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Comprar livros em Almada

Davide Drumond, bibliotecário e mediador de leitura                                                                                                                                                   

Fazem falta mais livrarias em Almada. Lamentavelmente, há um lugar onde se poderia comprar livros e que não existe em Almada, que é uma feira do livro anual. O meu sonho é ver um dia a praça São João Baptista repleta de pavilhões de livros, rodeada de leitores que partilham e celebram o seu amor pelos livros.

Comprar livros não é o mesmo que os ler e não lemos todos os livros que compramos. Quantos de nós não compramos livros para futura leitura, para um fim de semana, uma noite de insónia, para as férias, para quando nos reformarmos ou para quando os filhos crescerem? Os japoneses inventaram um conceito para designar a acumulação de livros e a angústia de não os conseguir ler: Tsundoku. Mas acumular livros em casa não é necessariamente angustiante. Pode ser uma promessa de futuro, um jogo com o destino e a longevidade. Os leitores não se dão bem com a mortalidade. O seu sonho é a eternidade: ler todos os livros do passado, do presente e do futuro. Viver noutro lugar e noutro tempo, habitar outras histórias para além das suas, viver outros personagens para além de si próprios. E onde então poderemos comprar livros em Almada contra todos os constrangimentos de não termos tempo para lê-los, de não termos mais espaço para arrumá-los, de não termos dinheiro para comprá-los?  Qualquer leitor que faz jus a essa condição, terá sempre tempo para ler, espaço em casa para mais um livro e dinheiro para o comprar, e se o problema for a falta de espaço ou de dinheiro, pode sempre pedir por empréstimo à biblioteca municipal de Almada, que presta um serviço de leitura pública de excelência.

Os lugares em Almada onde se pode comprar livros vão desde livrarias, papelarias, tabacarias e supermercados, juntas de freguesia e alguns equipamentos da Câmara Municipal de Almada, passando por lojas de velharias, feiras da bagageira ou até livrarias ambulantes. Não existem muitas livrarias em Almada, pelas minhas contas, existem apenas seis, a saber: Almedina e Fnac, no Fórum Almada; Bertrand, na Avenida Dom Afonso Henriques; Escriba, na Cova da Piedade, Meia Volta de Úrano, em Cacilhas e Poets and Dragons Society, na Costa da Caparica.

As três primeiras livrarias apresentam uma grande diversidade de oferta de livros, sobretudo das grandes e médias editoras. Olham para o livro como um produto comercial e não tanto cultural. Tanto se lhes dá que os lucros venham da venda de livros de Paulo Coelho ou de Thomas Mann. Tais livrarias fazem grandes campanhas de marketing, apresentando descontos e cartões de cliente. Os livros têm uma alta rotatividade e o que se vende são sobretudo novidades e best-sellers. Facilmente encontramos o último livro da moda, mas muito dificilmente encontraremos um livro que foi editado há quatro anos ou publicado por uma editora independente. Para isso teremos de ir à livraria Escriba, que na minha opinião é a melhor livraria em Almada.

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Livraria Escriba, na Cova da Piedade. Foto: Bruno Marreiros

 

A livraria Escriba não é grande, nem pequena, tem o tamanho certo para não ter nenhum espaço vazio. Desde o chão até ao teto está forrada de livros, com exceção de uma ardósia atrás do balcão, na qual está sempre escrito um poema. Há também a decorá-la duas esculturas: uma de Fernando Pessoa e outra de Camões, o que por si só revela em que tipo de livraria nos encontramos.  A proprietária, Rosa Alface, é uma livreira, na verdadeira aceção da palavra. É uma grande leitora e escolhe os livros criteriosamente. Orgulha-se de pelo menos vender um livro de poesia por dia. Não vende José Rodrigues dos Santos e não se vende aos grandes grupos editoriais. A maior parte dos livros são de qualidade literária e comprados a firme, o que faz com que não sejam devolvidos. O último livro que comprei na Escriba foi “Como Ler Literatura” de Terry Eagleton e traz o selo da livraria. Marca que perpetua a origem da sua compra. Pelo menos esse livro, enquanto durar nas minhas mãos, saberei onde o adquiri. Ao comprar livros na Escriba, não só estamos a ajudar o comércio local como contribuímos para a manutenção de uma grande livraria.

O estabelecimento Meia Volta de Úrano está concebida como bar, restaurante, galeria, sala de concertos e livraria. Este tipo de espaço tem a vantagem de podermos tomar um copo ou comer uma tosta mista, e mesmo ao lado estar uma estante onde algum livro nos pode chamar a atenção. A Meia Volta de Úrano é essencialmente uma livraria de editoras independentes e de fundos de catálogo. Não obstante a sua desarrumação, algumas editoras ou coleções estão agrupadas, como é caso da excelente editora Sistema Solar. O benefício da Meia Volta de Úrano é que sendo o negócio dos livros uma atividade precária, pode dar-se o caso de o bar e o restaurante pagar as despesas da livraria, mantendo desse modo o negócio livreiro. Quanto a mim, o maior potencial da Meia Volta de Úrano é ser um espaço para apresentação de livros (atividade bastante escassa nas livrarias de Almada), a existência de sessões de poesia e um clube de leitura.

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Interior da Meia Volta de Úrano, em Cacilhas. Foto: Bruno Marreiros

 

A Poets and Dragons Society, situada na Costa da Caparica, é uma livraria especializada em livros infantis de língua inglesa, realizando sessões de histórias para crianças e apresentação de livros. A Poets and Dragons Society é uma livraria a visitar para quem tem crianças, que começam a aprender inglês cada vez mais cedo.  

Se quisermos comprar livros que abordam temáticas locais editados pelas juntas de freguesia ou pela Câmara Municipal de Almada é ir às sedes das juntas, ou alguns equipamentos da Câmara, como, por exemplo, a Casa da Cerca, a Rede de Bibliotecas Públicas ou o posto de turismo.   

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As lojas de velharias ou feiras da bagageira fazem a vez dos alfarrabistas ausentes em Almada. Deixo aqui três lojas de velharias onde encontrei livros em segunda mão por cinquenta cêntimos, um ou dois euros: Associação Batel, Associação de Reinserção Social e Antiguidades & Velharias. No centro de trabalho do Partido Comunista Português também se podem comprar livros em segunda mão por um euro. Quanto às feiras da bagageira que constituem um universo infinito de mercadorias, encontramos livros para todos os gostos, desde um simples receituário ou almanaque, até às obras completas de Eça de Queirós ou de Ferreira de Castro. A maior é sem dúvida a da Costa da Caparica, que se realiza aos domingos junto à praia, outra é a do jardim da Cova da Piedade às sextas-feiras. Mas queria falar do senhor Zé António que quase todos os dias de manhã está no muro entre a praça São João Batista e a avenida Nuno Álvares Pereira a vender as suas quinquilharias. É visível que ele não tem muitos livros para vender, mas certo dia, comprei de uma assentada por dois euros o meu livro da quarta classe de Meio Físico e Social, um livro da antiga proprietária da minha casa  e um número da revista “Mulheres” (que desconhecia), cuja diretora era a Maria Lamas e a chefe de redação a Maria Teresa Horta. Quer os dois livros, quer a revista foram ressignificados e estabelecem relações afetivas e simbólicas com a minha vida.

As livrarias ambulantes como as tendas do Mbooks podem encontrar-se durante o verão na Costa da Caparica ou duas vezes por ano na Praça São João Batista. As tendas do Mbooks vendem fundos de catálogo que sobreviveram à destruição ou de editoras que já fecharam, como são os casos da Sá da Costa, da Quasi ou da Vega. Para os aficionados da coleção Argonauta, de ficção científica, há inúmeros títulos disponíveis.  Há dias, na tenda da praça São João Batista, por três euros, comprei “O Pequeno Livro Vermelho do Estudante” de Soren Hansen e Jesper Jensen, que foi proibido e censurado em muitos países, das edições Afrodite, de um dos editores mais corajosos do período do Estado Novo, Fernando Ribeiro de Mello.

Também há um vendedor ambulante na Estação do Pragal que vende bons livros a preços acessíveis. Mas a livraria mais original que já vi, quer na Costa da Caparica, quer em Cacilhas, quer na feira de Natal, na praça São João Batista, quer no Green Market, no Parque da Paz, foi a livraria ambulante Roda Livro de Edison Vilela. Esta livraria consiste num veículo a pedais que tem um atrelado com livros à frente. O Edison Vilela é um brasileiro muito simpático, que não só vende livros em segunda mão, como também os troca.

Na minha opinião, fazem falta mais livrarias em Almada e, lamentavelmente, há um lugar onde se poderia comprar livros e que não existe em Almada, que é uma feira do livro anual. O meu sonho é ver um dia a praça São João Baptista repleta de pavilhões de livros, rodeada de leitores que partilham e celebram o seu amor pelos livros.

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