Na praceta Ricardo de Jorge, em Almada, várias dezenas de pessoas reuniram-se junto aos Serviços Municipalizados de Água e Saneamento (SMAS) de Almada em protesto devido à falta de água que se tem verificado em várias zonas do concelho na última semana.
“Água é um direito” ou “Água já, chega de desculpas” eram algumas as palavras de ordem do protesto que decorreu na manhã desta segunda-feira, dia 6 de julho, convocado pelo Movimento Futuro da Costa (MFC), que reuniu moradores da Costa da Caparica, a zona mais afetada pelas falhas no abastecimento de água.
Entre os participantes estava Lurdes Barradas. Vestida de gota de água, relatou ao ALMADENSE as dificuldades que tem enfrentado diariamente. “Em minha casa, a água apenas vem de noite, com pouca força”, contou, explicando que a situação a impede até de realizar tarefas domésticas básicas, como cozinhar.
Para a munícipe, as falhas no abastecimento devem-se “à falta de investimento, durante anos, nas redes de água”, diz, acrescentando que as justificações que a Câmara Municipal de Almada tem dado “são desculpas”. Lurdes Barradas sugere, por isso, que “sejam os bombeiros a distribuir água”, já que “não faz sentido que sejam os moradores a ter de comprar garrafões de água para descarregar uma sanita”.
Já Patrícia Leite, que mora em São João da Caparica, também se queixa das falhas no abastecimento da água. “Isto não é de agora, já se arrasta há alguma tempo e não é algo pontual como vários responsáveis têm dito”, diz ao ALMADENSE. “Por vezes, só durante a noite é que temos água, mas não podemos andar a mudar as nossas rotinas diárias básicas para a noite”, acrescenta. Patrícia apela, por isso, à população que se manifeste para que se possa resolver uma “situação caótica e que se está a tornar insuportável”.
Para além da Costa da Caparica, a falta de água afeta já várias localidades de Almada, como o Laranjeiro, o Feijó, o Pragal ou a Charneca da Caparica. Joana Santos, moradora no centro de Almada, a poucos metros do local do protesto, refere que, no dia anterior, também ficou sem água em casa, o que a impediu de tomar banho. Apesar de não residir nas zonas mais afetadas, Joana não tem dúvidas que “é uma situação muito chata”.
“Estamos a falar de um bem essencial e uma coisa é ser pontual, mas, na verdade, é que tem sido recorrente”, sublinha ao ALMADENSE. Para a moradora, isto reflete também “a falta de manutenção de espaços verdes e neglicência que tem existido” em todo o concelho de Almada.
Após uma reunião informal com o Conselho de Administração do SMAS, Pedro Félix, do Movimento Futuro da Costa (MFC) e deputado na Assembleia de Freguesia da Costa da Caparica, lamentou que “a solução não seja tão rápida” como gostaria. Aos órgãos de comunicação social, explicou que os responsáveis dos SMAS garantiram que “vão continuar a trabalhar no novo poço que está em acabamento, que vai melhorar o abastecimento de água”, mas ressalvou que “no fundo, não deram datas”. O autarca criticou ainda a comunicação dos serviços, considerando que a entidade “tem sido pouco clara e comunicativa” em relação à situação. Na sua opinião, se tivesse existido maior transparência, “a população não tinha reagido desta forma”.
Existe já uma petição pública, com quase cinco mil assinaturas, que exige uma solução urgente para os cortes frequentes de água em Almada.
Abastecimento estável de água “só no primeiro trimestre de 2027”
Quanto ao presidente do Conselho de Administração dos SMAS Almada, Luís Palma justificou, em declarações aos órgãos de comunicação social, que a falta de água se deve “ao período do ano, mas também ao aumento populacional“, pelo que “a quantidade de água que está a ser captada é inferior ao consumo que se verifica“. Por isso, apesar de prever mitigar e melhorar a situação ainda este mês de julho, os SMAS apenas preveem a estabilização do abastecimento de água à população em 2027.
Embora admita que existe “uma dificuldade em abastecer algumas áreas mais sensíveis”, o responsável garantiu que “há água em Almada”. Como forma de responder à carência em algumas zonas, “decidimos fazer uma distribuição equitativa e solidária por toda a rede para que não haja populações que não estejam mais de 24 horas sem água”, acrescentou.
Luís Palma explica, no entanto, que o abastecimento de água ao Hospital Garcia de Orta, aos vários centros de saúde do concelho e às clínicas de hemodiálise “está garantido”, assegurando, igualmente, o fornecimento de água aos lares de idosos, que “comunicarem os devidos problemas”.
No mesmo sentido, o dirigente explicou que estão a ser tomadas, desde o início do mandato, medidas para melhorar o abastecimento de água no concelho, já que cerca 93% dos furos que abastecem Almada são provenientes do Seixal. “É fruto desse plano que já está em funcionamento um furo de captação de água, com outro também a entrar em funcionamento em breve, ajudando a abastecer com mais água a rede”, diz.
O presidente dos SMAS revela, ainda, que “existem três furos que estão a aguardar o licenciamento da Agência Portuguesa do Ambiente” para que se possa iniciar as obras, bem como “outros três em fase de projeto”. Luís Palma espera, por isso, que, “no primeiro trimestre do próximo ano, seja possível ter mais furos de captação que ajudem na distribuição de água”. “Houve um crescimento populacional repentino que não foi acompanhado por obras de melhoria das infraestruturas”, acrescenta.
Finalmente, o responsável apelou à população para “não fazer um açambarcamento de água” quando esta volta às torneiras, de forma a “garantir que a água chega a todos”.
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