Almada e o 25 de Abril: de território carente a cidade com futuro

António Matos, vereador na Câmara Municipal de Almada pela CDU com o pelouro da Intervenção Social

Com o 25 de Abril, não chegou apenas a liberdade. Chegou a possibilidade de construir cidade, de fazer um concelho que pudesse responder às necessidades das populações que o demandavam. E em Almada, esse concelho foi construído.

Em 1974, o concelho de Almada era um território de esperança, mas também de carência. Crescia rapidamente, alimentado por quem aqui chegava à procura de uma vida melhor. Mas faltava quase tudo.

Faltavam escolas para as crianças. Faltavam equipamentos culturais. Faltavam espaços desportivos. O concelho dispunha apenas de um equipamento cultural, o Convento dos Capuchos, adquirido pelo Município em 1952, de um único pavilhão desportivo, o da Escola Preparatória António da Costa, de alguns campos de futebol pelados e de espaços dispersos de cultura e desporto nas coletividades.

Almada era, então, um território vivo, solidário, combativo — mas profundamente subequipado. E foi essa realidade que o povo não podia aceitar como destino.

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O movimento associativo: cultura em condições difíceis, democracia em construção

A suprir carências públicas, as coletividades de cultura, recreio e desporto desempenharam um papel decisivo na vida do concelho.

Nelas nasceram cineclubes, grupos de teatro amador, coros e grupos corais, realizaram-se exposições e iniciativas culturais de grande vitalidade. Mais do que isso, estas coletividades constituíram verdadeiros espaços de aprendizagem democrática: apesar das restrições do regime, aí elegiam-se dirigentes, discutiam-se opções coletivas e exercia-se uma vida associativa intensa.

 

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Abril abriu caminho e em Almada fez-se obra

Com o 25 de Abril, não chegou apenas a liberdade. Chegou a possibilidade de construir cidade, de fazer um concelho que pudesse responder às necessidades das populações que o demandavam. E em Almada, esse concelho foi construído.

O poder local democrático soube ouvir, mobilizar e agir. Começou pelo essencial: água nas torneiras, saneamento, ruas, alguns jardins. Mas rapidamente foi mais longe.

No ensino, construíram-se novas escolas, democratizou-se o acesso à escola. Na cultura, ergueram-se novos equipamentos, ampliou-se a fruição cultural. No desporto, erigiram-se novos equipamentos, aumentou-se a taxa de participação desportiva, veio o desporto para todos. E tudo isto foi feito com as pessoas e pelas pessoas, com o movimento associativo, com uma rara energia coletiva.

 

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De um palco vazio a uma cidade com voz

Onde antes havia silêncio cultural, há hoje uma rede viva e reconhecida. As redes municipais de museus, de bibliotecas e de centros culturais são hoje mais do que isso: são lugares de encontro, criação e identidade.

Almada deixou de ser periferia cultural para se afirmar como centro de produção e fruição artística. O concelho ganhou centralidade no plano nacional e internacional. E isso não aconteceu por acaso — foi uma escolha política.

 

Do único pavilhão a uma rede para todos

No desporto, o contraste é absoluto. De um único pavilhão antes do 25 de Abril, Almada passou a dispor de cerca de 14 pavilhões desportivos. De uma piscina associativa, a da SFUAP, passou a ter mais quatro complexos de piscinas municipais, foi construída uma pista municipal de atletismo, um estádio, campos relvados e múltiplos espaços de prática.

Mais do que números, isto representa acesso. Representa juventude com oportunidades. Representa saúde, inclusão e comunidade.

 

Uma cidade que também se fez universidade

Antes de Abril, Almada não tinha ensino superior. A abertura dos primeiros edifícios da Faculdade de Ciências e Tecnologia, em 1980, foi o primeiro passo da criação daquele que é hoje o segundo maior polo universitário da Área Metropolitana de Lisboa, com milhares de estudantes que trazem vida, conhecimento e futuro ao concelho.

Esta transformação não é apenas física: é social, cultural e económica.

 

O passado que inspira o futuro

Hoje, é um concelho reconhecido, dinâmico, participado. Mas importa não esquecer de onde veio.

Este percurso não foi inevitável. Foi construído. Com luta, com participação, com visão. Foi construído por quem acreditou que era possível fazer mais pelos almadenses e com os almadenses.

E é essa memória que importa preservar.

Num tempo de novos desafios — mobilidade, sustentabilidade, inclusão, digital — Almada precisa da mesma ambição que a transformou. Precisa da mesma capacidade de mobilização. Precisa, sobretudo, de continuar a apostar no seu potencial humano, de continuar a dar asas aos sonhos e ambições das suas comunidades locais.

Porque se há lição que este caminho nos deixa, ela é simples e inspiradora: quando um povo participa, quando o poder local responde e quando há visão, é possível transformar a realidade, aproximando-a das suas necessidades.

Almada provou-o. E essa é, talvez, a sua maior conquista.

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