Quarta-feira, Junho 12, 2024
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Centro de Arqueologia de Almada: há 50 anos a investigar e divulgar o património do concelho

Centro de Arqueologia de Almada assinala 50 anos de existência, durante os quais promoveu a proximidade entre a arqueologia e a população almadense.

 

Identificaram o sítio arqueológico do Almaraz, em Almada Velha, participaram na escavação da Fábrica Romana de Salga de Cacilhas e tiveram um papel ativo na descoberta de inúmeros sítios arqueológicos através de ações de prospecção realizadas no território do concelho de Almada. Ao longo dos últimos cinquenta anos, o Centro Arqueológico de Almada (CAA) tem marcado a diferença junto da população bem como, na área da arqueologia a nível nacional.

Não temos no nosso país uma outra associação com as características do CAA e com esta idade”, resume Francisco Silva, coordenador do CAA, em declarações ao ALMADENSE.

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Fundado em 1972 por um grupo de quatro estudantes do liceu de Almada, o Centro de Arqueologia celebra cinquenta anos de existência. Ao longo da sua vida enquanto associação, ganhou destaque no meio social com um trabalho intenso de divulgação da história e  do património “através de exposições, edições e visitas guiadas” e promovendo a proximidade entre a arqueologia e a população almadense.

No incío da sua existência, o Centro dedicou-se sobretudo à prospecção arqueológica e à realização de exposições de divulgação do património cultural do concelho de Almada. “Em 1975, a secção de arqueologia tomou a decisão de perseguir um percurso autónomo, dando corpo ao Centro de Arqueologia de Almada, prosseguindo os objetivos delineados inicialmente que eram a elaboração de uma carta do património e a sua divulgação.” explica Franscisco Silva, acrescentando que “os trabalhos de campo realizados em diversos anos permitiram elaborar uma carta do património arqueológico e edificado, que teve aplicação no regulamento do Plano Diretor Municipal de Almada”.

Embora com uma história longa, o Centro de Arqueologia de Almada, destaca a importância do trabalho desenvolvido nos últimos dez anos, nomeadamente na área da reabilitação urbana. “Os últimos 10 anos merecem ser destacados, uma vez que permitiram o desenvolvimento cultural da cidade, desde a reabilitação urbana na chamada Almada Velha”, aponta Francisco Silva. Para além da valorização do sítio arqueológico Quinta do Almaraz,  o centro colaborou na investigação em torno do Museu de Almada, bem como diversos edifícios históricos e quintas espalhados pelo concelho. “Todo este desenvolvimento cultural liga-se ao próprio Centro de Arqueologia de Almada pelas suas descobertas, divulgação do património e visitas guiadas”, assinala o coordenador.

 

Criando história com a História
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O CAA participou na identificação do sítio arqueológico do Almaraz.

 

Foi no ano de 1982, ao completar dez anos, que foi lançado o nº 0 da I Série da revista Al-Madan, projeto que se mantém na atualidade com grande destaque a nível nacional. Francisco Silva conta que “a publicação da revista Al-Madan, enquanto projeto editorial do CAA, é sem dúvida, aquele que projeta com maior alcance o nome de Almada”, explicando ainda que “com um modelo editorial original e com conteúdo de qualidade reconhecida, mantém uma regularidade que a torna uma referência a nível nacional, podendo ser lida e consultada em várias partes do globo, quer na versão impressa como digital”. 

Na década de 80, a intervenção a nível regional foi destacada através do projeto “Ocupação Romana da Margem Esquerda do Estuário do Tejo”, cuja participação nas campanhas de escavação na Fábrica Romana de Salga em Cacilhas (1981-1987), Fornos Romanos de Cerâmica da Quinta do Rouxinol no Seixal (1986-1991) e Fábrica de Cerâmica e Necrópole em Porto dos Cacos em Alcochete foi fundamental. “Na arqueologia, que está na génese da formação do CAA, foi determinante nos primeiros anos de atividade da associação a descoberta de inúmeros sítios arqueológicos através de ações de prospecção realizadas no território do concelho de Almada. Contudo, foi no meio educacional que o Centro “atingiu maior número de participantes, através de um conjunto de atividades destinadas a vários níveis de ensino”, menciona Francisco Silva. 

Relembrando que “a arqueologia, ao estudar as sociedades do passado, simultaneamente também estuda o presente em que vivemos”, podendo dar “pistas de como melhorar o futuro”, Francisco Silva, destaca também a importância da investigação arqueológica no desenvolvimento de uma cidade. “Uma investigação arqueológica permite inferir, a título de exemplo, que cidades como Almada ou Lisboa sempre foram ocupadas por comunidades humanas desde o Paleolítico (período mais antigo da nossa história) e a principal razão dessa ocupação foi a proximidade ao rio em conjunto com os recursos naturais provenientes daí”. De igual forma, “o mesmo rio que ainda hoje dinamiza as duas cidades, não é exclusivamente o rio, é também o ambiente em seu redor até ao presente, a alimentação, o estilo de vida e as sucessivas alterações específicas de cada comunidade humana”.

 

Aproximar Almada da arqueologia
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Fábrica Romana de Salga de Cacilhas contou com escavações do CAA.

 

Com o objetivo de aproximar e cativar a população desta ciência que estuda “as sociedades do passado”, o Centro de Arqueologia tem em curso, um projeto de investigação no campo do Património Cultural Imaterial que consiste no inventário das artes de pesca tradicional do Tejo, estando também a produzir uma exposição sobre os 550 anos da criação da Paróquia da Caparica. Regularmente organizam visitas guiadas aos centros históricos da Trafaria, Pragal, Cacilhas e Almada.

Apesar da arqueologia ser uma ciência que estuda o passado, o CAA tem o olhar no futuro, com a previsão do regresso das visitas guiadas aos sítios arqueológicos em Lisboa, realizadas inicialmente em 2018 e 2021.

Apesar da organização almadense ter atingido um marco de longevidade impressionante, as dificuldades a nível financeiro obrigaram a que encontrassem variadas formas de funcionamento devido à “necessidade de se auto-financiar através da prestação de serviços especializados e da atividade editorial”, conta Francisco Silva. Referindo que, com a alteração de critérios para os apoios para determinados projetos, o CAA “passou a protocolar com as juntas de freguesia diversos serviços, nomeadamente atividades pedagógicas, publicações sobre a história e património locais, bem como visitas guiadas”. Contudo, o principal apoio financeiro acontece a partir de 2018, com a possibilidade de consignar 0,5% do IRS para o Centro de Arqueologia de Almada. 

 

50 anos: o segredo da longevidade

Para Francisco Silva, o segredo da longevidade do Centro tem a ver com “a capacidade de desenvolver uma atividade regular, durante cinquenta anos, assente no empenhamento dos sócios, na independência perante as instituições públicas e rigor no trabalho desenvolvido”. Tudo isto “permitiu ao CAA ser atualmente reconhecido, enquanto associação de defesa do património, não só a nível local, mas também nacional e internacional”, destaca. “Consideramos que a atividade do CAA tem contribuído para a sensibilização da sociedade para o valor do património e da história local, enquanto referência identitária, mas também enquanto parceiro da investigação científica e académica”, explica. 

“50 anos de vida é algo extraordinário para uma pessoa que já tem muitas experiências, muitas histórias para contar, muito para ensinar e muito potencial para muito mais aprendizagens e melhorias. 50 anos de uma associação é ainda mais extraordinário, pois demonstra que o trabalho foi bem feito e que passou de uma geração para outra desde a sua fundação e irá passar para outra”, assinala. Para o coordenador, a longevidade demonstra também “a evolução de toda a sociedade e da própria associação. É também um marco da evolução da arqueologia enquanto disciplina científica e como o conhecimento gerado através desta evoluiu, em parte devido à tecnologia”. Mas o trabalho demonstrado em visitas guiadas ou na revista Al-Madan é apenas uma parte daquilo que é o CAA. A ação de bastidores, “onde os sócios participam de forma voluntária, tornam o convívio e a participação social o segredo para esta longevidade”. 

 

Quinta do Almaraz: o reencontro com uma História de há três mil anos

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