Desde o deslizamento de terras na arriba do Olho de Boi, em Almada, que os moradores do bairro permanecem praticamente isolados. A situação agravou-se com a avaria do elevador panorâmico e o reaparecimento de buracos no Cais do Ginjal, o que deixou como única alternativa as escadas junto à Boca do Vento.
Alberto Quaresma, morador do bairro do Olho de Boi, percorre com o olhar a encosta instável e aponta para a zona onde a terra cedeu. Não é a primeira vez que vê a estrada de acesso a Almada Velha cortada por deslizamentos, mas o cenário atual tem outra dimensão. “Parece que caiu ali uma bomba”, observa ao ALMADENSE. A via está completamente ocupada por lama, terra e pedras, acumuladas ao longo de vários metros. Os destroços formaram uma barreira intransponível, que impede a circulação e deixou praticamente isolados os cerca de 40 moradores do pequeno bairro, situado entre o Jardim do Rio e a Quinta da Arealva.
A situação torna-se mais grave porque as principais alternativas de acesso também se encontram impraticáveis. O elevador panorâmico, que liga o Jardim do Rio à zona da Boca do Vento, está encerrado desde 2 de fevereiro para obras de requalificação. Já no Cais do Ginjal, que permite a ligação a Cacilhas, reapareceram buracos na zona entre o restaurante “Atira-te ao Rio” e a área recentemente intervencionada, tornando o percurso perigoso.
Perante este cenário, a única opção para sair do bairro passa pelas escadas junto ao restaurante “Ponto Final”, uma solução inviável para pessoas mais idosas ou com mobilidade condicionada.
Um problema conhecido

Composto por 16 habitações, o Olho de Boi é um pequeno bairro com casas encavalitadas sobre o cais, junto a antigos armazéns hoje desativados. Atualmente, o bairro é habitado por cerca de 40 moradores, na sua maioria antigos trabalhadores ou descendentes de trabalhadores da antiga Companhia Portuguesa de Pesca (CPP), que chegou a ser a maior empresa portuguesa de pesca de arrasto em alto-mar, antes de encerrar em 1984. Desde então, os moradores do bairro sentem que vivem num limbo.
Também Lucilene Caetano da Silva, moradora no Olho de Boi há sete anos, tem enfrentado nos últimos dias dificuldades acrescidas sempre que precisa de se deslocar. Atualmente, sente que a sua “vida está totalmente limitada”, diz ao ALMADENSE. Sempre que possível, trabalha a partir de casa, mas três vezes por semana precisa de estar presencialmente no seu local de trabalho em Lisboa, recorrendo ao barco em Cacilhas. Só que, atualmente, “o Cais do Ginjal está cheio de buracos e pedras”. Por isso, para conseguir chegar a casa, é obrigada a dar a volta por Almada Velha e descer as escadas, num percurso que pode levar até duas horas. Ainda assim, o receio mantém-se. “Descer pelas escadas é perigoso, sobretudo à noite, não me atrevo a passar sozinha”, descreve.
Alberto Quaresma mostra particular preocupação com uma vizinha de 96 anos, acamada e dependente de oxigénio. Para os outros moradores, tarefas simples do dia a dia, como fazer compras ou aceitar um convite para jantar, tornaram-se praticamente impossíveis, enquanto a incerteza sobre quando a situação será finalmente resolvida ameaça prolongar-se. “Estamos numa situação desesperada”, desabafa.





Excelente cobertura jornalística! Muito obrigada por dar visibilidade a um problema recorrente que enfrentamos aqui no Bairro.
Partilhem muito, é indecente não haver outra saída a cma teve muitos anos para melhorar e não o fez agora vem as consequências. Se alguém precisar apoio médico não há hipotese. E conheço bem as escadas é impossível transportar alguém por ali , além de ser perigoso. Deviam ter mais respeito por este bairro muita da nossa história passa por ali.