Quarta-feira, Julho 17, 2024
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Da Ucrânia para Almada. Chegaram mais de 200 refugiados no último mês

Na sua maioria mulheres e crianças, os refugiados ucranianos chegados a Almada nas últimas semanas foram acolhidos por familiares e amigos. O ALMADENSE faz um retrato da situação. 

 

Desde que chegou a Portugal, há três semanas, que Svetlana caminha diariamente desde a zona do Parque da Paz, onde partilha um quarto com a filha, até Almada Velha. Agora, é no Quartel dos Bombeiros Voluntários, que passa grande parte dos dias, colaborando na organização do armazém instalado para recolha de produtos para os ucranianos que fogem da guerra.

 

Natural de Mykolaiv —cidade que nos últimos dias tem sido fustigada pelos bombardeamentos russos—, Svetlana continua a par das notícias que lhe chegam continuamente sobre a sua cidade natal, onde ainda se mantêm familiares e amigos. Por isso, o trabalho voluntário que desenvolve no armazém permite-lhe afastar o pensamento recorrente sobre o conflito armado. “Vindo para aqui, o convívio ajuda-a a abstrair-se um pouco da destruição que está a ocorrer na cidade dela”, resume Gália Andreitsiv. 

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Por sua vez, Gália é natural de Ivano-Frankivsk (na zona ocidental da Ucrânia), mas vive em Almada há oito anos. Foi ela a principal impulsionadora deste espaço, cedido pelos Bombeiros Voluntários, que agora se transformou num verdadeiro “quartel” dedicado ao apoio a refugiados ucranianos. “Temos recebido donativos de muitos almadenses e associações. Tem havido grande generosidade”, conta ao ALMADENSE.

 

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Gália Andreitsiv no Quartel dos Bombeiros de Almada.

 

“Todos os dias, pelo menos três ou quatro famílias refugiadas passam por aqui para recolherem mantimentos”, descreve Gália, que também ajuda os refugiados ao nível da burocracia e da tradução. Na sua maioria, quem procura refúgio em Almada são jovens mulheres com filhos pequenos. Roupa, comida, brinquedos, medicamentos e produtos de higiene são os produtos mais procurados.

No entanto, para quem acabou de chegar, a guerra nunca deixa de estar presente. Sempre ligados, os telemóveis trazem notícias constantes sobre novos bombardeamentos e fotos de casas destruídas. Por isso, além dos produtos de primeira necessidade, quem foge da guerra encontra aqui um espaço de convivência e de partilha, que “ajuda a enfrentar a situação”.

 

Sete pessoas num T1

De acordo com os registos da Associação luso-ucraniana de Almada, nas últimas semanas chegaram ao concelho mais de 200 refugiados, que têm sido acolhidos em casa de familiares e amigos. Casado com uma ucraniana, João Mimoso foi uma das pessoas a abrir as portas de sua casa, que passou de acolher quatro a sete pessoas: acaba de receber uma amiga de infância da mulher e os dois filhos.

Mas nem todas as famílias recém-chegadas conseguiram encontrar um alojamento com boas condições. No Feijó, um casal com um filho acolheu entretanto os pais, a irmã e um sobrinho no pequeno T1 alugado. “É um apartamento com sala e kitchnet, já era apertado quando lá viviam três, agora que são sete, alguns têm que dormir no chão, não têm sido fácil”, lamenta Gália. 

Não é o único exemplo. Há outras famílias de vários elementos que estão neste momento a partilhar casas pequenas. Mesmo quando têm capacidade financeira para arrendar casa no mercado privado, alguns refugiados têm esbarrado na burocracia. “As agências imobiliárias pedem-lhes um fiador e não têm. Mesmo para quem pode pagar, é muito difícil conseguir um contrato”, relata. 

Também há casos de quem já conseguiu arrendar apartamentos, mas vazios. “Ao mesmo tempo, temos pessoas que têm mobília para dar. Por isso, precisamos de um armazém onde guardar esses móveis enquanto se agiliza a entrega. Também precisávamos de apoio no transporte”, assinala João Mimoso, que nas últimas semanas se tem desdobrado em tarefas de auxílio aos refugiados.

 

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João Mimoso junto a Svetlana, Gália, Viktoriia e filha.

 

Lamentam, por isso, a ausência de apoios municipais aos recém-chegados. “Até ao momento, ninguém da Câmara de Almada se interessou ou perguntou se precisávamos de alguma coisa”, aponta João Mimoso. “Sabemos que o município organizou uma rede de recolha de bens, mas não estamos articulados”.

A associação fez também diversos pedidos de apoio ao nível do alojamento ou refeições. No entanto, um mês depois da chegada dos primeiros refugiados, ainda não receberam resposta.  

Entretanto, a Câmara Municipal de Almada anunciou que vai disponibilizar 59 camas para acolhimento temporário de emergência no Caparica Sun Center (um hostel na Costa da Caparica detido pela autarquia). Contudo, a associação luso-ucraniana ainda não tem conhecimento de que haja refugiados instalados na instituição. O ALMADENSE procurou obter informações sobre o papel da autarquia no acolhimento aos refugiados no concelho, mas não obteve resposta. 

 

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