José João Mendes, presidente da Egas Moniz: “Temos no campus da Caparica 39 nacionalidades, a maioria francófonos”

Entre a ambição de abrir o curso de Medicina no campus da Caparica e o desafio de afirmar Almada como uma verdadeira cidade universitária, José João Mendes, presidente da direção da Egas Moniz School of Health & Science, traça as grandes prioridades da instituição para os próximos anos. Em entrevista ao ALMADENSE, anuncia ainda a construção de uma nova residência de estudantes, sublinha a importância crescente do aluno internacional e destaca o papel ativo da entidade no Almada Innovation District.

ENTREVISTA ALMADENSE

A Egas Moniz School of Health & Science apresentou em 2022 uma nova identidade visual e estratégica. O que motivou esta mudança e que mensagem pretende transmitir?

Os nossos projetos educativos têm, em primeiro lugar, uma vocação regional. Estamos implementados em Almada, distrito de Setúbal, e temos muito orgulho disso. No entanto, a organização tem que pensar no futuro, e uma realidade que se adivinha há uns anos a esta parte — e que nós só estamos a antecipar — é a questão demográfica. Em relação ao número de jovens com idade para aceder ao ensino superior, temos noção de que haverá um pico entre 2027, 2028. Isso levou-nos a reposicionar este projeto educativo, sempre respeitando e mantendo a matriz regional. Mas porque o projeto se baseia, em primeiro lugar, no ensino, se queremos que o continue, temos de ter alunos e, para isso, era preciso ter um nome internacional e colocá-lo no mapa mundo.

Qual é atualmente a fatia de alunos internacionais no campus?

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Neste momento temos cerca de 3.600 alunos no campus da Caparica. Destes, cerca de 1.300 são alunos internacionais, não portugueses.

Qual é a procedência deles?

A maior parte são francófonos. Dos 1.300 internacionais, cerca de 900 são francófonos. A maior parte franceses, mas também procedentes de ex-colónias francesas. Mas este é um campus muito multicultural: temos aqui 39 nacionalidades. Temos muitos alunos europeus e também de outros continentes, desde da Ásia até à América.

Qual é a importância do aluno internacional para a Egas Moniz?

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Por vezes, não se tem plena noção da importância do aluno internacional para a economia portuguesa. O estudante internacional tem, de facto, um impacto económico muito significativo. Porque é um jovem que fica a conhecer Portugal e a região. Temos ainda a vantagem de estarmos muito bem localizados, junto a uma costa de praia fantástica. Estes alunos, através das viagens que realizam, das despesas com alojamento, alimentação e deslocações, acabam por contribuir de forma relevante para o tecido económico da região.

Alguns destes alunos ficam em Portugal a trabalhar?

A percentagem dos que ficam a trabalhar em Portugal é muito residual. Há muitos jovens, de todo o mundo, cuja ambição passa por estudar na Europa, obter um diploma europeu e, depois, trabalhar num dos 27 países da União Europeia (UE) ou regressar ao seu país de origem. Para eles, isso é uma vantagem. Mesmo no caso dos alunos brasileiros, alguns optam por ficar a trabalhar na UE, mas aqueles que regressam ao Brasil têm, naturalmente, uma mais-valia em termos de progressão de carreira, precisamente porque têm um diploma europeu. Existe, muitas vezes, algum receio quanto à possibilidade destes alunos ficarem cá. No entanto, a realidade mostra que a maioria não fica, até porque os jovens de hoje encaram a mobilidade de forma muito diferente das gerações anteriores.

“Temos capacidade para lançar um curso de Medicina”

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José João Mendes acredita que a Egas Moniz está preparada para lançar o curso de Medicina. Foto: Tiago Pires / Almadense

Já tem alertado para a escassez de profissionais de saúde como um risco sistémico em Portugal. Tendo em conta a pressão demográfica no concelho de Almada, como é que a Egas Moniz se posiciona para tentar colmatar essas dificuldades?

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Desde a sua origem, a Egas Moniz já formou mais de 14 mil profissionais de saúde. O nosso curso base é medicina dentária, mas já alargámos a oferta a quase todas as áreas da saúde. Falta-nos o curso de medicina, que ambicionamos.

O que motiva essa ambição?

Claramente que temos essa ambição. É um projeto que queremos que seja de índole regional. Temos um hospital próximo, o Garcia de Orta (HGO), diferenciado e de grande dimensão, com o qual temos vários projetos em comum. Por outro lado, temos a Egas Moniz, com uma vasta experiência de ensino e investigação ligada à saúde. Portanto, torna-se difícil perceber porque é que não há uma convergência de vontades. Para propor um curso de medicina tem que se ter um grau de maturidade elevado: é preciso acautelar as condições básicas e isso já temos há muitos anos. Mas é importante ter também a parte da investigação e das unidades de saúde. O HGO é o principal player pela proximidade, tamanho e dimensão, mas também é importante não deixar de parte o Hospital do Barreiro e o Hospital de Setúbal. O distrito de Setúbal é o que mais vai crescer em termos de população em Portugal. Por isso, terá também desafios na área da saúde. Parece-me que é uma oportunidade evidente. Da nossa parte, temos capacidade para o fazer. Estamos à procura de convergir vontades.

Será preciso um investimento importante.

Repare, a base do ensino já nós a temos. As instalações estão preparadas ao nível da anatomia, da fisiologia e da histologia, áreas que ensinamos há muitos anos. Dispomos também de um centro de formação na área médica. Existe esta vontade, que me parece inevitável, mas é algo que tem de ser feito com responsabilidade. Até ao momento, a Egas Moniz ainda não apresentou a proposta para o curso de Medicina. Nos últimos dez anos, demos também um grande salto na investigação na área médica.

Tem um horizonte para a apresentação dessa proposta e para a implementação dessa ambição de ter aqui um curso de Medicina?

Estamos a entrar no terço final da corrida. O que é importante é termos as instalações físicas, condições base e isso já temos.

Seria necessário construir outro edifício?

Será necessário e nós temos terreno para isso: comprámos mais 11 mil metros quadrados encostados à NOVA FCT. Temos aqui dois campus muito próximos: a NOVA FCT, mais ligada à engenharia e nós, mais na área da saúde. Se olharmos para o PDM de Almada, verificamos que estes dois campus poderiam estar ligados, criando um grande campus universitário que integrasse a engenharia e a saúde, duas áreas claramente convergentes. A ideia seria criarmos aqui uma grande cidade universitária em Almada porque temos aqui em conjunto cerca de 16 mil jovens a estudar.

Pensa que está ultrapassada a resistência que havia em Portugal em relação aos cursos de medicina no ensino privado? Acredita que há abertura para se aumentar o número de instituições privadas com o curso de medicina?

Neste momento não entendemos que possa haver qualquer resistência. Nós formamos muitos jovens das várias áreas da saúde em áreas que são tuteladas por ordens profissionais. Não há razão para não nos reconhecerem, até porque temos tido reconhecimento internacional em vários rankings naquilo que são as métricas internacionais. É a prova da nossa capacidade. É preciso complementar com a parte do ensino clínico. Aí tem que haver convergências. faz sentido haver uma ligação aos hospitais públicos. O que vemos é que há uma rede hospitalar pública capaz de coadjuvar este projeto.

Estes dois campus [NOVA FCT e Egas Moniz] poderiam estar ligados, criando um grande campus universitário que integrasse a engenharia e a saúde. A ideia seria criarmos uma grande cidade universitária em Almada porque temos em conjunto cerca de 16 mil estudantes.

E que tem necessidade de profissionais.

Claramente. Além disso, temos também a CUF aqui ao lado e sabemos que existe interesse na instalação de mais unidades privadas. Há, inclusivamente, um espaço que será colocado a concurso para que entidades privadas possam concorrer. É certo que vai haver mais unidades privadas de grande dimensão em Almada.

Tem um horizonte temporal para o lançamento do curso de Medicina?

Espero que, no máximo, daqui a quatro ou cinco anos o curso esteja aberto. Porque este tipo de ensino obedece a regras muito claras. É uma área altamente regulada pelas ordens profissionais.

 

“O Innovation District vai, em breve, ganhar uma nova dimensão”

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José João Mendes defende a criação de uma grande cidade universitária em Almada. Foto: Tiago Pires / Almadense

Já referiu a matriz de desenvolvimento socioeconómico regional da Egas Muniz.  Em que medida é que essa ambição se tem materializado na prática?

Penso que as universidades devem, além de facultarem diplomas, estar atentas às necessidades do país e, em concreto, da região onde estão implementadas. Como nós ensinamos saúde, é muito importante perceber quais são as lacunas existentes neste território em termos de saúde e contribuir para as colmatar. É isso que fazemos. Em concreto, nas áreas da saúde oral, da fisioterapia, da veterinária, das ciências farmacêuticas e da nutrição, temos desenvolvido projetos que procuram dar resposta a essas necessidades.

Que projetos destaca?

Por exemplo, as nossas clínicas prestam atendimento ao público a preços mais acessíveis e a população carenciada tem acesso gratuito a tratamentos. Temos também uma forte aposta na literacia em saúde, porque a população tem hoje uma maior longevidade. Isso representa um grande desafio: as pessoas vivem mais tempo, mas também convivem durante mais anos com doenças crónicas. Por isso, é fundamental investir na literacia. Temos vários projetos interessantes nessa área. É muito importante estarmos no terreno, identificar as questões, incluindo as relacionadas com a saúde mental e com a importância da atividade física, tanto nos jovens como nos idosos. É igualmente essencial apostar na mobilidade, porque isso traz qualidade de vida, e incentivar as novas gerações a adquirirem hábitos mais saudáveis.

Referiu a ideia de criação de uma cidade universitária em Almada, mais concretamente no Monte de Caparica. A Egas Moniz está também envolvida no Almada Innovation District, que tem como objetivo desenvolver o território e atuar como motor da economia. Depois do anúncio do projeto, não temos tido conhecimento de grandes desenvolvimentos. Do ponto de vista da Egas Moniz, quais são as perspetivas para os próximos tempos?

Quando fomos convidados pela Universidade NOVA de Lisboa para integrar este projeto, achámos que fazia todo o sentido, especialmente pelo enfoque na engenharia e na saúde como motores de inovação, com o objetivo de criar mais empregos. Daí também a nossa ligação ao Maden Parque. O projeto pretende ser um motor para investigar, viver e usufruir deste espaço. O mais importante é atrair pessoas que acreditem na sua visão. Ao contrário do que se possa dizer, não se trata de um projeto de especulação imobiliária. É fundamental garantir o respeito pelo ambiente, e o Almada Innovation District tem essa preocupação. Existem ainda questões urbanísticas a resolver, assim como a mobilidade, que é um ponto crucial, nomeadamente no acesso ao Porto Brandão. O objetivo é que estas zonas possam ser usufruídas por todos os almadenses e não apenas por alguns. Porto Brandão e Trafaria devem ser valorizados, pois são áreas com grande potencial.

Ao contrário do que se possa dizer, o Almada Innovation District não é um projeto de especulação imobiliária. Trata-se de uma intervenção local que valoriza as pessoas e as coletividades da região.

Em que fase está o desenvolvimento do projeto?

O projeto vai, em breve, ganhar uma nova dimensão. Trata-se de uma intervenção local que valoriza as pessoas e as coletividades da região. Queremos também destacar e promover a cultura local. Até junho, será anunciado um conjunto de medidas detalhando o que está previsto, sempre com atenção ao urbanismo e à componente ambiental. A nossa abordagem baseia-se no respeito por vários fatores, incluindo mobilidade, saneamento, cultura e preservação ambiental.

O facto do PDM estar ainda em revisão está a dificultar o avanço dos projetos?

Facilitava o PDM estar revisto. Mas isso depende de vários fatores e de entidades que vão para além do município. Causa alguma incerteza, é algo que queremos resolver. Perceber que se vamos ter mais pessoas no território. A nova travessia entre Algés e Trafaria é indispensável, porque vamos ter mais população a viver deste lado. Teremos todos uma péssima qualidade de vida se estivermos todos na fila da ponte para irmos para Lisboa. É inevitável haver mais uma travessia.

Concorda com a solução do túnel submerso?

Concordo. Mas não tenho conhecimento técnico para indicar, a nível de impacto ambiental, qual é a melhor solução. Que seja estudado por quem de direito. O país não pode esperar mais.

Mas é um investimento muito avultado, difícil de executar. Aponta-se para mil milhões de euros.

Quando se fazem grandes obras públicas, são geralmente obras que envolvem o público e o privado. Como a Ponte Vasco da Gama. Por isso, a solução do túnel deverá envolver o público e o privado. Uma coisa é certa: o grau de mobilidade que se ia dar ao país e à região seria importante. Não faz grande sentido haver mercadorias que passam pela Ponte [25 de Abril]. É indispensável, contribui para que o país seja mais competivivo em termos económicos e as pessoas ganhariam em qualidade de vida. Mas, além disso, é indispensável melhorar a qualidade e quantidade dos transportes públicos: quer os barcos, quer o comboio. Outro desafio é criar a cultura de utilização de bicicleta, para que os jovens se possam deslocar mais facilmente.

 

“Vamos construir uma nova residência de estudantes com 286 camas”

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José João Mendes é o presidente da direção da Egas Moniz. Foto: Tiago Pires / Almadense

Em que fase está o projeto One Health Innovation Center?

Nós reestruturámos a dimensão desse projeto e uma das novidades será a construção de um edifício de 1000 metros quadrados dedicado só à investigação. Vai ser um edifício novo dentro do campus, que vai acontecer a curto prazo. A ideia é aprofundar o conceito de One Health, unindo a saúde humana, ambiental e animal.

Com mais de 3.600 estudantes e apenas uma residência com 211 quartos, como é que a Egas Moniz responde ao problema do alojamento estudantil? Que responsabilidade assume a instituição nesta questão?

Vamos fazer uma nova residência de estudantes com 286 camas. O que quer dizer que, no total, vamos ficar com quase 500 camas. Este novo projeto terá quartos duplos e individuais. Esperamos começar a obra até ao final deste ano, que deverá demorar dois anos. É algo que já está perto de ser concretizado.

Ainda assim, num contexto de rendas cada vez mais elevadas na Margem Sul e na Área Metropolitana de Lisboa, as dificuldades dos estudantes no acesso ao alojamento preocupam-no?

Preocupa-nos ter um preço acessível para as famílias. Temos muitos alunos de fora da região da grande Lisboa, que precisam de alojamento. No primeiro ano, verificamos que os alunos têm uma grande necessidade de estarem no campus, porque ainda não conhecem a região. Ao final de um ou dois anos, preferem organizar-se e vão partilhar apartamentos. Mas preocupa-nos que haja preços que sejam acessível para os jovens. A habitação é um problema não só em Portugal e se os preços escalarem muito é uma dificuldade para os alunos virem para cá. No caso das nossas residências, acredito que os preços são compatíveis para uma família conseguir colocar cá um jovem a estudar.

Têm também um importante projeto na área da violência doméstica.

Pode parecer vaidade, mas toda esta comunidade de funcionários, professores e alunos é uma referência em algumas áreas a nível internacional. Nomeadamente na área da violência doméstica, a Egas Moniz é a referência nacional. Fomos pioneiros na criação de um gabinete de apoio à vítima, localizado no Parque das Nações, e desenvolvemos a nova ficha de relato de violência doméstica, de forma académica. Participámos em concurso público, ganhámos, e atualmente estamos a formar as forças policiais a nível nacional. É algo que nos enche de orgulho.

E que outros projetos se destacam no universo de atividade da Egas Moniz School of Health & Science?

Outra questão importante é a carência de proteína a nível mundial. Sabemos que a produção de proteína animal não é suficiente para acompanhar o crescimento da população global, e isso preocupa a Europa. Estamos envolvidos num projeto de investigação chamado InsectERA, que segue a lógica da economia circular: aproveitando resíduos biológicos, como bagaço de azeitona e outros, produz-se larvas que dão origem a moscas, que depois são desidratadas para gerar uma farinha proteica. É um projeto inovador, idealizado por um dos nossos investigador da Egas Moniz, Daniel Murta. É algo que nos enche de orgulho, porque alia inovação à sustentabilidade ambiental.

Outro ponto que gostaria de destacar refere-se à sexta doença com maior impacto a nível mundial: a periodontite. Na Egas Moniz, temos quatro investigadores que estão entre os 2% mais citados globalmente nesta área. Isso deixa-nos cheios de orgulhoso, pois é investigação com impacto real na vida das pessoas, em áreas em que nos destacamos a nível nacional e internacional.

 

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