Demolições avançam no Segundo Torrão, mas ainda há famílias sem solução habitacional

Câmara de Almada apresentou uma calendarização das demolições, que decorre até 6 de outubro. No entanto, várias famílias ainda desconhecem para onde irão após o desalojamento. 

 

Já estão em marcha as demolições de habitações no bairro do Segundo Torrão, na Trafaria, no âmbito do processo de realojamento urgente motivado pelo risco de colapso de uma vala de drenagem situada por baixo de várias construções. De acordo com a calendarização fornecida pela Câmara Municipal de Almada aos jornalistas, “o processo de realojamento e demolição decorrerá de forma faseada entre os dias 1 e 6 de outubro”.

Segundo a autarquia, “as primeiras casas a ser demolidas serão as que estão construídas sobre a área de maior risco, decorrendo toda a operação no sentido norte sul”, informou.

No entanto, várias famílias notificadas para abandonarem as suas casas ainda não sabem onde serão instaladas. No bairro, o desespero destas famílias tem vindo a aumentar. Uma delas é Marta Pereira Ferreira, mãe de três filhos, cuja casa se localiza mesmo junto ao rio Tejo. De acordo com a calendarização apresentada pela autarquia, a sua habitação será uma das primeiras a demolir no sábado, dia 1 de outubro. Contudo, uma vez que o seu agregado não foi considerado elegível para o programa de realojamento, não sabe para onde irá após a demolição.

Na mesma situação de Marta Pereira, há pelo menos outros oito agregados familiares excluídos do programa de realojamento. Sobre esta situação, a presidente da Câmara Municipal de Almada, Inês de Medeiros, adianta que “não deixam de ser pessoas para as quais temos que encontrar uma solução. Aí deixa de ser via IHRU e passa a ser via Segurança Social”, afirmou, durante uma conferência de imprensa realizada esta quinta-feira, 29 de setembro.

Marta foi uma das dezenas de moradores do Segundo Torrão que se apresentaram na Segurança Social de Almada esta quinta-feira para tentar obter uma solução habitacional. “Disseram-me que a Segurança Social não tem casas mas que poderia pagar dois meses de renda num apartamento ou um mês e uma caução”, contou ao ALMADENSE. No entanto, “como vou hoje arrendar uma casa para entrar a viver amanhã?”, questiona. “Estou muito aflita, porque amanhã vão partir a minha casa e eu não sei para onde vou com os meus filhos. Ganho o salário mínimo e não recebo apoios sociais. Não vou conseguir pagar uma casa”, descreve.

Este tipo de situação preocupa também a Amnistia Internacional – Portugal, que alertou esta sexta-feira para casos de famílias que estão a ser notificadas para abandonarem as suas habitações sem terem propostas de realojamento.

“No Bairro do Segundo Torrão, freguesia de Trafaria, Concelho de Almada, o dia 30 de setembro foi estipulado como a data-limite para muitas famílias saírem das casas onde vivem, sem terem ainda definido um local para realojamento provisório. A incerteza sobre o futuro, a ausência de uma comunicação clara e transparente pela Câmara Municipal de Almada e a falta de opções têm deixado estas pessoas sujeitas a grande pressão, por receio de perder a sua casa sem um sítio para onde irem”, refere a Amnistia num comunicado divulgado no seu site oficial.

 

Nove agregados familiares realojados

Para as famílias consideradas elegíveis no âmbito do programa de realojamento, a Câmara de Almada continua a trabalhar no sentido de garantir uma solução habitacional. Neste momento, assegura a CMA, “nove agregados já se encontram realojados nas novas casas e outros 27 agregados têm uma solução habitacional encontrada e aceite pelos próprios”.

Embora tenham sido identificadas 83 construções sobre a vala, apenas 60 famílias foram sinalizadas como vivendo nas casas em risco, esclareceu Filipe Pacheco, vereador com o pelouro da Habitação, durante a conferência de imprensa que decorreu esta quinta-feira. Neste âmbito, a autarquia está “a dar resposta a 52 famílias consideradas elegíveis no âmbito do programa Porta de Entrada”.

Para as restantes 16 famílias identificadas para realojamento que ainda não sabem para onde irão, a autarquia adianta que permace em esforços para encontrar respostas habitacionais. Enquanto não se encontra uma solução, estas famílias serão instaladas em unidades hoteleiras em Almada ou Lisboa, adianta o município.

A necessidade de realojamento urgente decorre da identificação de dezenas de construções em perigo de derrocada, tendo como base um relatório do Serviço Municipal de Proteção Civil (SMPC), que deu origem a um edital que notificava os habitantes a abandonarem as suas casas até “ao início do próximo ano hidrológico”, apontando como limite esta sexta-feira, dia 30 de setembro. O processo de desalojamento em curso é maior até à data realizado naquele que é o maior bairro precário do concelho de Almada.

 

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