Em “Parterre”, o coreógrafo e bailarino brasileiro Volmir Cordeiro propõe uma reflexão sobre a consciência de classe e as hierarquias sociais que estruturam a sociedade. O espetáculo será apresentado no Teatro Municipal Joaquim Benite, em Almada, no âmbito da 6.ª edição da Transborda – Mostra Internacional de Artes Performativas. Em entrevista ao ALMADENSE, o artista sublinha a importância de apresentar a obra em Almada, destacando o papel do concelho na descentralização cultural e a sua crescente projeção internacional no campo das artes e da criação contemporânea.
Com estreia no dia 2 de maio, às 21h, “Parterre” assume-se como “uma metáfora de uma sociedade que é obcecada em classificar, e hierarquizar, em determinar quem pode mais e quem pode menos”, explica Volmir Cordeiro. Em simultâneo, Volmir procura que o seu espetáculo mostre a forma como uma sociedade se pode unir, apesar da diferença e da hierarquia social existente.
Como ponto de partida para o espetáculo, Volmir inspirou-se na arquitetura renascentista, onde os teatros do século XVII dispunham de espaços dedicados a pessoas mais pobres, que adquiriam bilhetes mais baratos e que assistiam às peças de pé, junto ao palco, perto dos atores. Estas pessoas ficavam “numa situação fisicamente também restrita, porque ficavam muito próximas, muito coladas, o que pode levar a situações violentas”, conta Volmir Cordeiro ao ALMADENSE. A partir deste conceito, alargou os horizontes e procurou refletir sobre a dimensão social que estes espaços representam.

Apresentando-se como um espetáculo bastante ritmado e musical, “Parterre” está dividido, por isso, em duas partes: uma mais dedicada ao individualismo dos bailarinos e outra focada na união, com todos os intérpretes a aproximarem-se. O artista procura que, num primeiro momento, cada um dos bailarinos represente “uma categoria profissional considerada marginalizada”, de modo a perceber-se de que forma isso afeta a dinâmica social quando todos se encontram já num segundo momento. Volmir Cordeiro quer, por isso, contar uma história de um grupo “que grupo que se conhece, que se reconhece, mas que, em simultâneo, se detesta ou que se ama”.
Nascido em 1987 no interior do Brasil, em 2011 Volmir Cordeiro mudou-se para França para concluir a formação em dança e dar continuidade ao desenvolvimento da sua carreira artística. Com este novo espetáculo, recupera as suas raízes e procura retratar algumas das experiências e vivências que marcam a sua vida e a sua ligação com a família. “Entre mim, o meu pai e a minha mãe existe uma grande hierarquia, ou seja, existe uma grande diferença social que praticamente impossibilita a nossa aproximação”, diz ao ALMADENSE.
O facto de ter mudado de país e de ter ascendido socialmente o afasta das suas origens familiares, acredita o coreógrafo, admitindo, por isso, que um dos grandes objetivos com este trabalho é uma reconexão de classe, que lhe permite reaproximar daquela que é a sua tradição familiar, algo que só consegue através da dança.
“Almada tem um alcance cada vez mais internacional”
Acreditando que o teatro ainda pode ser um lugar de assembleia, Volmir Cordeiro pretende que, com “Parterre”, o público reflita sobre a importância “do poder da união e do poder dos gestos mais quotidianos e como as ações mais simples podem transformar a vida”. Com o espetáculo, Volmir pretende que o público “se sinta corajoso” e que encontre “formas de resistência através da alegria, do prazer e do ritmo”.
Da mesma forma, o coreógrafo acredita que é, igualmente, essencial que estes temas sejam trazidos para palco, já que, muitas vezes, em sociedade, “não conseguimos perceber de que forma participamos nesta máquina da exclusão e de sistemas de visibilidade e invisibilização de outros corpos”. Para Volmir, só através dessa consciência é possível a união, para enfrentar “uma sociedade que está tão individualizada e segmentada”.
Volmir Cordeiro recupera, ainda, a importância de trazer este tipo de espetáculos e festivais como a Transborda para Almada e para a Margem Sul com o objetivo de descentralizar. “Acho que temos de descentralizar cada vez mais, não temos de tirar dos centros, mas temos que continuar a pensar noutros espaços de circulação e de transição”.
Para o coreógrafo, a Almada pode “restaurar essa possibilidade, porque, querendo ou não, a cidade tem um alcance cada vez maior e internacional”, para o qual a Transborda tem contribuído nos últimos anos.
A Transborda – Mostra Internacional de Artes Performativas decorre entre 29 de abril e 23 de maio e conta com várias apresentações, oficinas e laboratórios, que se realizam, pela primeira vez, entre Almada e Lisboa. O jornal ALMADENSE é parceiro de comunicação da Transborda.
Transborda regressa a Almada e estreia-se em Lisboa com dança e artes performativas




