Lurdes Soares, vice-presidente da associação Onde Há Gato Não Há Rato
Com a redução do problema da sobrepopulação de gatos de rua, quer através da esterilização, quer através da redução do abandono, esperamos que no futuro possa haver menos intervenção humana na população de gatos da cidade e um melhor convívio entre humanos e animais.
Desde criança que adoro gatos. Cresci numa aldeia no Alentejo e os gatos fizeram parte da minha infância. Assim que tive casa própria, adoptei uma gata, a Mia e, posteriormente, o Alex. Depois disso, tudo mudou.
Em 2011 comecei a fazer voluntariado no espaço que hoje é o Centro de Acolhimento Temporário da associação, localizado na Caparica. Na altura, era um espaço deprimente, praticamente sem luz natural, onde viviam mais de 60 gatos. Aos poucos, com ajuda de outros voluntários, o espaço foi melhorando e procurámos esterilizar dentro das nossas possibilidades, quando o programa Capturar – Esterelizar – Devolver (CED) era uma miragem.
Contactei o Serviço Veterinário Municipal, cujo veterinário era na altura o Dr. Mário Magalhães, e iniciámos a esterilização gratuita de duas fêmeas e um macho por semana. As outras esterilizações faziam-se na Liga Portuguesa dos Direitos do Aninal (LPDA) e na Associação Zoófila Portuguesa (AZP), graças aos donativos que nos chegavam.
Como acho que a legalidade é sempre o melhor caminho para desenvolver causas, decidi criar em Almada uma associação. Uma associação teria de ter pelo menos nove pessoas disponíveis para dar o seu melhor por uma causa. De forma ingénua, acreditei que o caminho fosse mais fácil, que a minha paixão, dedicação e empenho permitiriam um panorama muito diferente do actual. Assim nasceu a associação Onde há Gato, não há Rato, legalmente constituída a 14 de Março de 2013.
Qual a nossa missão?
A missão da Onde Há Gato Não Há Rato é diminuir a sobrepopulação de “gatos de rua” na área do concelho. Acreditamos que a esterilização dos gatos de rua (através do sistema de captura, esterilização e recolocação/devolução) é a melhor solução para a resolver o problema em áreas urbanas. Embora reconheçamos que a captura e esterilização de um gato de rua é um processo traumático para o animal, consideramos que esta é a solução menos cruel, entre as que estão atualmente disponíveis. No entanto, aguardamos ansiosamente a criação de novas soluções, menos agressivas, que adotaremos, sem hesitar, assim que estejam disponíveis.
Com a redução do problema da sobrepopulação de gatos de rua, quer através da esterilização, quer através da redução do abandono, esperamos que no futuro possa haver menos intervenção humana na população de gatos da cidade e um melhor convívio entre humanos e animais.
Ao longo destes anos percebi que o meu sonho de ver humanos e animais silvestres a viver pacificamente era uma utopia neste concelho.
Sim, é verdade, encontrei pessoas maravilhosas (muitas!). Sem elas, nunca a associação chegaria até aqui. Sou apenas uma. Porém, a desumanidade, a prepotência, a maldade e a indiferença de algumas pessoas (que, infelizmente, tendem a aumentar) tem sido um murro difícil de suportar.
O abandono de animais em qualquer lugar, em colónias, à porta de pessoas que já têm animais, à porta das associações, nos descampados… passou a ser uma constante. Longe vai o período das férias, que associávamos ao abandono e todos desesperávamos. Era difícil. Todavia, estava concentrado numa época estival. Agora acontecem durante todo o ano. Por vezes penso que o abandono acompanha a linha das alterações climáticas, uma vez que as estações do ano estão cada vez mais indefinidas.
Para além do abandono de animais com tutores, assistimos ainda aos requintes de crueldade, quer na prática do abandono (em caixotes do lixo), como na morte lenta por falta de acesso a alimentos e a água. Acrescem ainda os acumuladores que, em nome do amor aos animais, os deixam a viver em condições miseráveis, quer em termos de densidade, quer de higiene, cuidados básicos de alimentação e saúde.
Há leis! Contudo, na hora de se fazerem cumprir, parece que se “assobia para o lado”. Nunca, ao longo destes mais de dez anos de causa animal assisti a uma penalização de quem infringiu sofrimento a uma animal. Crime, só no papel.
As pessoas (algumas) querem o todo e o efémero. Um dia, acordam a querer um animal e, se não for imediato, até nos ofendem porque estamos a impossibilitar o seu desejo. Porém, com a mesma rapidez com que o desejam, assim se desfazem dele.
Todos querem um gatinho bebé, sem pensar que cresce e que tem custos. As justificações para se livrarem de um animal são sempre as mesmas: gravidez, nascimentos, casamentos, separações, morte de familiares, desemprego, perda de casa, emigração, alergias, novos relacionamentos… tudo serve para descartar. O mais grave é que as pessoas acham que são as associações que devem dar resposta ao seu problema.
Enquanto espécie, ainda temos um longo caminho a percorrer. Falta empatia, falta sentido de responsabilidade, falta perceber que a responsabilidade de um animal com tutor também é da família e que de um animal de rua é de todos.
Sobre o abandono e os maus tratos, ouvimos muitos palavrões. Os maiores são “já se sabe e não quero saber!” Como dizia António Variações, “Estão-se a despir de toda a humanidade”.
NOTA: Este texto foi escrito em meu nome pessoal.
https://almadense.sapo.pt/cidade/almada-elas-sao-as-incansaveis-cuidadoras-dos-gatos-da-romeira/




