Quarta-feira, Junho 12, 2024
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Está a nascer uma horta que dá cor ao Bairro Branco enquanto promove os laços sociais

Criação de uma horta urbana na Caparica está a contribuir para qualificar o espaço público do bairro enquanto fomenta a convivência entre a vizinhança.

 

Inês não costuma colocar as mãos na terra, mas, sempre que pode, traz uma planta para alimentar a horta comunitária que está a nascer no Bairro Branco, na Caparica. Hoje apareceu com um aloé vera, que em breve será plantado no terreno em processo de regeneração.

Na semana passada, foi o Sr. Carlos, jardineiro de serviço, quem “trouxe aos ombros uma bananeira”, recorda Ana Martinho, coordenadora no Centro Social Paroquial do Cristo Rei. Ela, e Maria João Antunes, psicóloga e técnica de intervenção social, foram as impulsionadoras iniciais do projeto “MK – Mexe Contigo”, que ambicionava transformar os canteiros abandonados da Rua da Manobra com hortas urbana, e estimular a convivência entre os moradores a pretexto de cuidar do espaço comum.

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Próximo da estação ferroviária do Pragal, entre blocos de habitação social construídos nos anos 70, no âmbito do processo de realojamento do Plano Integrado de Almada, o terreno escolhido para acolher os novos canteiros era até há poucos meses um espaço sem vivência, onde se ia acumulando lixo.

 

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Horta urbana trouxe nova vida ao bairro.

 

Agora, uma grande variedade de plantas, árvores, flores e hortaliças traz nova cor aos canteiros do Bairro Branco e convoca a vizinhança a cuidar do espaço público. Para além de contribuir para regenerar o logradouro, o projeto está também a fomentar “a criação de laços entre os moradores”, conta Ana Martinho ao ALMADENSE.

Desde fevereiro que moradores e voluntários se reúnem às sextas-feiras para trabalhar os canteiros e, dessa forma, participar na “transformação do espaço”, assinala Maria João Antunes.

Neste bairro de habitação pública, com um contexto social complexo e de maior vulnerabilidade, a pobreza, o desemprego e outros problemas sociais refletem-se também na saúde (física, mental e ambiental). Daí que a iniciativa represente uma “oportunidade para mudar os hábitos e cocriar um espaço de convivência com benefícios ecológicos, pedagógicos e de bem-estar coletivo”, acredita a coordenadora do Centro Social.

 

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Maria João Antunes e Ana Martinho.

 

Num bairro estigmatizado por problemas sociais, a regeneração do jardim acaba por juntar a promoção da saúde física e mental na comunidade, contribuindo para o processo terapêutico dos participantes. “A mudança de setting de atendimento, promove um acompanhamento mais próximo e continuado”, refere Maria João Antunes, verificando que “esta abordagem, que envolve a população e promove a horizontalidade das relações entre os moradores e técnicos, é vantajosa.” 

A equipa do Centro Social, que obteve o apoio financeiro da Fundação Pão de Açúcar – Auchan para iniciar as atividades, também conseguiu mobilizar amigos de Almada para, voluntariamente, partilharem conhecimentos e experiência em regeneração socio-ecológica e permacultura. Assim se juntaram Emilie Smith Dumont, Duarte Sobral e Hélder Santos Duarte (que já tinha criado uma horta urbana em Almada Velha)

Tendo em conta o contexto que ali se vive, muitas vezes estigmatizado, “esta iniciativa traz ao bairro uma espiral positiva”, diz ao ALMADENSE, Emilie Smith Dumont, destacando a “perspetiva inclusiva e participativa”.

 

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Criação da horta atraiu moradores e voluntários.

 

Também as crianças são um elemento fundamental no projeto. “Percebemos que havia no bairro uma falta de atividades desportivas gratuitas”, o que levou a equipa a criar aulas de capoeira dirigidas sobretudo a crianças e jovens entre os 5 e os 25 anos, aponta Ana Martinho. De resto, as crianças do Centro Juvenil e Comunitário da Associação Padre Amadeu Pinto, localizado junto à horta, envolveram-se nas atividades da plantação à colheita. A “Pizza Party” com os Circolo, e a aula de Kuduro e Afrohouse com o Miguel Graça que animaram a praceta este verão, continuam na memória de muitos deles.

“Iniciativas disruptivas como estas conseguem gerar novas dinâmicas de socialização”, sublinha Duarte Sobral. “Este projeto chamou a atenção das pessoas para os logradouros, estimulou os moradores a cuidarem de um espaço que é deles e, com isso, inspirou a comunidade. Esperamos que possa continuar a dar frutos”, conclui.

 

 

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