REPORTAGEM
Quando Marta Martínez assistiu ao início do corte de árvores na Rua Padre Manuel Bernardes, junto ao terminal rodoviário da Carris Metropolitana, na Torre das Argolas, ficou em sobressalto. Só nessa zona foram abatidas, em junho deste ano, pelo menos 23 árvores.
“Começou de um momento para o outro, sem aviso prévio”, recorda a arquiteta, residente na Costa da Caparica há cinco anos, ao ALMADENSE. Integrada na empreitada “Acessos alternativos às praias – fase 2”, atualmente em curso, a intervenção ainda decorre, mas já retirou sombra à zona envolvente do terminal, um espaço por onde passam diariamente centenas de passageiros.
Segundo admite a Câmara Municipal de Almada (CMA), numa nota publicada nas redes sociais a 30 de maio de 2026, a obra vai implicar o abate de um total de 47 árvores. Em contrapartida, o município compromete-se a plantar 120 novas.
No terreno, contudo, os moradores garantem que os números reais ultrapassam os anunciados. Sentados numa esplanada junto à Torre das Argolas, Marta Martínez, Júlio Luta, Sílvia Calretas e Elias Aris mostram ao ALMADENSE o mapa que eles próprios elaboraram com o levantamento de todas as árvores já cortadas ou previstas para abate nas próximas semanas.
Os quatro moradores integram o núcleo mais ativo de um movimento que tem vindo a ganhar dimensão em defesa do arvoredo urbano da Costa da Caparica, reunindo cada vez mais residentes preocupados com o impacto da intervenção. “A Costa está a perder as suas árvores e isso afeta a vida dos moradores”, afirma Sílvia Calretas.

Ao ALMADENSE, o grupo de residentes indica que já contabilizou pelo menos 69 árvores cortadas, muitas delas de grande porte. Ainda de pé, mas já identificadas para abate, estão outras 34 árvores, que os moradores esperam ainda conseguir salvar.
Além disso, das 120 árvores que a autarquia se comprometeu a plantar, os moradores verificaram que apenas 89 são viáveis. Por isso, enquanto a CMA prevê concluir a obra com um saldo positivo de 73 árvores, o grupo conclui que o resultado será, afinal, a perda de 14 árvores. Na sua perspetiva, “os números oficiais não correspondem à realidade” e “o desvio é desfavorável ao ambiente”, argumentam.
Mesmo com novas plantações, os moradores da Costa da Caparica consideram que estas não compensam o abate de árvores de grande porte, que demoraram décadas a crescer. “Uma árvore bebé não substitui uma árvore adulta”, diz Marta Martínez. “Abater árvores desta maneira sem critério é um crime ambiental. É um desrespeito pelas árvores e pelos moradores. Estamos tristes e confusos”, admite.
Fazendo um percurso pela zona, é possível identificar as várias árvores assinaladas para abate. O grupo afixou cartazes para sensibilizar a população para o que está a acontecer. “Não queremos cimento, queremos natureza”, pode ler-se num dos cartazes. “Cada árvore conta”, lê-se mais à frente.

Entre as árvores previstas para abate encontram-se 10 casuarinas de grande porte da Rua José Vicente da Costa, localizada por trás da Torre das Argolas. “A estrada precisa de ser alargada para aumentar a fluidez do trânsito e será criada uma nova zona de estacionamento com acesso próprio, garantindo a segurança de peões e condutores”, justificou a CMA na publicação de 30 de maio.
A autarquia acrescenta que, na mesma rua, “vão ser instalados novos coletores e condutas de água subterrâneas. A abertura destas valas obriga ao corte das raízes destas casuarinas, o que comprometeria gravemente a estabilidade destas árvores de grande porte, gerando um risco elevado de queda em dias de vento forte”, concluindo que a decisão de abater as árvores “foi rigorosamente validada pelo Departamento de Espaços Verdes, que acautelou o futuro ambiental da nossa costa”.
Os moradores contestam, contudo, a visão da autarquia. Numa altura marcada pelo aumento das temperaturas e por ondas de calor cada vez mais frequentes, potenciadas pelas alterações climáticas, defendem que a necessidade de sombras e de refúgios climáticos nunca foi tão evidente. Por isso, dizem não compreender a opção pelo abate das árvores. “A Costa já tem poucas sombras. Em vez de se aumentarem as zonas arborizadas, ainda se cortam as árvores que existem. É muito triste”, diz Sílvia Calretas.
Uma obra nunca apresentada à população

Orçamentada em cerca de 3 milhões de euros, a empreitada “11/EOP/2024 – Acessibilidade à Costa da Caparica: Acesso Alternativo às Praias – Fase 2” visa a “requalificação de vias e espaços pedonais e respetiva pavimentação, para a melhoria do acesso viário à Costa de Caparica e ao espaço adstrito ao Terminal de Autocarros; intervenção nas infraestruturas de águas e esgotos e nas infraestruturas elétricas e de telecomunicações; criação de estacionamentos e o restabelecimento e articulação dos novos eixos viários e pedonais com a malha urbana existente”, pode ler-se no objeto do contrato publicado no Portal Base.
Compreendendo que “há obras necessárias”, e sem questionar a necessidade de melhorar os acessos e as condições do bairro, Júlio Luta, também arquiteto, lamenta, no entanto, que esta intervenção nunca tenha sido apresentada à população. “Não conseguimos entender a necessidade desta empreitada nem qual o objetivo global da intervenção”, diz ao ALMADENSE. “Por que é que os ‘acessos alternativos às praias’ atravessam uma zona residencial? O que se pretende com estas acessibilidades?”, questiona.
À procura de explicações sobre “o sentido do projeto”, Júlio Luta levou o assunto à Assembleia de Freguesia da Costa da Caparica ainda em 2025. Preocupado com os planos da CMA, enviou também vários emails à autarquia solicitando esclarecimentos sobre o projeto. Em nenhuma das situações obteve uma resposta concreta, indica.
Uma das zonas já intervencionadas é a envolvente da Igreja Paroquial de Nossa Senhora da Conceição, na Rua do Juncal, onde foram abatidas pelo menos 12 árvores, segundo a contabilização feita pelo grupo. Aqui, os moradores dizem ter especial dificuldade em compreender o abate, mostrando ao ALMADENSE imagens do aspeto da rua antes da intervenção. “Podiam ter melhorado o espaço sem eliminar as árvores. Agora ficou tudo muito mais exposto ao sol”, referem.

Na Rua Ercília Costa, o cenário repete-se. Aqui, o arvoredo foi retirado para reorganizar o estacionamento. “Não haveria uma alternativa que evitasse o abate?”, questionam.
A próxima fase da obra prevê ainda a requalificação da rotunda junto à Praça de Nossa Senhora dos Navegantes, numa nova intervenção que poderá implicar o corte de mais árvores, que os moradores esperam ainda ser possível preservar.
Face ao avanço da empreitada, o grupo decidiu avançar com uma petição pública que já reúne mais de 2600 assinaturas. Os subscritores pedem à autarquia que suspenda o abate de mais árvores, reavalie o projeto, divulgue de forma transparente a informação técnica que fundamenta estas decisões e promova uma reunião pública com todos os moradores da Costa da Caparica antes da continuação da obra.
No texto da petição, argumentam que “uma árvore nova não substitui uma árvore adulta. Uma árvore adulta levou décadas a crescer. Dá sombra, reduz o calor, melhora a qualidade do ar, protege a biodiversidade e ajuda a tornar a cidade mais resiliente perante as alterações climáticas”. Enquanto as obras prosseguem, continuam a acompanhar diariamente a evolução da empreitada, mantendo a esperança de ainda conseguir salvar algumas das árvores marcadas para abate.
O ALMADENSE procurou obter esclarecimentos junto da Câmara Municipal de Almada sobre a fundamentação dos abates de árvores e as alternativas consideradas, mas não obteve resposta até à publicação da reportagem.
Com Mariana Aleixo







Estas arvores e para plantar nos parques de campismo da Costa da Caparica e outros para se refugiarm dos maus tempo ( Inverno, Verão )