Virgílio Machado: “O Innovation District vai criar uma nova centralidade entre Almada e a Costa da Caparica”

Quebrar a barreira dos muros que hoje envolvem a universidade e abri-la à comunidade envolvente. É este o conceito na base da criação do projeto Innovation District, que pretende atrair para a zona do Monte de Caparica cerca de 20 mil novos moradores. Ao estar ancorada na Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCT) da Universidade Nova de Lisboa, esta “nova cidade” vai basear-se no conhecimento, na inovação e na sustentabilidade. Em entrevista ao ALMADENSE, o diretor da instituição, Virgílio Machado, explica os objetivos do projeto, cujo investimento supera já os mil milhões de euros.

 

Uma das ideias centrais em torno do Innovation District tem a ver com a abertura do “campus” universitário à cidade e à comunidade que o rodeia. É uma componente fundamental do projeto?

Essa é uma das ideias que motiva este conceito. A FCT situa-se no meio do concelho, entre Almada e a Costa da Caparica, que é onde se concentra a população e onde as coisas acontecem. No meio existe esta região, que foi sempre um pouco desprotegida e com pouca expressão em termos de densidade populacional. Como tal, quando a faculdade foi construída, há 44 anos, estávamos no meio do campo e a melhor maneira de proteger o “campus” foi colocar cercas à volta. Nessa altura, a universidade tinha a intenção de concentrar aqui as suas nove unidades orgânicas, mas o facto é que só veio uma delas: a FCT. As outros não acompanharam este processo, de maneira que o resto do terreno ficou disponível. A faculdade acabou por ter o seu crescimento, mas nunca ocupou os terrenos todos que aqui havia.

 

 

A universidade é proprietária de uma grande extensão de terrenos.

A universidade é proprietária de 65, 70 hectares de terreno. À escala do concelho, é uma grande superfície e a faculdade está longe de ocupar esses terrenos. Como não havia colinas à volta, optou-se por fazer muros à volta da escola. Quando assumi a direção, há pouco mais de três anos, a minha intenção foi desenvolver o parque edificado, que estava muito antiquado, mas também adequar a faculdade à nova realidade. Porque nos últimos 20 anos tivemos um crescimento exponencial em termos de número de estudantes, de professores, de investigadores e de pessoas a fazer doutoramento. As necessidades da escola aumentaram substancialmente e não tínhamos condições para albergar tantas pessoas, sobretudo devido ao sucesso que a escola tem tido a nível internacional, quer na captação de estudantes, quer na captação de investigadores e de docentes. Era preciso criar condições de crescimento.

 

Foi aí que surgiu a ideia de criar um pólo de inovação associado à faculdade?

O projeto consiste exatamente nessas duas componentes: por um lado, reabilitar os edifícios existentes e, por outro lado, criar condições para trazer para o “campus” da faculdade o conceito de “hub de inovação”. Hub enquanto concentração de atividades de investigação dirigidas para a comunidade, para o mundo real, fora da faculdade. Essa intenção deu origem à construção de um replaneamento urbanístico do “campus”, que prevê a criação de 30 novos edifícios, que possam albergar entidades públicas ou privadas que, juntamente com a universidade, queiram montar os seus laboratórios de investigação, de desenvolvimento de novos produtos, de novas tecnologias ou de novos sistemas. No mundo atual, estas entidades devem funcionar junto de unidades de produção do conhecimento como são as universidades.

 

Esses 30 novos edifícios serão licenciados a privados?

A universidade não tem recursos de investimento. O objetivo é dispor do terreno numa lógica de licenciamento por um determinado número de anos. As empresas e as entidades que queiram cá sediar as suas atividades de investigação pagam o correspondente ao número de anos que queiram cá ficar e fazem o investimento de construção dos edifícios que necessitem para isso, de acordo de um plano previamente estabelecido, em termos de urbanização do “campus”. Durante este processo, começámos a perceber que havia empresas que queriam, não só trazer as componentes de investigação, mas também as componentes comerciais, de prototipagem ou até mesmo de produção e armazenamento. Portanto, havia necessidades colocadas por algumas empresas que nós não tínhamos condições para fornecer porque só nos interessam as atividades que cabem no espírito de missão da universidade. Mas começámos a perceber que poderia haver outros proprietários, outras entidades que poderíamos cativar para pertencerem a todo este ecossistema baseado na realidade da universidade.

 

Queremos contribuir para a criação de uma região com condições únicas a nível nacional e internacional

 

É isso que está na origem do conceito do Innovation District?

Sim. Precisávamos de ter comunidade à volta, porque se desenvolvermos a faculdade e não tivermos uma comunidade, como é que vamos quebrar a barreiras dos muros? Por esse motivo, começámos a trabalhar com a autarquia neste conceito, que transcende a própria faculdade: criar comunidade. Vendo as intenções de três ou quatro proprietários, que já tinham projetos que estavam ser colocados na Câmara, decidimos juntar-nos e, em vez de fazermos investimentos avulsos, decidimos criar uma comunidade com princípio, meio e fim. Foi isso que deu origem ao Innovation District. Nasce da necessidade da universidade de se readaptar ao mundo real, à nova atualidade, às questões da sustentabilidade, da tecnologia, das smart cities… Temos muitos especialistas nestas áreas e podemos contribuir para a criação de uma região com condições únicas a nível nacional e internacional. A ordem de grandeza do que está aqui em causa é maior que a do Parque das Nações, que teve o seu próprio desenvolvimento na região norte de Lisboa e que acabou por ter uma pressão muito grande no ponto de vista imobiliário.

 

Existe também o receio de que este projeto possa criar especulação, acabando por afastar algumas pessoas locais.

É por isso que, em articulação com a Câmara, queremos garantir que as regras permitam sermos inovadores também sob esse ponto de vista. Queremos ser uma universidade que atua na sua região e que tem um impacto positivo na população, criando melhores condições de vida. Queremos ter impacto em termos económicos, garantindo que não vai ser objeto de especulação imobiliária. A universidade tem todo o interesse em manter-se nesta região, ajudando-a a desenvolver-se com os parâmetros mais elevados de sustentabilidade.

 

Daí a ideia de criação de uma nova centralidade na margem sul?

Queremos transformar esta região entre a Costa da Caparica e Almada numa nova centralidade, baseada no conhecimento e nas boas práticas internacionais de desenvolvimento. É um projeto particularmente ambicioso e motivador. Beneficiando das bonitas paisagens que temos sobre Lisboa, gostaríamos de preservar as condições únicas que esta região tem e acomodar, não só os cientistas, os engenheiros e as empresas que desenvolvem ciência e novas tecnologias, mas também criar condições de vivência, de urbanismo, de modernidade, de sustentabilidade, de forma a fixar as pessoas. Para que possam estar perto do trabalho, do estudo, das atividades de lazer e não tenham que se deslocar para Lisboa.

 

mapa-innovation-district

 

Refere que esse novo modelo de cidade irá assentar na ideia de sustentabilidade. Em que é que isso vai se materializar concretamente?

A sustentabilidade tem três dimensões: a dimensão ecológica, a dimensão social e a dimensão financeira. Na parte ecológica, pretendemos garantir que continuamos a ter uma paisagem e uma natureza preservadas e únicas. Por exemplo, dentro na faculdade vamos ter bosques, em harmonia com os edifícios, garantido que a maior parte do terreno do Innovation District é dedicado à natureza. Na dimensão social, é preciso garantir que a comunidade beneficia e que não trazemos pessoas de fora para uma cidade nova que não tem nada haver com isto. Queremos que as pessoas vivam aqui e que trabalhem aqui. Depois, sob o ponto de vista económico, estas dinâmicas implicam interações com o resto da comunidade. Todas estas articulações acabam por garantir uma sustentabilidade ao nível da coesão social que é algo que nos preocupa, porque queremos garantir que toda a comunidade à volta beneficia. Do ponto de vista financeiro, ninguém faz investimentos que não tenham retorno. Portanto, todos os investimentos que aqui forem feitos têm a garantia que a universidade proporciona o apoio necessário a nível científico.

 

Esta nova centralidade também se vai adaptar aos novos paradigmas de cidade em termos de mobilidade?

Outra componente importante para esta revitalização é a questão da mobilidade. Esta é uma região relativamente acidentada, com subidas e descidas. É importante não encher isto de automóveis e tornar esta zona ainda mais carbonizada do que que já é. É preciso garantir as condições de mobilidade internas, com vias pedonais e vias cicláveis, porque há um grande número de pessoas que tem esse gosto e está disponível para isso.

 

Todo o território do Innovation District será ciclável?

É essa a intenção. Queremos que a mobilidade dentro desta região seja facilitada. Está previsto, por exemplo, que o percurso da faculdade até Porto Brandão, que tem uma descida grande e apertada, possa ser redimensionado, tendo em consideração as preocupações das pessoas que vivem nessa zona. Também esperamos que possa existir uma mobilidade diferente para Lisboa. Atualmente, há transporte fluvial da Trafaria para Porto Brandão e Belém. Mas, se calhar, Belém não é o melhor local para as pessoas entrarem em Lisboa. Está-se a trabalhar no sentido de reconfigurar essas linhas, para que eventualmente possam ir para o Cais Sodré. Por outro lado, também estamos a trabalhar com algumas empresas no sentido de criar táxis automatizados, que possam permitir um fluxo mais instantâneo de pessoas entre as duas margens. Algo que em Lisboa não existe, mas que é frequente em várias capitais do mundo: os chamados barcos táxi.

 

A extensão do Metro à Costa da Caparica será um elemento fundamental?

Atualmente temos Metro entre Cacilhas e a faculdade. Mas será importante a extensão até à Costa da Caparica. Sabemos que está prevista nos programas do Governo e temos a expectativa que, com a extensão do Metro e das vias cicláveis até à Costa, se torne mais fácil assegurar a mobilidade dentro desta região e para fora dela. Além disso, há uma questão que pode atrair eventuais interessados: que esse trajeto seja feito não só por Metro, mas também por telecabines. É um projeto que, mais cedo ou mais tarde, vai ser estudado, podendo ser uma alternativa ou complementaridade ao Metro.

 

Com o Innovation District, espera-se que que a população aumente em cerca de 20 mil pessoas

Este território onde vai assentar o Innovation District já estará orientado para esse novo paradigma, menos dependente do carro?

Exatamente. Nós defendemos a ecologia, mas acabamos por ver que, no terreno, cada vez existem mais carros. É uma questão de mentalidade, mas é também uma questão de garantir oferta de transporte público e de condições de segurança para utilizar uma bicicleta ou uma trotineta. Tenho a certeza que grande parte das 11 mil pessoas que trabalham neste “campus”, se se sentissem seguras, na maior parte dos dias vinha de bicicleta, mesmo morando em Lisboa. Por exemplo, se a ponte permitisse a circulação em bicicleta. Dez quilómetros em bicicleta podem fazer-se em 40-45 minutos. Havendo condições de segurança, isso seria possível. Neste momento, as pessoas já sabem que a preservação do planeta passa por estas mudanças de mentalidade.

 

Não referiu a Terceira Travessia do Tejo. Até que ponto considera esse elemento importante?

Será incontornável termos uma terceira travessia. Mesmo que haja uma redução drástica dos carros a circular e que os transportes públicos sofram um grande desenvolvimento, acho que, tendo em conta a quantidade de gente que a Grande Lisboa movimenta, é provável que haja necessidade de uma terceira travessia. Até porque pode haver um cataclismo ou porque a ponte 25 de Abril vai entrar em obras… Estas situações ocorrem frequentemente, os equipamentos vão-se deteriorando e tem que haver alternativas. Admito que o Governo é sensível a esta situação e, provavelmente, a nova travessia será perto desta região, provavelmente entre a Trafaria, Porto Brandão e Algés. Tudo indica que essa será a zona natural para o escoamento do trânsito.

 

Defende a solução do túnel?

Julgo que a solução do túnel não é a mais bonita —porque as pontes são sempre mais bonitas—, mas também não afeta muito a paisagem, porque não se vê. Terá outros impactos porque estará debaixo do rio, mas devo recordar que há túneis muito maiores debaixo do mar, como no Canal da Mancha. Isso é frequente em muitas cidades do mundo. Admito que o túnel possa ser uma solução a ser estudada, eventualmente mais competitiva do que uma ponte, porque os custos são completamente diferentes. Com o Innovation District, espera-se que que a população aumente em cerca de 20 mil pessoas. Só na faculdade temos 11 mil. Se vierem mais 20 mil, num horizonte de dez anos, teremos 30 mil pessoas. Já é uma cidade com uma grande expressão. Há muitos concelhos pelo país que não têm nem a terça parte desta dimensão.

 

A faculdade também pretende contribuir para a reabilitação dos núcleos históricos do Monte de Caparica e Porto Brandão?

Alguns estão dentro da nossa propriedade. Há vestígios arqueológicos que vale a pena preservar. Temos, por exemplo, um departamento de conservação e restauro. Temos especialistas na área da preservação do património, temos um departamento de engenharia civil com valências nestes domínios, do urbanismo, da preservação e da reabilitação. Também estamos a investir na Trafaria, na reconversão do Presídio, onde vamos instalar o Instituto de Arte e Tecnologia. Ao mesmo tempo, queremos virar a nossa Biblioteca para fora, o que nos vai permitir uma maior abertura ao concelho e à comunidade.

 

Formalizaram recentemente uma associação com os parceiros do Innovation District. Qual o objetivo?

Este conceito deu origem a uma associação de proprietários, que pretende dar-lhes condições para poderem divulgar e informar a população. Os parceiros que existem já têm as suas ideias de desenvolvimento. Mas a associação pretende ser inclusiva, portanto, quem se quiser associar será bem-vindo. Imagino que no futuro possa dar origem a uma Sociedade de Gestão Urbanística (SGU) mais formal, para poder exercer melhor a sua atividade. É importante que haja uma entidade que possa fazer esta gestão, em articulação com a Câmara e com os agentes locais.

 

O papel da Câmara de Almada foi importante na viabilização de um projeto com esta dimensão?

Sem a Câmara era difícil de andar. A ideia nasceu na universidade, mas a Câmara acarinhou o projeto e tem participado ativamente no apoio a este tipo de situações.

 

Alguns projetos ainda dependem da revisão do Plano Diretor Municipal (PDM), que está em curso.

Tanto quanto sei, a revisão do PDM já existe e está em instâncias superiores para aprovação. São questões que levam o seu tempo mas, à nossa escala temporal, admito que seja relativamente célere. Julgo que não faltará muito tempo para que isso aconteça.

 

Almada Innovation District: 800 milhões para criar uma “nova cidade” na margem sul do Tejo

3 Comentários

  • Novembro 14, 2021 at 6:12 am
    Permalink

    Sem uma terceira travessia e parque habitacional a custos controlados é uma boa ideia…para os especuladores. Já está incomportável viver na Caparica com os ordenados de miséria. Está bom para a estrageirada que não paga impostos.

    Responder
  • Novembro 14, 2021 at 7:54 pm
    Permalink

    Por que não “distrito da inovação”?

    Responder
  • Novembro 16, 2021 at 4:22 pm
    Permalink

    Quando Lisboa já expulsou, e continua a expulsar, a população menos endinheirada para os arredores, chega agora a vez de os arredores tratarem de criar maneira de expulsarem aqueles que aí vivem, através da valorização artificial do parque imobiliário, ao alcance apenas de fundos de investimento e especuladores. Será assim tão difícil de ver que, daqui em diante, não haverá soluções para aqueles que vivem do ordenado viverem condignamente? Já para não falar na atitude subserviente e pífia de criar nomes pomposos em inglês, denotando nisso um total desprezo pelo país e os seus habitantes. À atenção da Senhora Presidente Inês de Medeiros…

    Responder

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *