Rendas da habitação em máximos afastam jovens de Almada

Os sucessivos máximos nos valores das rendas alcançados nos últimos anos em Almada estão a impedir muitos jovens de se fixarem na cidade. 

 

Fábio Traquinas, 26 anos, trabalha como bartender no Intendente, em Lisboa, e procura casa em Almada desde novembro de 2021. De momento, vive com um casal amigo no Fogueteiro e continua em busca de um T2 para partilhar em Almada.

“Durante algum tempo acho que vai ser essa a solução. Não há maneira. Os T2 em Almada só se encontram a 700 euros. Como é que recebendo o salário mínimo, que são 705 euros, consigo alugar um T2 sozinho? Sobram-me 5 euros”, ri-se.

Fábio é um dos muitos jovens a quem os elevados valores das rendas praticadas afastam de Almada. No último semestre do ano passado, o preço médio de arrendamento no município de Almada atingiu um novo máximo, ultrapassando pela primeira vez os nove euros por metro quadrado. Neste momento, Almada é o quinto município com os valores de arrendamento mais elevados do país, acima de Odivelas, Loures ou mesmo Amadora. Por isso, os jovens que procuram habitação na cidade vêm-se, muitas das vezes, obrigados a optar pelas franjas do concelho ou por partilhar habitação.

A proximidade a Lisboa e a falta de oferta em Almada são das principais causas apontadas por Margarida Guerreiro, 51 anos, consultora imobiliária da REMAX Solução, para o aumento do preço da habitação no concelho. “Em Almada, arrendar um T1 pode custar entre 550 e 650 euros. Um T2 o normal são 700. É muito raro existirem T0. Nos sete anos em que trabalho na área, nunca trabalhei com nenhum T0”, adianta a consultora.

 

“Bolha especulativa” a crescer em Almada

As dificuldades enfrentadas pelos mais jovens no acesso à habitação estiveram na base da recente aprovação na Câmara Municipal de Almada de uma proposta apresentada pelo Bloco de Esquerda (BE) com vista à criação de um programa municipal de apoio ao Arrendamento Jovem.

Numa resposta enviada por escrito ao ALMADENSE, a vereadora Joana Mortágua aponta “a transferência desregulada de habitações do mercado de arrendamento para o turismo”, e a “insuficiência do parque habitacional municipal” como alguns dos motivos na base da situação de carência. Para a autarca, “os programas municipais de atribuição de fogos com rendas acessíveis não têm casas disponíveis e a autarquia não tem peso para regular nem nunca tentou interferir nos valores das rendas”. Ao mesmo tempo, “a pressão adicional da população de Lisboa, que foge dos preços ainda mais impossíveis da capital e que procura habitação nos concelhos periféricos” fomentam o crescimento da “bolha especulativa em Almada, com rendas e preços de casas absurdos, até mesmo em habitações degradadas”, frisa a vereadora.

A proposta de programa municipal de apoio ao Arrendamento Jovem não fecha nenhum modelo prévio de regulamento. No entanto, o partido indica por onde entende que é necessário atuar. Constatando quenão há habitação municipal disponível para criar um programa que atribua casas com rendas acessíveis”, o Bloco defende “um modelo de apoio financeiro indexado aos rendimentos dos jovens que se candidatam”. O apoio concedido seria calculado através da média entre os rendimentos do candidato —que tanto poderia ser um jovem a título individual ou um agregado, entre os 18 e 35 anos— e a renda da habitação pretendida.

Posteriormente, a avaliação da candidatura deveria “ter em conta a proporcionalidade da taxa de esforço, o rendimento mensal, a situação financeira familiar, a situação de habitabilidade no imediato, assim como dimensão e composição do agregado”, adianta ainda a vereadora bloquista. 

Para Joana Mortágua, “fixar a população jovem em Almada tem de ser um objetivo central do município. Caso contrário arriscamo-nos a uma quebra geracional —tal como os jovens já são a maioria dos desempregados, dos precários— à gentrificação e migração desta camada promissora da população, enquanto os nossos centros urbanos desertificam-se. Programas deste tipo são urgentes para a garantir o direito à independência e para auxiliar os jovens no seu processo de mobilidade social e pessoal”, conclui.

 

Autarquia quer alterar regulamento municipal de habitação

Por sua vez, a Câmara Municipal de Almada mostra-se “naturalmente, preocupada com a dificuldade crescente dos jovens em encontrarem habitação e se conseguirem emancipar”, indicou fonte da autarquia num comentário remetido por escrito ao ALMADENSE.

Sem avançar medidas concretas, a Câmara adiante que pretende “englobar a criação de condições para acesso à habitação por parte dos mais jovens na resposta global do município às carências habitacionais existentes”. Com esse objetivo, o executivo camarário prevê “proceder a alterações ao regulamento municipal de habitação, que permitam englobar a resposta às necessidades de habitação por parte dos mais jovens no mesmo normativo que assegura a resposta às necessidades de arrendamento apoiado”.

A autarquia relembra, contudo, que a dificuldade de acesso à habitação no concelho não é exclusivo dos mais novos. “Almada é dos concelhos do país com maior carência habitacional ao nível de todas as faixas etárias”, indicou a mesma fonte.

 

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