Metro Sul do Tejo: Entre a promessa do futuro e as falhas inadiáveis do quotidiano

José Miguel Carvalho, membro da Comissão de Utentes da Margem Sul do Tejo (CUTMS)

A expansão do metro à Costa da Caparica e Trafaria pode ser uma oportunidade histórica para a Margem Sul. Mas só o será se for feita com transparência, com uma efetiva participação pública e com respostas concretas às preocupações dos moradores.

Sou utilizador diário do Metro Sul do Tejo (MST) e conheço bem o que significa depender deste transporte para chegar ao trabalho, levar os filhos à escola, ir às compras, e tanto mais. Sei o que é ficar comprimido numa carruagem sobrelotada ao início da manhã e ao fim da tarde, e também o que é ver as promessas de expansão acumularem-se durante anos sem que a realidade acompanhe o que se anuncia em comunicados de imprensa. O metro representa uma artéria vital de mobilidade em Almada.

 

Uma história de avanços e paragens

O MST não é um projeto recente. A obra arrancou efetivamente em 2002 e, a 30 de abril de 2007, assistimos à inauguração do primeiro troço entre Corroios e Cova da Piedade. Ainda nesse ano, a rede chegou à Universidade, e em novembro de 2008 completou-se a ligação a Cacilhas.

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Mas 2008 foi também o ano em que, na prática, o projeto parou. As segundas e terceiras fases, que previam o alargamento ao Seixal, Barreiro e Moita, ficaram suspensas e assim permanecem. Uma rede prometida como estruturante ficou a meio caminho, congelada por razões que nunca foram verdadeiramente explicadas aos utentes.

Em 2019 a introdução do passe Navegante provocou um salto abrupto no número de passageiros. Uma procura acrescida que expôs as fragilidades de anos de estagnação: uma rede que não cresceu adequadamente e não acompanha a procura.

 

Os problemas com que os utentes e as populações vivem diariamente

Os problemas com que os utentes se deparam são reais, estão documentados e persiste m apesar de serem conhecidos pela entidade concessionária, a Metro Transportes do Sul (MTS).

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O ruído e a vibração são talvez as queixas mais antigas. Não afetam apenas quem viaja, quem vive junto à linha sabe bem o que é ter o sono perturbado por composições que circulam entre as 05h30 e as 02h. A MTS realizou alguns trabalhos de esmerilagem de carris, o que foi positivo, mas insuficiente.

Também a sobrelotação sistemática impacta severamente nas deslocações diárias dos utentes. As composições chegam e partem cada vez mais cheias, facto agravado pela baixa frequência de circulação, sendo o principal motivo de reclamação dos utentes. É um dado que contrasta com os planos de expansão de que se fala para os próximos anos. Que, se não for acompanhada pelo aumento da frequência dos horários, irá agravar esta situação até um ponto de potencial rutura.

Os recentes atropelamentos, incluindo fatalidades, voltaram a colocar na ordem do dia a urgência de reforçar a sinalização e as medidas de segurança nas zonas de travessia. Estes incidentes são recorrentes, e apontamos como positiva a campanha de sensibilização lançada agora pela MTS, alertando quanto à segurança dos atravessamentos de via pelos pedestres, fruto da justa pressão dos utentes e com as ações, intervenções e interpelações feitas pela CUTMS.

 

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Acessibilidade: um direito que continua a ser um privilégio

Passeios frequentemente degradados, com largura insuficiente e cheios de obstáculos, que tornam a circulação em cadeira de rodas ou com carrinho de bebé numa verdadeira corrida de obstáculos. As passadeiras com semáforos, raramente têm sinalização sonora adequada para utentes com deficiência visual. Os desníveis entre a plataforma e a composição continuam a ser um entrave para quem usa cadeira de rodas, e o espaço para manobrar rampas de acesso é frequentemente insuficiente.

Quanto às máquinas de venda de bilhetes, a situação é difícil de justificar em 2026: muitas não são acessíveis a utentes em cadeira de rodas devido à altura dos comandos e ecrãs, e a esmagadora maioria não tem instruções em braille nem sistemas sonoros de apoio. Uma parte significativa destas máquinas encontra-se em estado funcional deficiente, e várias estão limitadas ao pagamento por cartão bancário.

Já no interior das composições, avisos sonoros de próxima paragem frequentemente desligados ou com volume desajustado. No exterior, a identificação sonora do destino está ausente, dificultando a autonomia de quem tem deficiência visual; os botões no interior das carruagens não têm indicações em braille. Nos últimos tempos, os pontos de validação de títulos de transporte, dentro do metro, estão muitas vezes inoperantes, o que é indicador de problemas de manutenção dos equipamentos.

 

A expansão à Costa da Caparica e à Trafaria

Em fevereiro de 2025, foi apresentado o projeto de expansão da Linha 3 até à Trafaria, passando pela Costa da Caparica, com conclusão prevista para 2029. A Margem Sul precisa de mais transportes públicos, com qualidade e fiabilidade, e uma ligação à Costa da Caparica e à Trafaria faz sentido do ponto de vista da mobilidade. Porém, não se pode expandir uma rede que hoje funciona no limite, com composições sobrelotadas e frequências insuficientes, sem garantir que os problemas atuais são resolvidos.

 

A CUTMS, a voz que não pode ser ignorada

A CUTMS tem tido, e continuará a ter, um papel fundamental nesta discussão e na procura de melhorias. Além dos problemas mencionados, é importante frisar que a expansão não pode ser vista de forma isolada, mas sim integrada com outros meios, com reforços no transporte fluvial e ferroviário e melhor articulação entre os horários. É fundamental que as novas carruagens, a adquirir para a nova linha, sejam em número suficiente para resolver a sobrelotação existente.

 

O que é preciso mudar já

É urgente e possível fazer melhor. Expandir a rede sem resolver os atuais problemas é construir sobre areia. É imperativo que o Governo e a MTS invistam já em material circulante em número suficiente para aliviar a sobrelotação, que se aumente a frequência nas horas de ponta, e implementar, de forma sistemática e com prazos claros, as melhorias de acessibilidade que estão diagnosticadas e documentadas há anos. A sinalética inclusiva; os botões em braille; os avisos sonoros funcionais; os passeios acessíveis; as máquinas de bilhetes adaptadas: não são extras, são obrigações de um serviço público de todos e para todos.

A expansão à Costa da Caparica e Trafaria pode ser uma oportunidade histórica para a Margem Sul. Mas só o será se for feita com transparência, com uma efetiva participação pública e alargada, com respostas concretas às preocupações dos moradores, e com um plano integrado que garanta que o sistema responda às reais necessidades das pessoas.

O metro é uma promessa de mobilidade que falta concretizar no seu todo. Os utentes exigem respeito. Pelo seu tempo, pela sua segurança, pela sua voz e pelo seu direito à mobilidade.

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