Bruno Duarte: “O público de Almada adere muito à cultura e gosta de ser desafiado”

A 28ª Quinzena da Dança de Almada abre no dia 18 de Setembro com o espetáculo “A Quiet Moment”, uma criação de Bruno Duarte que cruza a narrativa do icónico filme “Psycho” e a técnica da dança contemporânea. Em entrevista ao ALMADENSE, o coreógrafo fala sobre o processo criativo na concepção do novo espetáculo, desenvolvido em plena pandemia.

 

Este ano a 28ª edição da Quinzena de Dança em Almada abre com o espetáculo “A Quiet Moment”, que assinala os 30 anos da Companhia de Dança, os 60 anos desde a criação de “Psycho” (1960) e os 40 anos desde a morte do realizador Alfred Hitchcock. Porquê cruzar estes aniversários e este filme em específico?

Quando me foi feita a proposta para fazer esta peça, a ideia foi sempre uma celebração de um aniversário -os 30 anos da companhia. Pesquisei muito sobre o conceito de celebração, mas não encontrei nada que chamasse por mim. Então comecei a ver outros momentos do mesmo ano, que fosse realmente importante e tivesse um impacto em mim. Aí descobri que era também o aniversário do “Psycho” e do realizador. Sempre gostei muito de cinema, então foi algo que me chamou à atenção. Revi o filme, com outros olhos, e perguntei-me: será que consigo pegar nisto? E foi um pouco por aí. Sempre tive curiosidade em trabalhar texto, porque normalmente trabalho sempre a partir de um movimento ou uma música.

Que traços emblemáticos da narrativa de “Psycho” traz na performance que se apresenta nos dias 18 e 19?

Quando se fala em “Psycho”, a primeira coisa em que se pensa é a cena do chuveiro —que iremos retratar—, mas não exatamente como no filme. Tudo o que é explícito no filme. Eu tentei fazê-lo de forma mais subtil. Outros apontamentos que são subtis no filme são acentuados na performance. Queria fazer essa distinção e contraste.

De que modo a pandemia Covid-19 se impôs perante o processo criativo?

No início do processo foi muito complicado. Estávamos assustados e inclusive alguns de nós tinham viajado para o estrangeiro. Havia essa questão da viagem, do teste, que tornou complicado trabalhar em grupo e em contacto. Portanto, começámos a criar separados, que nunca é a mesma coisa que trabalhar juntos. Depois começámos a juntar-nos aos poucos, sempre a usar a máscara e a desinfetar as mãos. Este espetáculo também é um pouco diferente de todos os outros que já fiz, neste há muito dueto e solo – não há grupos. O que é bom porque não tive necessidade de gerir a dinâmica do grupo neste contexto.

Essa estrutura duo e solo foi previamente planeada e programada ou motivada pelo contexto de pandemia?

O filme tem muito poucas personagens, é um filme íntimo e fechado, e foi isso que me transmitiu para o espetáculo. Até a própria cenografia é bastante fechada: um pormenor num palco enorme.

A noção de suspense é um dos principais conceitos explorados, mas também a ironia e o meta-drama. Encontra algum destes conceitos na vida de um almadense?

Uma boa pergunta. Eu gosto muito de observar as outras pessoas, inclusive tenho um cão que passeio muito e gosto de observar os comportamentos, as incongruências. Não sei. Às vezes olho e ouço uma pessoa dizer algo e o comportamento dizia-me o contrário. Embora não saiba se o público vai perceber isso, gosto de o fazer e depois trazer esses contrastes para o palco. É uma situação quase irónica de “que falo isto, mas o meu corpo diz algo completamente diferente”.

Referiu que a forma como o público irá interpretar a performance é uma incógnita. Vivendo em Almada há quatro anos, o tem aprendido sobre o público de Almada?

O público de Almada adere muito à cultura e gosta de ser desafiado. Não quer espetáculos fáceis que acontecem apenas pela beleza. Parece-me que há sempre uma busca de mais, precisa de um conceito, de ser desafiado a ver para além do óbvio e nu que vê. Este espetáculo é um pouco assim também, não há dança por dança —tudo tem uma intenção, um texto, um “eu estou a fazer isto e a tentar dizer isto” também para dar camadas de significado e algum trabalho ao público… (risos)

Gostaria de deixar alguma mensagem sobre “A Quiet Moment” e sobre a Quinzena de Dança?

Acho que continuamos todos muito assustados com a pandemia, mas também acho que não podemos deixar de viver a nossa vida. Não estou a dizer para correrem riscos, mas acho que a cultura é tão importante na vida de toda a gente que não podemos deixar de visitar museus, exposições e espetáculos pelo medo. Acho que devemos ter medo o suficiente para estar protegidos, mas não devemos ter medo de sair de casa por ir aproveitar algo que nos faz bem e é importante para a nossa saúde. Não haverá razão para ter medo, pois tomámos todas as providências de higiene estipuladas pela DGS.

 

Foto: Joana Casado

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *