Agostinho Costa, residente na Amadora
O Parque da Paz é o verdadeiro “pulmão” de Almada. é aquele tipo de refúgio urbano onde o barulho do trânsito da A2 e do IC20 magicamente desaparece, dando lugar a uma serenidade que justifica plenamente o seu nome.
A ponte. A ponte serve para atravessar, para unir, unir na desunião. Era o que eu acabava de fazer. No comboio de dois pisos, atravessara o querido Tejo, chegando a Almada. E, a seguir, já integrado num pequeno grupo, apanho o metro da Margem Sul, dirigindo-me ao Parque da Paz para mais um treino aberto. Corrida, caminhada, convívio, tudo isento de formalidades, de horário…
Bem junto à Cova da Piedade, onde eu já lá vão uns vinte anos, ia comer o saboroso e enorme bife com a Helena ao Restaurante Jardim. O Parque da Paz é o verdadeiro “pulmão” de Almada. Com cerca de 60 hectares, é aquele tipo de refúgio urbano onde o barulho do trânsito da A2 e do IC20 magicamente desaparece, dando lugar a uma serenidade que justifica plenamente o seu nome. Sim, serenidade. Era o que já sentia ao penetrar o amplo e agradável espaço que se me abria adiante.
Que belo aroma, logo surgiu ao meu órgão dos cheiros! Agradável, suave, contudo, não consegui ter a certeza de qual era. Talvez lavanda, alfazema… Ao nosso lado, do lado esquerdo, o lago principal. Bastante grande, sobre o comprido. Nele nadavam inúmeros patos e gansos, que iam entoando, alguns deles, a sua melopeia, “Quack, quack, quack!” E também menos frequente, “Honk, honk!” ou “An-han!” Os primeiros, os patos; os segundos, os gansos. Entretanto, este som foi substituído pelo da pequena cascata que existia ao cimo do lago.
Era bonito o cenário. Sentia-se a Natureza, já com a sua pujança a querer surgir, a querer exibir-se para nós. Que pena! Ao entrarmos no parque, ainda tivemos um vislumbre do bonito sol. Agora, era o enevoado do céu, de onde ia surgindo uma chuvinha ligeira.
O parque foi desenhado pelo arquiteto paisagista Sidónio Pardal e caracteriza-se por amplas zonas de relvado e caminhos ondulantes. O lago é a peça central. Além de ser esteticamente bonito, é o habitat de vários patos, gansos e cisnes. E estes, verdadeiros guardiões do parque, sabem saudar os seus visitantes, como nós.
Subíamos um pouco. Pela direita, era vasto o arvoredo. São muitas as espécies de árvores e arbustos (como pinheiros, oliveiras e ciprestes) que criam zonas de sombra perfeitas para os dias mais quentes. Hoje, não era o caso. E até, para além de algumas árvores despidas, também as havia meio decepadas, resultado, por certo, das muitas chuvas e ventos a que vínhamos assistindo nos quase três meses últimos.
Algumas aves sobrevoavam-nos, lançando os seus pipilares alegres. Já anteviam a Primavera. E ela aqui está… contra os maus tempos; o comboio de depressões que este Inverno nos surgiu. Os ventos, ah, os ventos…
De vez em quando, era uma pessoa de bicicleta que passava. Uma ou outra pessoa a correr, alguns do nosso grupo. A distância que se pode percorrer no parque, sem se repetir caminho, é de cerca de um quilómetro. E nós caminhávamos, um pouco a subir; ora a descer; em terreno mais direito; segunda volta, terceira… Agora era o pequeno lago, de onde jorrava a água em torvelinhos. Nesta zona, havia pessoas a aproveitarem os instrumentos de ginástica, que os havia à disposição de quem quisesse fazer o seu exercício.
O parque está preparado para a prática de desporto. Tem pistas próprias para caminhadas e jogging, e é muito comum ver grupos a praticar yoga ou tai-chi nas clareiras. Neste dia, nesta manhã, o movimento era mais escasso. E era mais o aproveitamento dos aparelhos para exercício físico.
Também me veio à lembrança a hipótese de algum piquenique. O parque está vocacionado para acolher grupos e famílias, dispostas a usufruí-lo dessa maneira. As suas clareiras, mais ou menos sombreadas, tornavam bem agradáveis essas práticas. São diversas as zonas amplas onde as famílias se juntam com as tradicionais geleiras e mantas no chão. E mesmo para as crianças este parque pode ser um verdadeiro oásis. O parque é seguro, espaçoso, ideal para os miúdos correrem à vontade ou andarem de bicicleta.
Mas a nossa caminhada ia chegando ao fim. Estavam concluídos os cerca de cinco quilómetros da praxe. Já era o Monumento à Paz que nos recebia. Uma escultura imponente, em aço, da autoria de José Aurélio, inaugurada em 1999. Com cerca de 26 metros de altura, é um dos símbolos visuais mais fortes da cidade. Localizado no coração do parque, este monumento é bem um centro espiritual e visual a envolver aquele que o contempla. Pode até ser visto por quem circula na A2.
Como se trata de uma escultura em aço, o tempo tem vindo a acentuar-lhe uma cor avermelhada, que provoca um espectacular contraste com o verde do parque. A escultura é composta por dois grandes pilares que se elevam e parecem “abraçar” o espaço. No topo, existe uma abertura ou fenda que permite a passagem da luz, simbolizando a esperança e a transparência necessárias para a paz.
O monumento está localizado no topo de uma pequena colina suave, funcionando como o “norte” visual para quem caminha pelo parque. E até que, por vezes, estabelece um autêntico diálogo com a Água. Está próximo do grande lago central, refletindo-se na água em determinados ângulos, o que reforça a sensação de serenidade.
Serenidade, sim. Paz: foi tudo o que recebi desta manhã, apesar de meio invernosa, em mais esta jornada de caminhada e de partilha com o meu semelhante, com a Natureza, com o Cosmos!
A Voz aos Almadenses: “Quarenta pessoas e um metro quadrado: a viagem das 8h09”






