Além dos espetáculos, o festival volta a apostar numa programação paralela que inclui concertos de entrada livre na esplanada da Escola D. António da Costa, exposições, encontros com artistas e iniciativas de formação teatral.
A edição deste ano presta homenagem ao ator e encenador Fernando Gomes, enquanto Miguel Seabra assume a direção do programa “O Sentido dos Mestres”.
A abertura acontece a 4 de julho com “Danse Macabre”, de Martin Zimmermann, espetáculo que será transmitido em direto pela RTP2. Situada entre o teatro, a dança e o novo circo, a criação transporta o público para uma lixeira transformada em cenário, onde três figuras marginalizadas procuram sobreviver e criar ligações humanas. A obra substitui “Louise”, inicialmente prevista para a programação.
Outro dos momentos mais aguardados é o regresso de Peter Stein. Aos 88 anos, o encenador alemão apresenta “Platónov”, primeira peça de Anton Tchekhov, centrada na figura de um homem talentoso incapaz de encontrar o seu lugar no mundo. O espetáculo sobe ao palco do Teatro Municipal Joaquim Benite nos dias 5 e 6 de julho e poderá marcar a despedida de Stein dos palcos.
Nos dias 17 e 18, o mesmo espaço recebe “Le Sommet”, criação do suíço Christoph Marthaler, coproduzida pelo Piccolo Teatro di Milano. A peça apresenta uma reflexão sobre a Europa contemporânea através de uma metáfora marcada por desencontros linguísticos, culturais e políticos.
Anne Teresa De Keersmaeker estreia-se no Festival de Almada com “BREL”, espetáculo inspirado na obra de Jacques Brel e construído em colaboração com o bailarino Solal Mariotte. A criação cruza dança contemporânea e canção popular num diálogo entre diferentes gerações. Será apresentada nos dias 11 e 12 de julho, no Centro Cultural de Belém.
Já Josef Nadj regressa ao festival acompanhado pelo bailarino Ivan Fatjo para apresentar “Dialogues dans le rêve”, uma obra inspirada na poesia de Dezso Tandori que explora as fronteiras entre o corpo orgânico e o artificial. O espetáculo decorre a 8 de julho, no palco grande da Escola D. António da Costa, combinando “filosofia da dança e do movimento”, sublinhou Rodrigo Francisco durante a apresentação da programação à imprensa.
Também em destaque está “Israel & Mohamed”, criação do bailarino espanhol Israel Galván e do encenador francês Mohamed El Khatib. A partir das suas histórias pessoais e familiares, os dois artistas constroem um espetáculo que une flamenco e teatro documental e que estará em cena no dia 14. Trata-se de uma proposta que “reinventa os formatos tradicionais do flamenco”, destacou o diretor artístico.
No panorama da criação portuguesa, a Companhia de Teatro de Almada apresenta a estreia de “Saudações”, baseada em três peças curtas de Eugène Ionesco. A produção reflete sobre as falhas da comunicação humana através do absurdo e poderá ser vista no Teatro Municipal Joaquim Benite entre os dias 5 e 17 de julho.
Já o Teatro Meridional, apresenta nos dias 7, 9 e 11 de julho, no Fórum Municipal Romeu Correia, “Happy Days”, de Samuel Beckett, a mais recente criação encenada por Miguel Seabra. Centrada na personagem Winnie, presa num quotidiano marcado pela imobilidade e pela repetição, a peça demonstra a intemporalidade da obra do dramaturgo irlandês. Durante a apresentação da programação, Miguel Seabra destacou Beckett como um “autor mestre da lucidez, mergulha no osso da essência da humanidade, autor luminoso, que acaba por nos libertar”.
Nos dias 13 e 14, o Teatro Nacional São João leva a cena “O Beijo no Asfalto”, de Nelson Rodrigues. Segundo a produção, trata-se de “uma imersão do Teatro Nacional São João num dos ‘clássicos contemporâneos’ da dramaturgia brasileira, com intérpretes brasileiros residentes em Portugal e direção de Tónan Quito”.
A programação integra ainda “Variedades”, espetáculo que assinala o centenário do Teatro Variedades através de uma narrativa coletiva sobre o Parque Mayer, bem como “Burn Burn Burn”, da companhia Os Possessos, apresentado a 10 de julho e inspirado em “Fahrenheit 451”, retratando uma sociedade onde os livros são proibidos e a leitura se transforma num gesto de resistência.
Entre as restantes propostas figuram “Fratto X”, de Antonio Rezza e Flavia Mastrella, e “Mussolini”, de Tom Corradini, ambos centrados numa reflexão crítica sobre o poder, a linguagem e os mecanismos de controlo político.
O programa inclui ainda várias abordagens ao texto “A Gaivota”, de António Tchechov, que “revelam a influência que a peça ainda exercer nos criadores”, com espetáculos como “La Lettre”, de Milo Rau, “Só mais uma gaivota”, de Inês Barahona e Miguel Fragata, e “Ansiolíticamente falando”, de Raquel Castro, apresentados nos dias 5, 7, 8 e 12 de julho.
O encerramento do festival está marcado para 18 de julho com “A Gaivota”, de Tchekhov, encenada por Christian Benedetti. Nessa noite será também anunciado o espetáculo vencedor da edição.
No dia 9 de julho regressa ao Teatro Municipal Joaquim Benite a companhia alemã Familie Flöz com “Teatro Delusio”, distinguido pelo público na edição anterior como “espetáculo de honra”.
Financiamento preocupa organização
O Festival de Almada dispõe este ano de um orçamento de 631 mil euros, assegurado através de receitas próprias da Companhia de Teatro de Almada e dos apoios atribuídos pela Câmara Municipal de Almada e pelo Ministério da Cultura.
Apesar da estabilidade registada nos últimos anos, Rodrigo Francisco alertou para o aumento significativo dos custos de produção, considerando que o atual financiamento começa a revelar-se insuficiente para manter o festival nos moldes habituais.
“Desde a pandemia para cá, triplicaram os custos de produção do festival”, afirmou o diretor artístico do evento durante a conferência de imprensa.
Ao ALMADENSE, Rodrigo Francisco recordou ainda que a “subvenção camarária é a mesma desde 2015”, admitindo que “foi difícil manter o palco ao ar livre” nesta edição e acrescentando que algumas cenografias mais complexas deixaram de poder ser transportadas para Portugal devido aos custos elevados.
Questionada pelo ALMADENSE sobre a situação, a presidente da Câmara Municipal de Almada, Inês de Medeiros, garantiu existir “total abertura” para rever os valores atribuídos ao festival, salientando a “importância” do evento para o concelho e reafirmando o compromisso da autarquia com a sua continuidade.
Fernando Gomes distinguido na edição de 2025
Este ano a personalidade homenageada no festival é o ator e encenador Fernando Gomes. A distinção será marcada pela inauguração, logo a 4 de julho, da instalação “A parodia de um rei sem palácio”, concebida por José Manuel Castanheira.
Em declarações ao ALMADENSE, o ator confessou ter ficado “surpreendido” com a homenagem, assumindo-se igualmente muito “sensibilizado” pelo reconhecimento num dos festivais “mais importantes” do país, sublinhou.
Formado no Teatro Experimental de Cascais, Fernando Gomes colaborou ao longo da carreira com estruturas como o Teatro Aberto, Teatro da Trindade, Maria Matos e Teatro Nacional D. Maria II. Habitual frequentador do Festival de Almada enquanto espectador, participou pela primeira vez na programação em 2022, como ator.




