Casa da Cerca: Um espaço de comunidade, arte e natureza

Casa de recreio setecentista é ponto de referência cultural e de lazer no centro histórico de Almada.

 

Já foi solar residencial, serviu de aquartelamento durante as Invasões Francesas e até funcionou como apoio ao Hospital de Almada. Depois de um passado de múltiplos usos, hoje a Casa da Cerca —Centro de Arte Contemporânea— está ao serviço de todos os almadenses, constituindo-se como ponto de encontro para turistas e residentes de todas as idades e interesses.

Situada no núcleo histórico de Almada Velha, na zona mais alta da cidade, o espaço conta com uma vista magnífica sobre o Tejo e a capital. Mas os encantos da Casa da Cerca não se esgotam aí. Aqui, onde a arte e natureza se cruzam, podemos visitar exposições e contactar com a natureza através das diversas plantações do jardim botânico.

“É dos centros de arte mais especiais que existe em Portugal, pela sua história e pelas caraterísticas físicas. O espaço está numa localização incrivelmente privilegiada, com a melhor vista para a cidade de Lisboa. É um sítio muito especial para se visitar quer de uma forma turística quer pelos moradores de Almada que visitam repetidamente o espaço, como parte do seu quotidiano – algo muito raro num Museu”, conta Filipa Oliveira, programadora e curadora de Artes Visuais do Município de Almada.

 

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O espaço estende-se pela colina e inclui a Casa como edifício principal, de frente para a entrada, e com o Jardim dos Leitores do lado direito; um jardim botânico que ocupa meio hectare do lado esquerdo da casa, na Rua da Cerca, o Chão das Artes que celebra este ano duas décadas e ainda o Centro de Documentação e Investigação Mestre Rogério Ribeiro.

A programação do espaço cultural centra-se na arte contemporânea, com especial atenção à área do Desenho, mas diversifica-se entre “intervenções mais escultóricas” e “projetos mais experimentais ou conceptuais”, exemplifica a responsável, que destaca igualmente eventos como os concertos de Verão, que decorrem de maio a outubro.

“Há um grande esforço de pensar a Arte através de várias perspetivas e ferramentas para que os visitantes tenham uma experiência realmente única; e que a Arte seja o mais participativa e acessível possível. A acessibilidade é muito importante para nós: vai desde o texto que escrevemos nas exposições até ao tornar a casa fisicamente acessível a todos”, completa a curadora.

 

Chão das Artes – 20 anos de união entre Arte e Ciência

O Chão das Artes – Jardim Botânico é um lugar de simbiose entre a arte e a ciência, iniciativa pioneira neste campo, onde a terra oferece aos artistas as matérias para criar. Inaugurado em junho de 2001, o espaço celebra 20 anos, tendo sido idealizado à semelhança dos jardins tradicionais portugueses de casas de recreio, remetendo às origens da Casa.

“Todas as espécies botânicas do Chão das Artes podem ser utilizadas nas artes plásticas e de maneiras muito diferentes: seja para fazer ferramentas, carvão, pigmentos, óleos… Não é só o pigmento que tipicamente associamos às plantas. A arquiteta Sónia Francisco, responsável pelo Jardim Botânico, tem uma investigação de muitos anos sobre este tema, uma coleção crescente e muito especial”, acrescenta Filipa.

 

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O espaço divide-se em cinco áreas, cada uma com uma função: o Jardim dos Pigmentos e o Pomar das Gomas, onde as folhas e flores produzem pigmentos para pintura tal como as árvores de fruto goma; o Jardim dos Pintores, no qual todos os anos um artista é homenageado; Jardim dos Óleos, com óleos provenientes de rosmaninho, alecrim, alfazema, papoilas e linho, entre outros; Jardim das Telas com linho e algodão para telas e a Mata com madeira para as esculturas e produção de vernizes.

Nas exposições da Casa da Cerca raramente são utilizados os materiais do Jardim, mas este ano foi diferente. “Temos agora nas galerias principais a exposição do Alex Cecchetti, um artista italiano, com uma série de obras em que utilizou tingimentos naturais; ele usou não só as plantas do Jardim, como as técnicas associadas”, conta Filipa Oliveira.

O Chão das Artes está aberto a todos os que queiram uma visita, no horário de abertura do espaço e sem necessidade de marcação prévia, em regime livre. Para uma visita ao Jardim orientada pelos mediadores do Centro de Arte Contemporânea, basta contactar a Casa e agendar.

“São 20 anos de trabalho e conhecimento do Jardim Botânico que partilhamos com o público. Não é uma coleção que fica só para nós”, partilha a curadora com um sorriso.

 

Uma Casa cheia de passado e de futuro

A história da Casa, reconstruída a partir dos registos do Serviço de Informação para o Património Arquitetónico (SIPA), diz-nos que o local foi durante séculos de habitação, a antiga Quinta da Cerca, passando de proprietário em proprietário.

 

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Durante as Invasões Francesas serviu de aquartelamento para as tropas francesas e nos séculos seguintes volta a ser comprada por várias famílias. Em 1974, no pós 25 de Abril, encontra-se abandonada e é ocupada para servir de apoio ao Hospital de Almada.

“É um espaço que não é neutro: está cheio de passado e também cheio de futuro”, comenta Filipa Oliveira, recordando as estórias dos anos 80, de uma casa que parecia “um castelo abandonado” onde se entrava “às escondidas” para explorar aquele “espaço misterioso com jardim”.

Em 1988, o espaço é comprado pela Câmara Municipal de Almada (CMA), após ter recusado o projeto para a transformação da Casa num empreendimento de alojamento turístico. Assim, nasce e permanece como espaço cultural com particular foco na área do Desenho, motivado por Rogério Ribeiro, o fundador da Casa, ele próprio um “desenhador compulsivo” e professor Faculdade de Belas-Artes de Lisboa, como descreve a escritora e académica Emília Ferreira.

Rogério Ribeiro foi também o primeiro diretor da Galeria Municipal de Arte de Almada inaugurada em 1988. Com a abertura da Galeria, localizada em frente à CMA, começa a reunir-se informação sobre artistas plásticos portugueses contemporâneos e em 1993 é criado o Centro de Documentação e Investigação, com nome Mestre Rogério Ribeiro, aberto ao público em 2008 e localizado no espaço da Casa da Cerca.

 

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A Casa da Cerca abre ao público a 18 de novembro de 1993 como espaço cultural de divulgação e investigação de arte contemporânea. Desde cedo, desperta a atenção das escolas do concelho como local de visita de estudo.

O laço com a comunidade escolar almadense formalizou-se em 1997 com a criação do Serviço Educativo (SE), especialmente dedicado a atividades pedagógicas e lúdicas, com o objetivo de incentivar o público mais jovem à prática de atividades criativas.

 

2 Comentários

  • Outubro 16, 2021 at 12:58 pm
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    Não haverá neste maravilhoso espaço recitais de poesia?

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  • Outubro 18, 2021 at 5:32 pm
    Permalink

    Infelizmente grande parte das ruas da charneca da Caparica são uma lixeira a céu aberto.
    Como o exemplo de e vir de cima, claro que há ruas com rede de esgoto, mas onde alguns proprietários não fazem ligação dos seus esgotos à conduta principal, mantendo fossas sem serem assépticas, algumas nem sequer tampa têm… Não sei porque não se aplicam leis camarárias a uns e a outros não?

    Responder

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