No Segundo Torrão há uma “Fábrica” especial que sonha reabrir

Projeto social “Fábrica dos Sonhos”, implantado no Segundo Torrão da Trafaria, está a angariar donativos para poder reabrir no próximo ano. Agora numa versão reinventada devido à pandemia. 

 

“Xana, quando é que volta a abrir a Fábrica?” Os olhos do pequeno João espreitam curiosos por cima da máscara. Encostado à porta da “Fábrica dos Sonhos”, não se atreve a entrar no espaço onde, antes da pandemia, passava as tardes a estudar e a brincar.

Em março, a covid-19 obrigou ao encerramento do ATL gratuito, mas a vontade das crianças regressarem a este “porto de abrigo” é evidente. Durante a visita do ALMADENSE, enquanto a porta da “Fábrica” está aberta, são vários os jovens que se aproximam para averiguar quando é que o espaço reabre.

Lá fora, apesar do dia ser de sol, as poças de água na rua de terra batida refletem as habitações precárias e os fios das “puxadas” de eletricidade. Estamos no Segundo Torrão da Trafaria, no concelho de Almada. Um bairro de origem clandestina, que começou a erguer-se há mais de 40 anos, onde vivem mais de três mil pessoas em condições muito precárias.

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Foi aqui que, há quatro anos, Alexandra González e um grupo de voluntários da associação Cova do Mar estabeleceu a “Fábrica dos Sonhos”. Instalaram-se numa das pequenas habitações do bairro, semelhante àquelas onde vivem as cerca de 30 crianças que a frequentam. Apesar do espaço reduzido e da escassa luz natural, lá dentro “nunca faltou alegria”, conta a coordenadora do projeto solidário.

O objetivo sempre foi proporcionar às crianças do bairro um espaço comunitário onde pudessem “brincar e sonhar”. Para além do apoio ao estudo, todas as tardes havia um lanche que as próprias crianças ajudavam a distribuir e até um espaço para jogar um pouco de playstation.

“Queremos deixar uma semente, dar-lhes ferramentas para crescerem mais confiantes em si próprios, fomentar a capacidade de ultrapassarem obstáculos e tentar equilibrar um pouco as dificuldades que enfrentam no quotidiano”, resume Alexandra González.

 

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Implantado junto ao rio Tejo, em terrenos que pertencem à administração do Porto de Lisboa, a precariedade das condições de vida no Segundo Torrão é evidente. Aqui a pobreza convive com a falta de infraestruturas, a escassa recolha de lixo e as dificuldades de acesso a luz e esgotos. Problemas que a pandemia só veio exacerbar.

No entanto, apesar das contrariedades, as “crianças são muito resilientes”, aponta Alexandra González. “Têm uma criatividade incrível, uma imaginação gigante, estão sempre a encontrar soluções fora da caixa para os problemas”.

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Donativos compensam ausência de apoios camarários

Embora o objetivo financeiro ainda não esteja assegurado, a Cova do Mar tem esperança de conseguir os fundos suficientes para reabrir no próximo ano, agora numa versão renovada devido à pandemia. “Vamos fazer mais atividades no exterior porque no interior da Fábrica é difícil garantir o cumprimento do distanciamento social”, explica a fundadora da associação.

Os esforços estão concentrados na ação de angariação de donativos Giving Tuesday, que está a fazer renascer a esperança de relançar o projeto.

 

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A associação espera que os donativos possam compensar a ausência de outros apoios, nomeadamente da Câmara Municipal de Almada. Apesar de se candidatar anualmente a linhas de apoio disponibilizadas pela autarquia, a Cova do Mar tem visto as candidaturas sucessivamente rejeitadas.

“A Câmara invoca o facto do nosso trabalho se desenrolar num espaço ilegal para negar os apoios”, lamenta a responsável. Uma justificação que continua a causar perplexidade junto da associação: “temos que estar onde estão as crianças. Os direitos humanos não têm zonas ilegais”, argumenta Alexandra González. Além disso, “parece haver mais preocupação com o facto da Fábrica dos Sonhos ser num bairro ilegal do que com o facto das crianças vivem num local sem condições e que viola os direitos humanos de quem lá vive”.

Por isso, desde 2016 que a associação se sente “sozinha” a defender o que são os “Objetivos de Desenvolvimento Sustentável definidos pela ONU junto destas crianças”, aponta a coordenadora do projeto.

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Há muito tempo que os moradores do bairro aguardam pelos anunciados planos de realojamento. Um objetivo que a Câmara de Almada garante que começará a tornar-se realidade antes do final do próximo ano. De acordo com a vereadora com o pelouro da Habitação, Teodolinda Silveira, a solução irá passar pela “construção” em lotes de terreno “espalhados um pouco por todo o concelho de Almada”, revelou recentemente em entrevista ao ALMADENSE.

Enquanto a solução não chega, a “Fábrica dos Sonhos” mantém o compromisso de continuar a trabalhar junto das crianças: “é preciso prepará-las para o realojamento, ajudá-as, dar-lhes ferramentas para promover uma integração social mais eficaz”. Por isso, garante Alexandra González, o projeto “vai continuar”.

 

Para aceder à campanha de angariação de fundos, entre nesta página.

 

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