Uma cadeira muda no Hospital Garcia de Orta

Rui Fontes, Jurista 

Os doentes não desaparecem quando um serviço fecha. Mudam de hospital, e trazem consigo a sua urgência, que pode ser clínica, classificada pelo médico, ou cronológica, imposta pela cadeira.

Cheguei às urgências do Garcia de Orta, olhei para o painel como quem consulta um horóscopo administrativo: 37 pessoas à espera, pouco, quase encorajador. A triagem classifica-me como urgente, que é a forma institucional de dizer que estou certo, mas não tenho pressa. Urgente, no vocabulário clínico, não implica rapidez, implica precedência. Acrescenta três horas e, de repente, já não é uma fila, é um prazo.

Pessoas sentadas nas cadeiras laranja tentam encontrar um conforto que a fadiga e o ângulo do encosto tornam progressivamente improvável. Ao fim de 40 minutos, a coluna pronuncia-se. É a primeira consulta médica da noite. Ouço uma velhinha anunciar-me a sua satisfação pelo tempo de espera, na sua última vez tinha entrado às 17h e sido atendida às 10h40 do dia seguinte.

A questão da casa de banho coloca-se inevitavelmente a seguir. Não é uma questão trivial, é uma equação com duas variáveis: ir significa arriscar perder a chamada do nome, mas fugir à tortura laranja; não ir, é acrescentar um segundo problema ao primeiro. Aperto a bexiga e cravo as unhas na perna, dedos dos pés lutam num ténis já frio para esta época, mas quente para este ambiente. Não sou o único, a cadeira da frente range e ralha mais alto. É uma decisão genuinamente clínica, que o sistema delega no utente sem aviso nem protocolo.

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A televisão passa acidentes rodoviários e fenómenos meteorológicos, que para quem aguarda servem um propósito que o canal desconhece: monitorização da concorrência. Cada acidente é avaliado pela distância geográfica e pelo número de feridos, solidariedade existe, sem dúvida, a seguir aos cálculos. Ninguém naquela sala, com a bateria do telemóvel nos dezassete por cento e duas horas de espera já cumpridas, assiste a um engavetamento com três vítimas e pensa «coitados».

Pensa «mais gente» e a seguir «coitados». Havia 37 pessoas na sala de urgência do Garcia de Orta. Para casos urgentes, o tempo médio era de duas horas e quarenta e seis minutos, para casos muito urgentes o sistema chegava a uma hora e sete minutos. É tempo mais do que suficiente para um enfarte fazer o que tem a fazer, para uma hemorragia interna ponderar as suas opções e tomar as suas próprias decisões com toda a serenidade. O SNS não abandona os seus doentes mais graves: acompanha-os. Ao seu ritmo.

A ministra Ana Paula Martins anunciou um plano para concentrar as urgências de Ginecologia e Obstetrícia — fecham-se algumas, reorganizam-se outras, o Garcia de Orta incluído — com a tranquilidade de quem anuncia uma promoção num supermercado. Em teoria, chama-se racionalização, em matemática básica, chama-se mais gente na mesma sala, o sistema descobrirá, com alguma surpresa, que os 37 de uma urgência somados aos 37 de outra produzem um número diferente de 37.

O problema é um detalhe que as reformas desenhadas sem o calo laranja tendem a omitir: os doentes não desaparecem quando um serviço fecha. Mudam de hospital, e trazem consigo a sua urgência, que pode ser clínica, classificada pelo médico, ou cronológica, imposta pela cadeira. A clínica decide quem entra primeiro, a segunda decide quanto tempo cada um envelhece à espera que a primeira se pronuncie. É uma distinção que não cabe numa conferência de imprensa o que, reconheça-se, também é uma forma de distinção.

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A cadeira laranja não foi consultada. Os 37 de ontem à noite já foram para casa, curados, ou cansados, que são categorias que o sistema ainda não distingue formalmente. Os do plano… estão a caminho.

 

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