui no edifício do Teatro Municipal Joaquim Benite (TMJB), são acolhidas muitas companhias de vários pontos do país. É importante essa parte de acolhimento?

Quando o teatro começa a funcionar é como se houvesse um festival todo o ano. A nossa companhia não tem os meios para ter uma programação própria ao longo todo ano, mas quando o teatro começa a funcionar passa a haver em Almada uma sala com condições de apresentar quaisquer tipo de espetáculos, exceto o circo, como diria Azeredo Perdigão, que foi presidente da Fundação Gulbenkian. Portanto, para além de teatro, apresentamos música, dança e espetáculos para a infância. Chegamos a ter aqui cinco espetáculos por fim de semana. Já no que diz respeito às criações da companhia, acreditamos que um espetáculo que se estreia deve durar cerca de um mês, para que todas as pessoas que queiram o possam ver e também para o próprio espetáculo amadurecer.

 

Este espaço do TMJB tornou-se num ponto de encontro para a comunidade almadense que gosta de teatro?

Este teatro é um espaço construído para ser aberto à comunidade em que está inserido, para contrariar a ideia dos teatros como edifícios fechados que só abrem para apresentar espetáculos. Este espaço está aberto de quarta a domingo, com bar, restaurante e galeria de exposições, o que permite um encontro do público com os próprios atores ou técnicos. Lembro-me que o Joaquim Benite, quando estava a conceber o edifício, disse que os artistas têm de ir ao foyer, pois é importante que haja esta mistura entre as pessoas, para que não se sinta que o teatro é um lugar para pessoas muito ricas, muito cultas ou muito velhas. Este teatro é construído como uma antítese desse teatro. Se não houver essa preocupação para tornar estes espaços acessíveis, os teatros passam a ser objetos de humilhação: “não podes entrar porque não tens a origem social para entrar aqui”. Com a programação dos espetáculos que apresentamos, procuramos chegar a várias camadas da população e não funcionar apenas para um nicho.

 

Qual a importância da componente dos espetáculos para a infância na criação de novos públicos?

É importante haver uma regularidade. Os pais sabem que, de quinze em quinze dias, as crianças têm aqui espetáculos para ver. Criar o hábito é fundamental. Sentimos muito isso durante os tempos de pandemia, em que o teatro teve que fechar. Sentimos uma redução drástica dos membros do Clube de Amigos, porque as pessoas perderam o hábito de vir ao teatro. Felizmente, desde o final do ano passado que temos tido uma recuperação exponencial, quer no número de espetadores, quer de membros do Clube de Amigos. Agora, já ultrapassámos o número de membros que tínhamos antes da pandemia. Mas queremos desenvolvê-lo.

 

Como tem visto a evolução a nível de púbico do teatro?

Atualmente, estamos no limite, se tivermos em conta que há espetáculos que esgotam numa só sessão, o que nos motiva, mas faz ponderar programar duas sessões em alguns desses espetáculos.

 

Faz recordar um outro lugar comum, o de “Almada como cidade do teatro”. Partilha desta ideia?

Isso acontece porque está aqui uma companhia a fazer trabalho regular há mais de 40 anos sem interrupção. Mesmo quando a Companhia teve que sair do teatro da Academia Almadense porque não havia espaço, manteve a atividade. Termos quase 50 anos de atividade contínua aqui em Almada dá os seus frutos. Isso deve-se a Joaquim Benite e às pessoas que com ele colaboraram na construção deste projeto, que é um projeto para a comunidade.

 

O investimento que é feito por parte do Estado, não é feito para nós. É um investimento que reverte para os espetadores.

 

Como olha para a evolução ao nível dos apoios da Câmara de Almada e do Estado?

Foi-se desenvolvendo. Quando a companhia se instala em Almada, no final dos anos 70, durante vários anos não teve apoio da Câmara Municipal. Foi graças à persistência e à capacidade de resistência e de trabalho da companhia que esse apoio foi surgindo e se foi desenvolvendo ao longo dos anos. No início, a companhia só tinha apoio da Secretaria de Estado da Cultura e dependia das receitas próprias. Nesse período, os atores chegavam a realizar três ou quatro espetáculos por dia em vários pontos do concelho, para poderem ter receita para pagar os ordenados. Era um esforço hercúleo de quem trabalhava, porque os atores tinham de fazer tudo. Às vezes trabalhava-se das oito da manhã até à meia-noite. Hoje, felizmente, a situação é diferente.

 

Considera que os apoios que têm atualmente são suficientes?

Outros dos lugares comuns é dizer que os apoios à cultura são insuficientes. Somos subvencionados pelo Ministério da Cultura e pela Câmara Municipal de Almada, além do apoio da Fundação Share, que oferece os bilhetes de alunos que não conseguem pagar. Mas posso dizer que, em 2011, o apoio do Estado era de 630 mil euros por ano e que atualmente é de 450 mil euros. Portanto, são menos cerca de 200 mil euros. Mas nós trabalhamos com os meios que temos. Já o apoio da Câmara tem sido estável: apoia a companhia, a organização do Festival de Almada e a programação do teatro. Nós temos a consciência de que o investimento que é feito por parte do Estado, não é feito para nós. É um investimento que reverte para os espetadores. O teatro de arte que fazemos só tem o custo de entrada reduzido que tem porque uma parte do valor do bilhete é coberto pelo próprio Estado. Os cuidados de saúde que temos também é assim. Acreditamos que é necessário que o país tenha uma cultura forte, com cidadãos informados e uma experiência cultural rica. Continuo a achar que é essencial o investimento público para a nossa atividade.

 

Quando a democracia diminui, o teatro ressente- se. Quando há democracia, o teatro desenvolve-se.

 

Tem escrito e encenado aproximadamente uma peça por ano. Em que papel se sente mais à vontade?

São trabalhos muito distintos. Quando se escreve, está-se completamente sozinho e, quando se encena, está-se a trabalhar em conjunto com outras pessoas. Acho que sou mais um autor do que um encenador propriamente dito. A minha formação com o Joaquim Benite foi essa, que se inscreve numa tradição do teatro enquanto literatura. A minha abordagem do espetáculo passa sempre pelo texto. Eu não seria capaz de fazer um espetáculo se não tivesse estudado muito bem o texto do autor. Acho que para abordar um texto, tem-se de perceber as circunstâncias em que o texto foi concebido. A minha tradição é essa: também de dramaturgia e de muita investigação em torno do objeto que ali está para depois o pôr em cena. Além disso, não tenho formação teatral teórica. Tudo o que sei foi aprendido na prática, assistindo a algumas pessoas, ao Joaquim Benite e outros encenadores com quem trabalhei mais de perto. Mas não sou ator. Tenho muito respeito por esse trabalho, para o qual é preciso ter um talento que eu não tenho. É verdade que há uma distinção importante entre encenadores que são atores e encenadores que não são atores. Há uma concepção diferente do que significa interpretar um texto. Mas o teatro é uma coisa muito vasta, tem muitas vertentes, não há uma verdade absoluta. É muito difícil dizer taxativamente que o teatro é isto ou que é aquilo. O que é verdade é que vem existindo desde há dois mil anos atrás, de mãos dadas com a democracia. Não é por acaso. E quando a democracia diminui, o teatro ressente- se. Quando há democracia, o teatro desenvolve-se.

 

A CTA ocupa agora este edifício físico [o teatro azul] e organiza o festival. Há algum objetivo que ainda não foi cumprido? Ainda lhe falta fazer alguma coisa? 

Há um trabalho importante, que estamos a tentar reunir recursos para fazer, que é a divulgação desta atividade com mais de 50 anos. Temos um arquivo organizado, mas gostávamos de ter os meios para que ele pudesse ser divulgado como um centro de documentação. Não tivemos ainda os meios necessários para tratar todos esses documentos e disponibilizá-los digitalmente, como faz o Teatro Nacional de S. João, por exemplo. Portanto, há um trabalho que seria necessário fazer, e que espero que consigamos fazer no futuro: tratar todos estes documentos, no sentido de torná-los digitais e de acesso público a toda a gente. A missão é olhar para atrás com o objetivo de olhar para a frente.

 

Fotos: Bruno Marreiros

 

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