A Voz aos Almadenses: “É preciso haver um evento para o Parque Multiusos da Sobreda estar devidamente mantido?”

Rafael Maniés Pereira, residente na Sobreda

Se este nível de manutenção pode ser atingido quando se aproxima um evento, aquilo que os residentes têm o direito de perguntar é por que razão não pode constituir o padrão habitual.

Sou residente na Sobreda e utilizador regular do Parque Multiusos. Por isso, acompanho há vários anos, de forma bastante próxima, a evolução e o estado de conservação daquele espaço.

No passado dia 10 de setembro, o parque apresentava-se, em parte significativa da sua extensão, num estado de conservação que considero digno daquele espaço: relva cortada, arbustos aparados e vegetação intervencionada, permitindo inclusivamente uma utilização mais confortável dos percursos pedonais.

E começo precisamente por reconhecer essa intervenção.

O problema é o contraste com aquilo que, demasiadas vezes, tenho encontrado no mesmo parque.

Ao longo dos últimos anos houve períodos em que a vegetação espontânea atingiu dimensões muito significativas, com ervas aproximadamente à altura dos joelhos. Arbustos e ramos chegaram a interferir com os percursos pedonais. Houve problemas prolongados de iluminação, deficiências nos sistemas de rega e situações recorrentes relacionadas com limpeza, resíduos e conservação geral do espaço.

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Mesmo nessa intervenção de setembro, nem toda a extensão do parque apresentava o mesmo nível de tratamento. Sensivelmente a partir da zona do Monumento à Mulher, continuavam a ser visíveis diferenças na manutenção do espaço.

Mas havia uma coincidência difícil de ignorar. Nos dias 11, 12 e 13 de setembro realizou-se precisamente no Parque Multiusos da Sobreda o Jazz nas Vilas, promovido pela Junta de Freguesia de Charneca de Caparica e Sobreda.

Não disponho de elementos que me permitam afirmar que a intervenção realizada nos dias anteriores tenha resultado especificamente da preparação do evento.

Mas a proximidade temporal permite, pelo menos, fazer uma pergunta legítima: por que motivo não consegue o Parque Multiusos da Sobreda apresentar, regularmente ao longo do ano, um nível de conservação semelhante àquele que apresentou imediatamente antes da realização do Jazz nas Vilas?

A questão vai muito para além deste evento em concreto.

Considero que uma autarquia presta, antes de mais, serviços públicos. A manutenção dos espaços verdes, da iluminação, da limpeza, dos equipamentos e das condições de utilização quotidiana é uma das formas mais básicas e visíveis dessa prestação. Naturalmente, as iniciativas culturais podem ter o seu lugar. O que considero difícil de aceitar é que festas, festivais ou outros eventos coincidam com níveis de cuidado do espaço público que os residentes gostariam de encontrar durante todo o ano.

Daí a sugestão que deixei, deliberadamente com alguma ironia, às entidades a quem escrevi: se for preciso haver Jazz nas Vilas para termos o Parque Multiusos da Sobreda nestas condições, então que haja Jazz todos os meses. Nem sou particularmente fã do género, nem sequer considero que seja função principal das autarquias “animarem-nos”. Mas, por um parque nestas condições, estou disposto a ultrapassar ambas as questões.

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Mais seriamente, o episódio deveria servir para demonstrar uma coisa simples: é possível ter o parque cuidado. Se este nível de manutenção pode ser atingido quando se aproxima um evento, aquilo que os residentes têm o direito de perguntar é por que razão não pode constituir o padrão habitual.

Enquanto contribuinte, é também assim que gostaria de reconhecer no espaço público o destino dos impostos municipais que pago, incluindo o IMI, não apenas nos dias que antecedem um festival, mas nas restantes semanas e meses do ano.

Não se trata, portanto, de pedir um parque preparado para receber visitantes.

Trata-se de pedir um parque preparado, todos os dias, para quem cá vive.

 

Para quando uma Costa da Caparica mais verde e sustentável?

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