Comércio local em Almada acumula anos de declínio. O que fazer para o relançar?

Há muito que o declínio do comércio tracidional é evidente, especialmente nas zonas mais antigas de Almada e Cova da Piedade. Como se explica esta situação e o que fazer para reencontrar o dinamismo perdido? Apesar das dificuldades e da incerteza pós-pandemia, há quem não tenha dúvidas: “o futuro está na rua”.

 

Situada na Avenida Dom Afonso Henriques, em pleno eixo central de Almada, a loja de Manuel Mações assistiu às grandes transformações que a cidade viveu na segunda metade do século XX. Viveu o encerramento da Lisnave, a abertura do Almada Forum, assistiu à chegada do Metro Sul do Tejo e, mais recentemente, resistiu ao impacto da pandemia.

Há 69 anos que a Casa Figueiredo, especializada em moda masculina, tem as portas abertas, o que faz dela uma das mais antigas em atividade em Almada. Uma longevidade invulgar, que o sócio-gerente atribui “aos anos de casa” e, sobretudo, à “lealdade” dos clientes.

 

Figueiredo

 

Com passeios largos e dotada de transportes públicos, a avenida principal de Almada continua hoje a manter um certo dinamismo comercial. No entanto, ruas próximas, nomeadamente de Almada Velha ou da Cova da Piedade passam por uma realidade bem diferente. Só na rua Capitão Leitão, outrora o coração da cidade, o ALMADENSE contou 20 lojas vazias. Entre a rua da Sociedade Filarmónica Incrível Almadense e a Bernardo Francisco da Costa, junto ao Mercado Municipal de Almada, em tempos vibrante de bulício, outras 24 lojas estão hoje encerradas. Além de desocupados, muitos destes espaços encontram-se em estado de degradação, acumulando sujidade e rabiscos, o que contribui para o aspecto decadente da zona.

O que está por trás do declínio comercial que se abateu em Almada nas últimas décadas e o que pode ser feito para recuperar o dinamismo perdido? O ALMADENSE procurou obter algumas respostas.

 

“A animação de rua por todo o concelho está meio esquecida”

Os lojistas que hoje resistem nestas zonas apontam a escassa dinamização da cidade como um dos motivos na base da quebra e da dificuldade em atrair compradores. Situada mesmo em frente ao Mercado Municipal, a Loja do Bairro, com 25 anos de antiguidade, já viveu dias mais prósperos e lamenta o encerramento de estabelecimentos nas proximidade: “vemos cada vez mais lojas a fechar, a Câmara não dinamiza o centro de Almada e não existem incentivos para o comércio local”, disse a sócia-gerente ao ALMADENSE.

Na Associação do Comércio Indústria Serviços e Turismo do Distrito de Setúbal (ACISTDS), a perceção é semelhante: “a animação de rua por todo o concelho está meio esquecida”, diz Gonçalo Paulino, presidente da delegação de Almada. O responsável acredita que o município deveria “alimentar os locais com eventos e atividades”, afirmou ao ALMADENSE. “O comércio de rua é a cidade”, defende o responsável. “Sem comércio e serviços as cidades são dormitórios, o comércio e serviços são a alma da cidade, devendo ser acarinhados e respeitados”, argumenta.

Os lojistas não são os únicos a queixarem-se da falta de dinamização. Aqueles que têm de ser atraídos —os clientes— pensam o mesmo. “Em Lisboa há sempre qualquer coisa a acontecer, aqui o comércio precisa de vida, de novidades”, disse João Martins, de 22 anos.

Apesar do grande número de lojas desocupadas, para quem quer lançar um pequeno negócio, não é fácil encontrar um espaço adequado. Por um lado, os que foram renovados têm preços elevados. De acordo com Maria Rosa, consultora imobiliária da Remax, os preços dos estabelecimentos comerciais no concelho têm mostrado fortes subidas nos últimos anos, acompanhando a evolução dos preços praticados no arrendamento de habitação. Outras vezes, é difícil identificar o dono das lojas vazias ou então há “proprietários que não querem entregar os imóveis às agências imobiliárias, e tentam ser eles próprios a arrendar ou vender, o que se torna mais difícil”, aponta a responsável.

 

Requalificação do espaço público precisa-se

Na zona mais antiga da cidade, a maioria das vozes acredita que a requalificação do espaço público poderá contribuir para relançar o comércio local. A recente pedonalização do troço final da rua Capitão Leitão é vista como um passo positivo, mas ainda insuficiente. Ao início da zona agora pedonal, a antiga loja Singer —agora num edifício em avançado estado de degradação—, continua a recordar tempos áureos que desapareceram.

Mais abaixo, na Loja do Bairro, também há a perceção de que a degradação dos edifícios afasta possíveis clientes. A reabilitação do antigo edifício da EDP, abandonado há mais de 18 anos, é apontado como uma prioridade para trazer novamente dinamismo àquela área. Mas também o edifício do Mercado Municipal é considerado prioritário: “Está velho e não chama pessoas, se estivesse melhor conservado, atraía mais comércio”, refere a sócia-gerente.

 

vende-se-almada

 

Também a qualidade dos acessos é referida por grande parte das pessoas ouvidas pelo ALMADENSE como prejudicial para o comércio tradicional. Em algumas ruas, como a Capitão Leitão, os escassos centímetros de passeio dificultam a circulação pedonal e a visualização das montras. Em outras artérias, como a Bernardo Franciso da Costa, o principal problema é o excesso de carros e o estacionamento abusivo em cima dos passeios, o que impede as pessoas —especialmente as mais velhas— de caminhar em segurança e de consumir.

Se circular a pé é difícil, vir de carro a esta zona também não é tarefa fácil. “Não há estacionamento e o que há é para os moradores ou está restrito. Os possíveis clientes dão duas voltas, não encontram lugar, então saem’’, diz a gerente da Loja do Bairro.

Por isso, a criação de “parques de estacionamento perto das zonas comerciais, com preços apelativos para os compradores” é uma das medidas consideradas prioriárias, aponta o sócio-gerente da Casa Figueiredo. Outros defendem que, além de mais parques, deveriam ser criadas condições de estacionamento mais favoráveis, como isenção de pagamento durante as primeiras horas ou um tarifário mais barato para os clientes do comércio local.

 

Onde param as marcas?

Enquanto no centro histórico de Almada o comércio definha, há uma zona do concelho onde o estacionamento é gratuito e a atividade comercial vive momentos de bonança. Inaugurado em setembro de 2002, o Almada Forum é o maior centro comercial a sul de Lisboa e concentra centenas de lojas de marcas reconhecidas —as mesmas que desapareceram do centro da cidade.

Recentemente, a livraria Bertrand trocou o centro comercial pelo centro da cidade para “estreitar laços com a comunidade”. O movimento, contudo, é pouco comum em Almada. No centro, praticamente não existem marcas âncora, daquelas que atraem clientes a toda a área circundante.

“Houve em tempos uma vontade muito grande destas marcas se fixarem nos centros históricos. Na realidade, a vontade político-partidária dessa altura impediu tais fixações. Neste momento, e não tendo a cidade crescido de maneira a criarem-se grandes espaços comerciais (com o desastre que foi a desertificação dos centros históricos e criação de novas centralidades), o grande problema é mesmo encontrarem-se espaços suficientemente grandes para acolher estas lojas”, refere o presidente da delegação da ACISTDS em Almada.

O responsável lamenta, por isso, que estas marcas estejam tão ausentes do centro da cidade: “Veja-se o exemplo do El Corte Inglés, em Lisboa. Toda a zona envolvente evoluiu de uma forma brutal. O impacto é sempre positivo e o comércio adapta-se”, disse Gonçalo Paulino.

Apesar da concorrência do grande centro comercial, nenhum dos lojistas ouvidos pelo ALMADENSE alguma vez pensou em alterar a sua localização para o Almada Forum. “Já ponderei alterar a localização, mas nunca para um centro comercial. Não aconteceu e já não vai acontecer”, garante Arnaldo Barreira, da Ourivesaria Cristal.

 

E o papel da Câmara?

Lançado no início de 2021, o Dinamizar foi o principal programa criado pelo município de Almada para compensar o impacto da crise pandémica no comércio local. No entanto, para os comerciantes ouvidos pelo ALMADENSE, a medida não satisfaz. “Apesar de ter havido compensações financeiras a algumas empresas, tal não foi de todo suficiente’’, afirma Gonçalo Paulino. “O investimento poderia e deveria ser muito maior, mas compreendemos as escolhas e orçamentos preparados pelos responsáveis eleitos”, adianta.

Já Arnaldo Barreira, da Ourivesaria Cristal, localizada na rua do Mercado da Cova da Piedade desde os anos 70, lamenta que o comércio local seja muitas vezes usado como “ferramenta política para fazer promessas que acabam por nunca ser cumpridas”. 

Mais recentemente, a Câmara anunciou a criação de um cartão de descontos para apoiar o comércio local. No entanto, a maioria dos comerciantes desconhece ainda a medida e mostra algum ceticismo em relação à sua eficácia.

O ALMADENSE contactou o vereador com o pelouro do comércio na CMA, José Pedro Ribeiro, para conhecer os planos da autarquia para estimular o comércio local, mas não obteve resposta às questões colocadas.

 

“O futuro está na rua”

Apesar das dificuldades que o comércio tradicional atravessa, há sinais positivos. No ramo imobiliário há a sensação de que a situação pode melhorar nos próximos anos. “Neste momento, existe uma grande procura para novos clientes”, adianta a consultora Maria Rosa, sublinhando que “a pandemia alterou a procura de Lisboa para a margem sul”, o que pode resultar numa transformação do comércio em Almada.

Já Gonçalo Paulino, mantém uma convicção: “O futuro está na rua”, garante. “As grandes marcas sabem disso e a evolução nos outros países da Europa tem sido no sentido das pessoas usufruírem novamente os centros da cidade”. O responsável aponta o mesmo o exemplo ao nosso lado: “Lisboa passou por um período negro no comércio de rua, a autarquia fez um investimento forte em promoção e atividades na cidade, agora o comércio de rua é espetacular”, afirma.

 

Texto e fotos: Alexandre Quintela da Silva e Maria João Morais

 

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One thought on “Comércio local em Almada acumula anos de declínio. O que fazer para o relançar?

  • Maio 13, 2022 at 12:40 pm
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    Um dos modos de se reanimar essas zonas é incentivar os espetáculos públicos. Facilitar o artista de rua, ajuda a animar os cafés, bares e restaurantes e ajuda no trânsito de clientes para os serviços e comércios locais. A política de concessão de permissão para o artista de rua parece-me bastante equivocada e inacessível. Poderíamos ter melhores resultados se a burocracia e se os valores não fossem absolutamente incompatíveis com a realidade. Muitos se arriscam a ter os equipamentos danificados ou levados pelas autoridades, por não poderem trabalhar com concessões mais ajustadas ao universo dessa atividade, que tanto colabora com a atividade comercial local.

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