No Parque da Paz, os treinos do grupo reúnem participantes de diferentes condições físicas. Cada sessão combina prática desportiva, adaptação de ritmos e convívio.
Para Nídia, a falta de visão nunca foi um entrave. Por isso, foi com naturalidade que a jovem de 32 anos começou a correr em outubro do ano passado, depois do primeiro contacto com os treinos promovidos pelo grupo 100 Desculpas, um projeto que aposta na inclusão através do desporto e na participação de pessoas com diferentes perfis na atividade física.
Desde o primeiro contacto, o progresso de Nídia tem sido constante. Em poucos meses, já alinhou em duas provas oficiais e agora tem um novo desafio: participar no 26.º Grande Prémio Atlântico, agendado para domingo, 22 de fevereiro, na Costa da Caparica. “Inscrevi-me nos 10 quilómetros. Não sei se vou conseguir completar, mas vou tentar”, conta ao ALMADENSE.
Tal como Nídia, também Nuno Silveira, de 38 anos, passou a correr com maior regularidade recentemente, quando começou a participar nos treinos do grupo. Residentes no Feijó, ambos têm deficiência visual. Por isso, realizam sempre os treinos e as provas com o apoio de guias, numa dinâmica assente na coordenação, na sintonia e na confiança mútua.
É no Parque da Paz, em Almada, que o grupo 100 Desculpas realiza os seus treinos semanais desde que iniciou atividade regular, há cerca de cinco meses. Os encontros acontecem aos fins de semana, sempre que as condições meteorológicas o permitem. No dia em que o ALMADENSE acompanhou o grupo, o plano previa uma caminhada mais tranquila do que o habitual, seguida de jogos de grupo. Nídia e Nuno estão acompanhados por Olga e Ekaterina, duas russas naturais de Yakutsk, na Sibéria, que descrevem como “a cidade mais fria do mundo”. Em Almada, apesar das chuvas das últimas semanas, o cenário está longe de ser tão extremo, com a tarde a decorrer num ambiente descontraído.
Ekaterina destaca a evolução de Nuno Silveira. “Gosto muito de correr com ele, é bom perceber o progresso. Começámos nos cinco quilómetros e agora já fazemos dez”, refere. O par participou em dezembro na São Silvestre de Almada, prova em que Nuno alcançou o segundo lugar na categoria M40, de pessoas com limitação ou incapacidade. No grupo, as conquistas individuais são encaradas como resultados partilhados.
A rotatividade de guias é uma das marcas do projeto. “Não tem de ser sempre o mesmo guia. O mais importante é ajustar os ritmos da corrida”, explicam os participantes, apontando a flexibilidade como um dos pilares da iniciativa.
Um projeto sem barreiras

O impulsionador do grupo 100 Desculpas é Bruno Azevedo, engenheiro informático e atleta de triatlo. No ano passado, uma cirurgia à coluna obrigou-o a passar vários meses acamado, experiência que mudou a sua perspetiva sobre o desporto e o convívio. “Percebi a importância que o convívio e o desporto têm”, conta ao ALMADENSE.
Com frontalidade e humor, Bruno resume o espírito do grupo: “Entre coxos, cegos, marrecas, cardíacos, autistas, estamos abertos a toda a gente”. Reconhece que muitas pessoas com limitações sentem receio de integrar grupos desportivos por medo de “ficarem para trás”. Por isso, no 100 Desculpas, garante, isso não acontece. “Aqui não há imposições. Todos podem participar. Não há obrigações, não se paga nada. O mais importante é o convívio, a partilha, juntar pessoas”, sublinha.
Ao contrário de outros projetos, esta iniciativa aposta na flexibilidade e na criação de laços. “Permite conhecer pessoas novas, criar contacto entre participantes e até sensibilizar os mais novos”, acrescenta. Abraão, um dos elementos do grupo, resume a experiência de forma simples: “É muito bom porque puxamos uns pelos outros”. Ernesto, que atravessa o Tejo de propósito, vindo da Margem Norte. “Gosto de vir interagir com pessoas, é positivo”, sublinha.
No 100 Desculpas, cada história é diferente, mas o ponto de partida é sempre o mesmo: a vontade de participar. Para Bruno, o projeto “demonstra que no desporto há espaço para todos”, uma vez que a “prática pode ser adaptada a diferentes ritmos e capacidades”, garante.
Para além da praia: a resistência cultural da livraria “Poets & Dragons” na Costa da Caparica





