Almada é uma cidade para os seus jovens ou um museu para o capital?

Gonçalo Mesquita Lopes, Politólogo

Eu não quero uma Almada que seja apenas um museu à beira-rio para turistas contemplarem. Quero uma Almada onde o mérito do meu trabalho me permita pagar uma casa na cidade que escolhi para viver.

Viver em Almada enquanto jovem é, hoje, um ato de resistência ou uma sentença de partida. Para quem, como eu, olha para a política não através de lentes assistencialistas, mas sim através da liberdade de escolha e do mérito, o cenário atual do nosso concelho é desolador.

Sob a gestão socialista de Inês de Medeiros, Almada transformou-se num laboratório de promessas de “requalificação” que, na prática, se traduzem num processo de expulsão silenciosa da classe média e, muito especificamente, da nova geração de almadenses.

A crise da habitação em Almada não é um fenómeno meteorológico, inevitável e sem culpados. É o resultado direto de décadas de políticas públicas que, à esquerda e à direita do espetro socialista que tem dominado a nossa autarquia, falharam em compreender o básico: o mercado de habitação precisa de oferta, de desburocratização e de uma visão estratégica que não se limite a “vender” a cidade ao melhor licitante internacional enquanto ignora quem cá nasceu.

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Como jovem politólogo, recuso-me a aceitar a narrativa de que a solução passa por mais habitação pública estatal, lenta e ineficiente. A solução passa por libertar Almada do garrote administrativo. No entanto, o que vemos na gestão de Medeiros é uma política de “fogo de artifício”. Inauguram-se requalificações estéticas, fala-se da “Almada South Bay” com o entusiasmo de quem está a vender um produto de luxo num catálogo do Dubai, mas esquece-se que uma cidade sem jovens é uma cidade sem futuro.

A pergunta que deixo à Presidente é simples: onde é que os jovens qualificados que Almada forma devem morar? A resposta, atualmente, parece ser: no Seixal, no Barreiro ou no Montijo. Estamos a exportar o nosso capital humano e a nossa vitalidade geracional porque a nossa autarquia prefere ser um “broker” imobiliário do que um facilitador de vida local.

A gentrificação a que assistimos em zonas como a Charneca, Cacilhas ou o Centro Sul não é o problema em si, o investimento é sempre bem-vindo. O problema é a total ausência de uma política de solos que permita a construção de habitação acessível para a classe média jovem. Inês de Medeiros governa para o postal, para o turista e para o investidor de visto gold, deixando para trás o jovem que quer sair de casa dos pais, mas que se recusa a entregar 80% do seu salário líquido a um senhorio num prédio sem elevador na Cova da Piedade.

Mais do que isso, a atual gestão municipal parece sofrer de uma cegueira ideológica que impede a descida de impostos municipais e a facilitação de licenciamentos. Enquanto o executivo se perde em retórica sobre a “sustentabilidade” e o “progresso”, o mercado imobiliário em Almada tornou-se um jogo de cartas marcadas onde o jovem almadense nem sequer consegue sentar-se à mesa. A transformação da cidade está a ser feita “de cima para baixo”, sem que o tecido social jovem tenha sido chamado a construir esta visão.

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O impacto político desta deriva é claro: estamos a moldar uma Almada de duas velocidades. De um lado, os novos condomínios de luxo e as zonas turísticas requalificadas; do outro, uma geração que se sente estrangeira na sua própria terra. Politicamente, isto é uma falência moral. Uma gestão que se diz progressista, mas que na prática cria barreiras de entrada financeiras intransponíveis, é uma gestão que falhou ao seu povo.

Almada merece mais do que a gestão de cosmética deste executivo. Merece uma política que entenda que a habitação se resolve com dinâmica de mercado, com incentivos fiscais para arrendamento jovem que sejam reais e não apenas migalhas burocráticas, e com um planeamento urbano que não veja o betão apenas como receita de IMI, mas como o teto onde se constroem famílias e projetos de vida.

Se o objetivo da atual gerência municipal era transformar Almada num dormitório de luxo para quem trabalha em Lisboa ou para quem nos visita por uma semana, parabéns: estão no bom caminho. Mas se o objetivo era criar uma cidade vibrante, onde a inovação e a juventude tivessem espaço para crescer, então estamos perante um dos maiores fracassos políticos da história recente do concelho.

Eu não quero uma Almada que seja apenas um museu à beira-rio para turistas contemplarem. Quero uma Almada onde o mérito do meu trabalho me permita pagar uma casa na cidade que escolhi para viver. E, enquanto a atual gestão preferir o brilho das maquetes ao conforto real dos seus munícipes mais jovens, a minha voz, e a de muitos outros que se recusam a ser expulsos, continuará a ser o espinho na garganta deste socialismo de fachada.

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1 Comentário

  1. Não percebi minimamente a alternativa proposta, não há uma única ideia concreta que seja apresentada, são só chavões e contradições. É dito que as rendas são caras mas alternativa é financiar essas rendas aos jovens, o que fará as rendas subirem ainda mais e no fim prejudicar todos os outros habitantes?
    E facilitar o licenciamento vai resultar exactamente no quê? Os preços vão descer ou será que apenas vai acelerar a construção de condomínios de luxo? Tudo o que é construção privada aos dias de hoje mas grandes cidades é a preços de luxo e não é propriamente facilitar os licenciamentos que vai contrariar a tendência.

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