Para quando uma Costa da Caparica mais verde e sustentável?

Por Joana Sales, deputada municipal do Bloco de Esquerda

Uma verdadeira política de mobilidade e de desenvolvimento não se faz a demolir árvores com décadas para abrir espaço para ainda mais automóveis, mas sim investindo estruturalmente nos transportes coletivos, em redes pedonais contínuas e em vias cicláveis seguras.

Todos os verões a história repete-se na Costa da Caparica: a forte afluência turística durante a época balnear faz disparar o tráfego automóvel, asfixiando severamente os acessos e paralisando a circulação dentro do território. Perante este cenário crónico, a resposta do executivo camarário do PS continua a ser a mesma receita de sempre e que já se provou ineficiente: mais alcatrão, menos árvores e espaços verdes.

As alterações climáticas já não são uma abstração, são sim uma realidade dramática que sentimos na pele no nosso concelho. Lembremo-nos das tempestades que fustigaram Almada no início de 2026, deixando centenas de desalojados e marcas profundas no nosso território. O desenvolvimento do concelho e o desenho dos seus acessos não podem continuar reféns de lógicas ultrapassadas. Têm de colocar a sustentabilidade, a proteção ambiental e a segurança das populações no centro de qualquer decisão política.

O problema de fundo reside no modelo com que os sucessivos executivos camarários olham para a Costa da Caparica. Em vez de projetar uma cidade sustentável, viva todo o ano e preparada para a emergência climática, o executivo municipal insiste em gerir o território como um mero parque de diversões gigante e uma via rápida de passagem sazonal. Para o Bloco de Esquerda, a visão é a oposta. O património arbóreo consolidado não é um estorvo paisagístico que se pode eliminar. Este representa uma infraestrutura ecológica de primeira necessidade, uma vez que as árvores desempenham um papel insubstituível no sombreamento natural, na retenção de água no solo, na melhoria do ar e na mitigação das ilhas de calor urbanas, condições indispensáveis para que as pessoas possam caminhar, respirar e usufruir do espaço público nos períodos de calor extremo. Uma verdadeira política de mobilidade e de desenvolvimento não se faz a demolir árvores com décadas para abrir espaço para ainda mais automóveis, mas sim investindo estruturalmente nos transportes coletivos, em redes pedonais contínuas e em vias cicláveis seguras.

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Foi na sequência de denúncias de munícipes e coletivos locais que o Bloco de Esquerda se deslocou até aos locais da obra da Empreitada de Acesso Alternativo às Praias para confrontar o projeto aprovado com a realidade concreta. O que encontrámos no terreno foi uma incapacidade de planeamento e fiscalização. Enquanto o projeto oficial falava no abate de 47 espécimes, a contagem real já atinge as 103 árvores abatidas ou afetadas, mais do dobro do que foi assumido pela Câmara Municipal. Mais grave ainda: 37 árvores que constavam da planta oficial como expressamente protegidas foram pura e simplesmente cortadas ou eliminadas da paisagem. Pelo meio, surgem planos de reposição ambiental com mais de duas dezenas de novas plantações desenhadas para locais onde nem sequer existe espaço físico real para acolher uma árvore.

Não houve auscultação pública, nem qualquer tipo de apresentação do projeto à população que vive na zona a ser intervencionada. Compete à Câmara Municipal de Almada assegurar que as populações são devidamente informadas e envolvidas nas decisões que têm impacto direto no seu território e na sua qualidade de vida. A ausência de participação e de esclarecimento público levanta, por isso, sérias questões quanto à transparência, sendo fundamental garantir um verdadeiro espaço de diálogo com os moradores antes de avançar com qualquer intervenção.

A par da perda das árvores, preocupa-nos a intervenção prevista para a Praça Nossa Senhora dos Navegantes. Ao transformar um ponto central de encontro comunitário e atividade sociocultural numa rotunda de grande dimensão, o executivo camarário insiste num desenho urbano focado no tráfego rodoviário, desconsiderando a importância dos espaços de permanência para a população.

Confrontámos a Presidente da Câmara Municipal de Almada, Inês de Medeiros, com estes factos e exigimos medidas imediatas. É urgente suspender o abate das 34 árvores que ainda se encontram marcadas para corte, travar a demolição da Praça dos Navegantes e disponibilizar com total transparência todos os estudos técnicos e cadernos de encargos à população. O Bloco de Esquerda, tanto na Assembleia de Freguesia, Municipal como na Câmara Municipal tem reforçado ao longo dos anos que a Costa da Caparica precisa de planeamento integrado, corredores verdes e respeito por quem cá vive todos os dias. Não aceitaremos que o futuro da nossa terra continue a ser sacrificado.

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