Academia “Os Estrelas”: quando o boxe dá nova vida ao clube do Monte de Caparica

Escondida nas ruas da zona velha do Monte da Caparica, situa-se uma academia de boxe que devolveu o dinamismo ao clube “Os Estrelas”. Aqui, a diversidade cultural, o ambiente familiar e a disciplina estão acima de tudo.

 

Diogo Amaral é natural de Almada e há três anos que pratica boxe no clube “Os Estrelas”. “No boxe encontrei-me novamente. É um desporto de equipa e individual, requer um esforço de equipa, porque batalhamos contra o adversário e a sua equipa, e individual porque também batalhamos contra nós próprios”. Começou a praticar a modalidade porque tinha excesso de peso —chegou a ultrapassar os 200 kg. Agora, três anos depois, tem uma vida completamente diferente. “Quando se perdem 94 kg a vida muda, tudo muda, a nossa confiança, a perceção do corpo, qualidade de vida, anda tudo de mãos dadas”.

A grande mudança deve-a ao clube “Os Estrelas”, liderado por Pedro Alves, no Monte da Caparica, concelho de Almada. “É o clube com o melhor ambiente que conheço, aqui qualquer pessoa é bem-vinda, desde que tenha respeito. Qualquer classe social, qualquer nacionalidade, qualquer profissão… o que interessa é que venha para treinar”, disse o atleta ao ALMADENSE.

 “O treino físico é puxado, quem quer praticar desporto tem de treinar de acordo com a dinâmica da modalidade. O boxe é um desporto de um para um, exige muito treino cardiovascular, logo o treino é baseado nessa preparação de combate”, sublinha Diogo Amaral.

O treinador certo pode mudar um indivíduo, acredita Diogo Amaral. No seu caso, não tem dúvidas de que o “Alves” (como é chamado pelos alunos), antigo campeão nacional e atual treinador dos “Estrelas” é a pessoa indicada para o trabalho. “O Alves transmite valores de respeito e disciplina. Isto num desporto de combate é muito importante. Não podemos vir aqui para agredir o adversário. O importante é ganhar respeito pela sociedade e aprender a evitar os conflitos. Esse tipo de disciplina e de educação é muito importante num desporto de combate”.  

 

Clube ganha vida nova

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Pedro Alves iniciou-se na modalidade graças a um amigo. Depois de experimentar e perceber que “tinha jeito”, nunca mais olhou para trás. Passou pela Siderurgia Nacional, pelo Beira-Mar de Almada e ficou no Sporting, onde começou a competir.

Foi no Sporting que alcançou os títulos de Campeão Nacional em 2001, Campeão Regional de Setúbal/Lisboa e Campeão do prestigiado torneio “Luvas de Prata”, no mesmo ano. Depois decidiu ser tempo de mudança e rumou a Inglaterra, onde viveu uma temporada. “Lá o boxe não é desporto rei, mas gera o mesmo tipo de entusiasmo que o futebol cá em Portugal. É uma cultura diferente”.

Quando decidiu voltar a Portugal, sentiu que o seu papel na modalidade mudara e decidiu adaptar-se. Abriu a academia “Os Estrelas” e focou-se na formação da próxima geração de atletas. “Sempre quis ficar ligado à modalidade, tirei o curso de treinador e um amigo disponibilizou-se para ajudar com a parte burocrática”, recorda.

Tomada a decisão, faltava apenas encontrar um local, que acabou por recair no clube recreativo “Os Estrelas”. Abriu a academia em 2005. “Quando fizemos a proposta da modalidade ao clube, só existia o bar. No início, estavam um pouco de pé atrás, mas foram ganhando confiança em nós. Nos últimos anos conseguimos dinamizar o clube e atrair mais pessoas”. Desde então, os fundadores voltaram a frequentar o espaço.

Com uma nova onda de vida, o clube cresceu, assim como a comunidade à sua volta. “Começámos a organizar atividades no clube que depois continuaram, como torneios de matraquilhos, de snooker, provas de atletismo e jantares”. Agora, o clube tem um ambiente familiar, funcionamento para muitos como uma segunda família.

 

Celebrar a diversidade

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Além do ambiente familiar, uma das questões de orgulho da academia é a diversidade cultural. Para celebrar a inclusão, o treinador aponta para a “parede das nacionalidades”: um painel onde foi afixando as bandeiras de origem dos atletas que por lá têm passado. De Cabo Verde ao Brasil, passando pela Venezuela ou Moldávia, já são mais de 20 as diferentes nacionalidades. “Somos uma academia aberta a todos”, sublinha o treinador.

Também a proximidade a estabelecimentos de ensino como a Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova ou a Egas Moniz traz diversidade à academia. ”Há uns meses inscreveram-se seis raparigas francesas e também temos um rapaz alemão”, conta o treinador.

‘’As pessoas vêm de todo o lado para treinar aqui: há um senhor que vem de Belém, outro que vem da Estefânia (em Lisboa) e até um rapaz de Setúbal”. No início, o jovem apanhava o comboio e depois pedalava até à academia. Depois, “descobriu o metro então deixa a bicicleta em casa’’, conta o treinador, entre sorrisos.

Nos últimos anos, também o boxe feminino tem vindo a ganhar dimensão. O clube já conta com várias atletas. “aprendem muito rápido, talvez mais rápido do que os masculinos”. De resto, não há qualquer diferença no treino: “elas treinam de igual para igual junto dos colegas masculinos’’. 

Os valores de respeito e desportivismo são transmitidos a todos os que por aqui passam. “O boxe é um desporto que ensina disciplina acime que tudo. As pessoas que vêm com outro pensamento ou com o ego mais alto acabam por ir embora. Não é o ambiente deles, não se sentem enquadrados’’.

 

O futuro da modalidade 

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Durante muito tempo, a modalidade conviveu com uma fama que a associava à violência, o que pode ter dificultado o seu crescimento. Mas o treinador dos “Estrelas” mostra-se otimista no futuro: “O preconceito já está a desaparecer. Era mais presente nos anos 80 e 90. Tudo o que se dizia era negativo. Algumas das pessoas envolvidas na modalidade até gostavam dessa fama, mas hoje em dia isso felizmente mudou. Temos atletas mais responsáveis e cada vez melhores treinadores”, sublinha Pedro Alves.

Também Diogo Amaral sente que o cenário está a mudar. “Hoje em dia, quando digo que pratico boxe, a reação é positiva. Já não há tanto aquele preconceito antigo. Para o atleta, atualmente o “boxe não é só para quem quer competir, também é para quem quer só treinar para manutenção, ter um bom estilo de vida e ser saudável”, remata.

 

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