Entrevista a Nuno Matias (PSD): “Se os almadenses se mobilizarem podemos ganhar as eleições”

O cabeça de lista da AD – Almada Democrática à presidência da Câmara acredita que se houver elevada participação nas eleições autárquicas, a coligação de centro-direita (que junta PSD, CDS, Aliança, MPT e Partido Popular Monárquico) pode sair vencedora, mas deixa a porta aberta a possíveis acordos pós-eleitorais. Em entrevista ao ALMADENSE, Nuno Matias apresenta propostas para implementar em Almada, sublinhando que nunca será “candidato autárquico em mais lado nenhum”.

 

Na presentação da sua candidatura à CMA foi dito que a coligação AD pretende derrotar a esquerda em Almada. É esse o seu objetivo?

Isso não foi dito por mim, mas pelo Francisco Rodrigues dos Santos [presidente do CDS]. O meu objetivo não é derrotar ninguém. É dar qualidade de vida às pessoas de Almada. Isto não é um projeto de centro-direita contra a esquerda. É um projeto de almadenses para almadenses. Sou almadense com orgulho e quero fazer o bem pela minha terra.

 

Acredita que os partidos da coligação AD têm condições para reforçar a votação?

Reforçar e lutar pela vitória claro. Se os almadenses se mobilizarem na votação temos hipóteses. Acho que podemos ganhar.

 

O que tem impedido esse espaço de centro-direita de obter bons resultados nas autárquicas?

Penso que é sobretudo a abstenção. Uma mensagem que procuramos deixar é que a participação pode fazer a diferença. Por exemplo, em 2011 este espaço político que agora se candidata na AD nas eleições legislativas teve 35 mil votos. Dois anos depois, quem ganhou aqui a Câmara em autárquicas com maioria absoluta teve 23 mil votos. Há aqui um hiato que tem a ver com os níveis de abstenção que leva a que muita gente em Almada por algum motivo não participe em eleições autárquicas, o que é muito penalizador. A sua participação pode fazer a diferença.

 

A que atribui a pouca participação nas autárquicas em Almada?

Faz falta uma ligação de identidade das pessoas à terra, ao bairro, às freguesias, à lógica de vizinhança. Acho que é vital reconstruirmos esta lógica do orgulho da terra e de projetos que possam ser abraçados de forma comum entre as pessoas. É por isso que estamos a tentar construir uma relação de proximidade com os almadenses para os ouvir e representar. Tenho ideia que hoje em dia a maior parte das pessoas tem uma imagem desgastada da política. Por isso, a única forma de mostrar que não somos todos iguais é, mais do que pedir apoio, estabelecer uma relação direta e honesta com as pessoas. Não é agora por causa desta eleição: sempre me habituei a dar o meu contacto pessoal às pessoas porque acho que é importante que sintam que têm uma ligação direta.

 

De que forma quer fomentar a participação das pessoas?

Uma das ideias que temos é a de criar uma assembleia do cidadão. Vamos identificar bairros e a partir daí vamos designar um porta-voz que vai apresentar de dois em dois meses os problemas do bairro à câmara. Muito do trabalho autárquico só é possível se for um trabalho em rede. Isso cria um espírito de cooperação que responsabiliza toda a gente, permitindo incentivar a participação das pessoas. Para este crescimento da lógica de identidade e sentir a terra é importante ouvir as pessoas. Por isso, para além dos órgãos autárquicos, a ideia é ter 60, 80, 100 pessoas a desenvolver este trabalho.

 

Diz que o objetivo é vencer as eleições. Caso não seja a força mais votada, voltaria a estar disponível para um acordo de governação com o PS?

O PSD agora lidera uma grande coligação. A minha expectativa é ganhar. Mas se a vontade democrática dos almadenses for outra, no dia seguinte continuamos a ser almadenses. Se pudermos ter áreas onde possamos afirmar a diferença, estaremos sempre disponíveis. Vamos ser almadenses se ganharmos e se perdermos. As pessoas que estão na AD não foram candidatas em mais lado nenhum. Temos uma relação emocional com esta terra. Tenho 44 anos de vida e 44 anos de Almada.

 

Tem repetido essa ideia. Pensa que isso é algo que o distingue de outros candidatos?

Penso que me distingue claramente. Eu nunca serei candidato autárquico em mais lado nenhum. Só serei na minha terra.

 

Que balanço faz da coligação PS-PSD?

O PSD foi um fator de estabilidade na Câmara, conseguimos construir soluções em conjunto. Mas somos partidos diferentes. Tivemos oportunidade para fazer o bem sem desvirtuar aquilo que pensamos. Porque o PSD durante este mandato esteve também a implementar a sua visão. Se estivéssemos a liderar, como esperamos estar, tínhamos outra forma para impor a nossa visão. Neste caso, estivemos condicionados. Não mandamos na Câmara, mas penso que fomos uma boa parte da solução. E temos obra feita.

 

“Queremos criar um hub criativo na Romeira”

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Aspeto da Romeira após a requalificação da estrada.

 

Na apresentação da candidatura também referiu a importância da criação de valor em Almada. Que propostas tem para relançar o dinamismo económico que permita a criação de emprego?

Uma das questões que é vital é a nossa capacidade para requalificar o território e atrair para Almada projetos empresariais que criem valor. Durante este mandato foi possível concretizar o Innovation District à volta da FCT porque não faz sentido termos um polo de investigação e de conhecimento como aquele e à volta não nascer um parque tecnológico e empresarial que possa fixar ali empresas. O nosso paradigma é que temos muita gente que tem que ir trabalhar para Lisboa porque não tem postos de trabalho qualificados em Almada. Queremos inverter essa lógica.

 

E para as freguesias urbanas, de Almada, Cacilhas, que planos tem?

Temos uma zona identificada que é a zona da Romeira. Já foi feita a requalificação do espaço público porque era uma zona nobre da cidade muito desqualificada. Mas a Câmara é proprietária de muitos espaços ali. Temos uma proposta concreta que estamos a estudar que é a criação de um hub criativo no silo da Romeira, que é propriedade da Câmara e, além de ser um edifício emblemático, tem muitas características que podem ajudar a atrair empresas criativas.

 

Como iria funcionar esse hub, iria disponibilizar espaços para empresas?

Sim, e também espaços de co-working. Portanto, seria uma espécie de hub criativo onde poderia estar também situada uma agência de atração de investimento. Uma “investe Almada”, porque temos que ser pró-ativos a mostrar a potenciais investidores porque é que este é o melhor concelho para investir. Portanto, uma das nossas propostas é que na CMA exista um gestor do investidor. Para que quem quer investir em Almada passe a ter um interlocutor único na câmara que vai encaminhar o investidor para agilizar o processo, cumprindo a lei. Para garantir que um investimento que pode surgir em seis meses, um ano, não fique seis anos a marinar. Muitas vezes perde-se a oportunidade. Porque se não tivermos investimento também não vamos ter emprego. A lógica é que a Câmara seja um motor de atração para o concelho.

 

O potencial parece estar cá todo. O que é que tem falhado então nessa atração de investimento?

Temos que saber promover junto dos investidores e temos que lhes explicar que a ideia que possam ter, desde que seja boa, pode ser implementada rapidamente.

 

Porque é que no último mandato não houve grande avanço nesse sector?

Pessoalmente, gostava que se tivesse feito mais. Mas não se pode escamotear que havia muitas frentes estratégicas que se tinham que abrir desde 2017. Almada em 40 anos ficou demasiado estagnada e ficou muita coisa por fazer para tornar Almada numa terra ambiciosa. Houve muitas frentes que tivemos que abrir e era natural que em três anos e meio não se conseguisse fazer tudo. E este é sem dúvida um assunto pendente que temos que abraçar com ambição. Temos que encontrar formas de elevar a criação de riqueza em Almada para que a receita possa vir não de aumentarmos os impostos, mas dessa criação de riqueza. Dessa forma, a Câmara terá mais meios para investir.

 

O comércio local também enfrenta uma crise importante. Como propõe dinamizar este sector?

Tudo entronca a montante do comércio: é importante requalificar o espaço público e criar atividade. Isso só se faz com os comerciantes e os empresários. Quando foi criado o Almada Forum, tinha que se ter organizado a montante um espaço público que fosse atrativo para as pessoas. Mas é importante não esquecer que para termos fatores de atração temos que atrair algumas marcas-âncora que hoje em dia estão só no Forum. Uma das estratégias é voltar a trazer algumas grandes marcas para o centro e a Câmara aí também pode ter um papel: eu sempre fui defensor de que a Câmara, até porque ser proprietária de alguns espaços, devia criar uma bolsa para tentar promover o aparecimento de espaços-âncora. Não só na cidade de Almada, porque sou favorável a que se criem vários centros, na Charneca da Caparica, na Sobreda, na Costa da Caparica.

 

A Câmara deve ter um papel mais ativo? Nos últimos anos não tem havido um papel muito ativo da autarquia na dinamização do comércio local…

A Câmara tem que ter uma estratégia de acelerar o que já começou: a requalificação do espaço público. As pessoas dizem: há muitas obras em Almada ao mesmo tempo. Mas primeiro tivemos que planear. Esse esforço de requalificação do espaço público é vital para acrescentar identidade. Estamos a fazer a pedonalização de parte da Capitão Leitão, para criar mais um espaço de atração das pessoas e dinamizar o comércio. Tem que haver um esforço comum que volte a dar vida à cidade e trazer as pessoas para a rua porque se as pessoas circularem são potenciais consumidores do comércio local.

 

Projetos como o Cais do Ginjal e a Cidade da Água, que poderiam trazer dinamismo à cidade, continuam parados. Como estão esses projetos?

Segundo julgo saber, [a Cidade da Água] está com a entidade que tutela aquele terreno. Acho que o Governo tem que envolver a Câmara para o desenvolvimento daquele projeto até porque a nossa frente ribeirinha tem que ser devolvida às pessoas com sustentabilidade porque não podemos defender o meio ambiente à segunda-feira e depois à quarta-feira esquecermos as alterações climáticas. Portanto, quando se desenvolve o Ginjal e a Margueira tem que se pensar num modo ambientalmente sustentável.

 

Uma vez que aquelas são zonas sensíveis, pensa que aqueles projetos ainda fazem sentido hoje, tendo em conta as alterações climáticas?

Acho qualquer um deles procura dar respostas a isso. Se têm uma pressão urbanística aceitável ou não, ainda estamos a tempo de avaliar. No Ginjal foi aprovado o plano pormenor e na Margueira também. Qualquer um deles visa devolver aqueles espaços às pessoas com proteção. Por exemplo, o Ginjal visa fazer a proteção ribeirinha e marítima, que não existe hoje em dia. Para garantir que não há galgamentos e proteção das arribas. Uma coisa que me choca é que temos uma frente ribeirinha excecional e uma costa atlântica única e de referência mas que não está desenvolvida. No caso do Ginjal, está neste momento a ser ultimado o plano de urbanização. O projeto foi pensado na vertente de proteção ribeirinha, das escarpas e toda a vertente da frente territorial e de uma intervenção equilibrada com o meio ambiente.

 

Leia também a segunda parte da entrevista, sobre temas como políticas de mobilidade e habitação.

 

Nuno Matias (PSD): “Incentivar a mobilidade suave em Almada não é só criar ciclovias”

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