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Almada

Mau tempo: Moradores do Olho de Boi estão há vários dias praticamente isolados

Desde o deslizamento de terras na arriba do Olho de Boi, em Almada, que os moradores do bairro permanecem praticamente isolados. A situação agravou-se com a avaria do elevador panorâmico e o reaparecimento de buracos no Cais do Ginjal, o que deixou como única alternativa as escadas junto à Boca do Vento.

 

Alberto Quaresma, morador do bairro do Olho de Boi, percorre com o olhar a encosta instável e aponta para a zona onde a terra cedeu. Não é a primeira vez que vê a estrada de acesso a Almada Velha cortada por deslizamentos, mas o cenário atual tem outra dimensão. “Parece que caiu ali uma bomba”, observa ao ALMADENSE. A via está completamente ocupada por lama, terra e pedras, acumuladas ao longo de vários metros. Os destroços formaram uma barreira intransponível, que impede a circulação e deixou praticamente isolados os cerca de 40 moradores do pequeno bairro, situado entre o Jardim do Rio e a Quinta da Arealva.

A situação torna-se mais grave porque as principais alternativas de acesso também se encontram impraticáveis. O elevador panorâmico, que liga o Jardim do Rio à zona da Boca do Vento, está encerrado desde 2 de fevereiro para obras de requalificação. Já no Cais do Ginjal, que permite a ligação a Cacilhas, reapareceram buracos na zona entre o restaurante “Atira-te ao Rio” e a área recentemente intervencionada, tornando o percurso perigoso.

Perante este cenário, a única opção para sair do bairro passa pelas escadas junto ao restaurante “Ponto Final”, uma solução inviável para pessoas mais idosas ou com mobilidade condicionada.

Um problema conhecido

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Instabilidade da arriba provocou o corte total da estrada. Foto: Maria João Morais / Almadense

O corte da estrada está longe de ser um episódio isolado. “A situação é recorrente”, afirma Alberto Quaresma, ator, de 68 anos, residente no Olho de Boi há 57 anos, para onde se mudou ainda em criança, quando o pai, trabalhador da Companhia Portuguesa de Pesca (CPP), ali se fixou. Ao longo dos anos registaram-se vários deslizamentos e, mais recentemente, a queda de uma árvore. Para o morador, trata-se de um problema antigo e sobejamente identificado: a instabilidade da arriba deibaixo da Casa da Cerca “é há muito tempo conhecida”, relata.

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Reconhece que, neste momento, com a fragilidade dos solos, não é possível intervir de imediato na arriba, mas considera que a obra deveria ter sido feita antes. “Já há tantos anos que está assim. Se intervieram em outras zonas, por que não aqui? Tem que se agir, fazer o que é necessário”, afirma Alberto, para quem o problema se resume a “falta planeamento”.

Moradores sentem-se “esquecidos”

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Bairro do Olho de Boi tem vistas privilegiadas sobre o Tejo. Foto: Maria João Morais / Almadense

Composto por 16 habitações, o Olho de Boi é um pequeno bairro com casas encavalitadas sobre o cais, junto a antigos armazéns hoje desativados. Atualmente, o bairro é habitado por cerca de 40 moradores, na sua maioria antigos trabalhadores ou descendentes de trabalhadores da antiga Companhia Portuguesa de Pesca (CPP), que chegou a ser a maior empresa portuguesa de pesca de arrasto em alto-mar, antes de encerrar em 1984. Desde então, os moradores do bairro sentem que vivem num limbo.

No interior, as casas estão bem conservadas e oferecem vistas panorâmicas sobre o Tejo. Da janela da sala, Alberto avista a ponte 25 de Abril, um cenário harmonioso, que contrasta com as dificuldades vividas no dia a dia. Apesar da localização privilegiada, os moradores consideram-se deixados para trás. “Sentimo-nos esquecidos”, desabafa.

Também Lucilene Caetano da Silva, moradora no Olho de Boi há sete anos, tem enfrentado nos últimos dias dificuldades acrescidas sempre que precisa de se deslocar. Atualmente, sente que a sua “vida está totalmente limitada”, diz ao ALMADENSE. Sempre que possível, trabalha a partir de casa, mas três vezes por semana precisa de estar presencialmente no seu local de trabalho em Lisboa, recorrendo ao barco em Cacilhas. Só que, atualmente, “o Cais do Ginjal está cheio de buracos e pedras”. Por isso, para conseguir chegar a casa, é obrigada a dar a volta por Almada Velha e descer as escadas, num percurso que pode levar até duas horas. Ainda assim, o receio mantém-se. “Descer pelas escadas é perigoso, sobretudo à noite, não me atrevo a passar sozinha”, descreve.

Alberto Quaresma mostra particular preocupação com uma vizinha de 96 anos, acamada e dependente de oxigénio. Para os outros moradores, tarefas simples do dia a dia, como fazer compras ou aceitar um convite para jantar, tornaram-se praticamente impossíveis, enquanto a incerteza sobre quando a situação será finalmente resolvida ameaça prolongar-se. “Estamos numa situação desesperada”, desabafa.

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2 Comentários

  1. Partilhem muito, é indecente não haver outra saída a cma teve muitos anos para melhorar e não o fez agora vem as consequências. Se alguém precisar apoio médico não há hipotese. E conheço bem as escadas é impossível transportar alguém por ali , além de ser perigoso. Deviam ter mais respeito por este bairro muita da nossa história passa por ali.

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