“É urgente reforçar a oferta de transportes públicos”

Marco Sargento, membro da Comissão de Utentes de Transportes da Margem Sul                                                                                                                                   

Em termos de crescimento de oferta e de aquisição de meios de transporte, os últimos sete anos não se distinguiram do período da troika.

                                           

Em fevereiro de 2020 não podíamos adivinhar o que aí viria. Nenhum de nós. Mas em fevereiro de 2014, de 2015… 2020 e de 2021 sabíamos que era essencial a aquisição de mais barcos, autocarros e comboios para melhorar oferta de transportes públicos e dar resposta às necessidades das populações.

Em termos de crescimento de oferta e de aquisição de meios de transporte, os últimos sete anos não se distinguiram do período da troika.

2019 foi um ano de esperança para o setor dos transportes públicos, com a criação do passe intermodal para toda a Área Metropolitana. Acreditámos que o setor ia finalmente ter a atenção que merece. As Comissões de Utentes saudaram a criação de uma medida pela qual tanto lutaram, mas não pararam de alertar que, como vínhamos a defender, era (e continua a ser) urgente reforçar a oferta de transportes públicos. Como era óbvio, a redução do preço do título de transporte mensal iria fazer a procura aumentar exponencialmente.

Os governos vão e vêm, muitos anúncios são publicados, é divulgada muita preocupação com a descarbonização da sociedade, são estabelecidas muitas metas pela Comissão Europeia… mas os barcos da Transtejo acumulam mais de três décadas de serviço, a capacidade instalada da Fertagus é a mesma há vinte anos e a rede do MST tem as mesmas estações que em 2008.

2020 e, infelizmente, 2021 são marcados pela pandemia. Mas em 2018 ou 2019 não havia pandemia e nunca se concretizaram os anúncios de reforço de oferta. Cabe-nos perguntar: o que foi feito nestes últimos anos?

Já não é necessário recordar as enchentes nos comboios de 2019, basta tentarmos circular hoje em dia nos horários de maior afluência e a oferta de transportes continua a mostrar-se insuficiente. Do que é que os decisores políticos estão à espera para efetivamente melhorarem a oferta de transportes públicos? Do desconfinamento total? Dos noticiários a abrirem com imagens dos transportes nas horas de ponta ou dos utentes a terem que esperar pela composição seguinte para poderem embarcar?

Há responsáveis por esta falta de medidas, o governo, em funções desde 2015, a Área Metropolitana (AML), com a nova gestão que decorreu das eleições autárquicas de 2017, e as autarquias das duas margens. Sem querer ser injustos, os quatro contratos celebrados, entre a AML e os operadores de transporte rodoviário (em Almada, entre a AML e a TST), podem vir a constituir-se como um momento de mudança de paradigma, basta cumprirem os prometidos 40% de acréscimo de oferta, cá estaremos para avaliar, mas e quanto ao transporte fluvial? E ao transporte ferroviário? E o crescimento da rede do Metro Sul do Tejo e o reforço da ligação por transporte público à Costa da Caparica? E a extensão dos horários para lá das 20 horas e aos fins-de-semana?

Estes têm sido anos perdidos, o país não é só pandemia e a pandemia não pode ser desculpa para tudo. Mesmo a «bazuca» europeia que chegará sempre tarde e após os impactos do Covid-19 na economia nacional, não é resposta para as necessidades imediatas dos utentes. O próprio Plano de Recuperação e Resiliência, para o qual os utentes contribuíram com propostas de alteração, está repleto de boas intenções sobre a transição climática, mas traz consigo a má memória da fraca execução (concretização) destes planos e dos ténues resultados práticos dos seus antecessores.

É neste quadro que a Comissão de Utentes de Transportes da Margem Sul vai continuar a acompanhar a evolução do sistema de transportes, como faz desde 1999, e cá estará para fazer a avaliação das medidas tomadas, pelas entidades públicas e pelos operadores privados. Alertando que é urgente reforçar a oferta de transportes públicos!

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