Sábado, Setembro 30, 2023
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Meia Volta de Úrano: há um espaço em Almada que é livraria, bar e galeria de arte num só 

Sete anos depois da abertura do Meia Volta de Úrano na rua Cândido dos Reis, em Cacilhas, o ALMADENSE foi conhecer o espaço que, entre refeições e bebidas, contribui para trazer vida cultural a Almada.

 

Foi numa tarde de calor que o ALMADENSE chegou pela primeira vez ao Meia Volta de Úrano. Passando pela esplanada, que começaria a encher durante a tarde, entrámos no restaurante, bar, café, sala-de-estar, livraria, biblioteca e galeria de Rui Malaquias, Cristina Neves e Paula Baptista. “Quando se entra”, refere um cliente, “parece que estamos na gruta de Ali Babá”. E tem razão.

O ambiente é acolhedor e intimista, as mesas estão ocupadas e a conversa flui. Ao fundo, veem-se obras de arte penduradas, como num estendal. “Aquela mesa é de pessoal do teatro”, aponta Rui. Atendendo os clientes, conversando com eles, move-se entre livros, jogos de tabuleiro e instrumentos musicais.

 

A livraria

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Os livros espalham-se, num caos que é uma ordem por decifrar, por todos os espaços, desde as prateleiras por baixo do balcão, à entrada, até ao espaço por trás do palco, mais ao fundo. Quem os seleciona – desde os mais conhecidos às pérolas escondidas – é Cristina, a sócia que cresceu em Almada.

Formada em Engenharia Agrícola, a ávida leitora percorre catálogos e catálogos de editoras para encontrar novas aquisições: “apostamos em algumas pequenas editoras, porque somos pequenos, como eles, e algumas delas fazem um trabalho muito meritório, trazendo visibilidade a novos autores. Ao lado dos livros mais procurados, temos aqui algumas coisas muito interessantes, mesmo que pouco conhecidas”, refere. Recentemente começou, também no Meia Volta de Úrano, um novo clube de leitura. Na segunda sessão discutir-se-á “A Metamorfose”, de Franz Kafka.

“A experiência aqui na Casa das Artes” – o outro nome do Meia Volta de Úrano – “tem sido muito interessante”, refere Cristina. “Isto é um percurso, não é para estacionar aqui! Conhece-se imensa gente, vivem-se aqui experiências giríssimas. Muitas vezes alguém entra e, do nada, dá-nos aqui um show!”

 

O nascimento

O nome do espaço surgiu naturalmente: quem o explica é Rui Malaquias, um dos três sócios que gerem não só o restaurante e bar – o Meia Volta de Úrano – mas também a Associação Internacional – ou o “Inter” – de Cacilhas. “Meia Volta de Úrano é o nome de uma peça que eu escrevi, e para a qual criei uma página de Facebook, para divulgação. Já tinha muitos seguidores. A certa altura disse «olhem, agora Meia Volta de Úrano é um novo espaço em Cacilhas!» E assim foi.”

Rui, escritor e professor, mostra o seu último romance, intitulado “Razão Óbvia”. Já há muito que se encontra ligado às artes mas foi aqui, no Meia Volta de Úrano, que essa ligação atingiu o seu expoente máximo. Enquanto ainda morava em Santarém, Rui foi abordado pela sua editora para fazer nascer um espaço cultural. “Inicialmente era para abrir em Lisboa, e depois acabei por manter a ideia e depois aplicá-la aqui em Almada”, refere.

Foi assim que a Casa das Artes abriu portas, a 10 de julho de 2016 – o dia em que Portugal venceu o Europeu de futebol. Hoje, sete anos passados – dois de associação – muitos projetos já foram concretizados, e muitos estão a postos para arrancar nos próximos tempos. “A Paula está a arrancar com uma ideia de jogos de tabuleiro, uma vez por mês”, refere Rui. “A nível da Associação, está tudo a postos para iniciar o basquetebol de rua – de três para três. Já temos muitas inscrições. E em torno da literatura temos tido aqui coisas fantásticas”.

 

“Uma caldeirada”: do xadrez às noites de poesia

Uma das últimas atividades literárias foi um concurso de poesia em que um dos concorrentes era o ChatGPT. A inteligência artificial, além de elaborar o cartaz do evento, conseguiu que a sua poesia ficasse à frente da de outros concorrentes, na votação final. A Casa das Artes espera, em breve, retomar os Poetas Malditos, “uma das melhores coisas que se fez em Portugal sobre poesia”. Para além de tudo isto – e mais – há stand-up comedy de três em três semanas e noite de DJ uma vez por mês.

Com a Associação Internacional de Cacilhas, criada há dois anos, Rui, Paula e Cristina pretendem agregar várias das atividades que desenvolvem, nomeadamente nas áreas do desporto e da formação. “Neste momento, já somos mais de uma centena de sócios”, aponta Rui. “Só no xadrez somos quase uma centena. Temos projetos também na área do ensino desportivo e artístico, temos projetos na área social – como campanhas de recolhas de alimentos, oferta de livros para hospitais…”

 

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Qualquer pessoa pode tornar-se sócia, por uma jóia de 9 euros, inicialmente, e uma mensalidade de 2 euros. Aos sócios da associação, a Casa das Artes oferece um desconto de 10% nos produtos do bar, para além de outras regalias – como o acesso gratuito a todos os jogos de tabuleiro. Rui assinala que “é muito importante haver sócios” para manter a sustentabilidade da Associação. Como diz, entre risos, “as artes servem para gastar dinheiro” – e por isso é tão relevante não só o apoio dos almadenses, mas também a receita da Casa das Artes, “o principal patrocinador da associação”.

Apesar de ter nascido como uma coincidência, Rui vê hoje a casa das artes como “uma missão”. “Pensamos muito no que queremos fazer”, indica; e algo que o preocupou durante “três anos de profissionalismo nas artes foi a dificuldade de encontrar espaços que ajudassem a congregar esforços para projetos artísticos – espaços de convívio multidisciplinares, onde as pessoas pudessem conversar”.

“Nos primeiros anos desta casa surgiram aqui muitos projetos de teatro, de música, precisamente porque é um espaço informal onde as pessoas têm acesso aos instrumentos de que precisam” para concretizar as suas ideias, assinala o sócio. No Meia Volta de Úrano, há lugar para todas as artes. Para Rui, “não há uma forma de passar uma mensagem mais digna do que outra” e, por isso, o que se procura é “uma caldeirada de linguagens artísticas”.

 

A noite de quiz

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Este restaurante e bar é conhecido pelos jovens almadenses como um espaço de confraternização e partilha, onde quase todos os dias há um novo evento cultural para descobrir. Um dos favoritos é a noite de quiz, que se realiza todas as terças-feiras pelas 22h. Muitas vezes, o criador das questões é convidado, ficando com a receita da participação – 1 euro por pessoa.

Na noite em que o ALMADENSE esteve presente, o tema era variado – desde a História à Literatura ou Desporto. Passando entre as mesas, ouvia-se o burburinho dos grupos em concílio, de modo a escolher a resposta certa – e não deixar os outros ouvi-la. Gonçalo Timóteo costuma criar as perguntas do quiz “sempre que a Paula pede, porque é uma atividade diferente e interessante”. A adesão, como habitual, é grande, com muitos grupos a participar.

Paula, Cristina e Rui vivem agora na margem sul. Voltando a habitar Almada depois de trinta anos, Cristina sente falta “da vida que existia na cidade”, referindo que “podia fazer-se muito mais para tornar Almada convidativa, apelativa” – como, por exemplo, a reconversão dos antigos estaleiros da Lisnave que, nos anos 80, chegaram a ter piscinas ao ar livre.

Mas, se na cidade há quem sinta falta de iniciativa, tal não se estende ao Meia Volta de Úrano. O restaurante e bar que já tanto faz pela cultura promete, entre formação artística e jogos de tabuleiro, vir a fazer muito mais. Porque, como diz Natália Correia, “Ó subalimentados do sonho!/ A poesia é para comer”.

 

Fotos: Bruno Marreiros

 

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