Rui Fontes, residente em Santa Marta do Pinhal
Há pessoas que passam a ponte todos os dias sem nunca verem o Tejo. O máximo que conseguem observar da paisagem é o interior da nuca de um senhor de Setúbal.
Quem apanha o comboio no Pragal às 8h da manhã não está propriamente a apanhar um comboio. Está a participar numa experiência de física aplicada.
A teoria diz que dois corpos não ocupam o mesmo espaço ao mesmo tempo. A Fertagus passa todas as manhãs pela Margem Sul para demonstrar que a teoria é apenas uma opinião.
Quando o comboio chega ao Pragal já vem com aquele ar cansado de quem atravessou metade da península ibérica. Abrem-se as portas e acontece um fenómeno curioso: ninguém sai, mas toda a gente entra.
O passageiro experiente da Margem Sul sabe que o segredo não é encontrar lugar. É encontrar ângulo. Entra-se de lado, de frente, de costas e às vezes numa posição que levanta dúvidas sobre se se entrou de facto, ou se simplesmente se deixou de estar cá fora. A distinção não é irrelevante. Há situações em que a única diferença entre estar num sítio e estar noutro é a direção em que se está a ser comprimido.
Chamar-lhe viagem é optimista. Na prática, é um seminário intensivo sobre intimidade humana não solicitada. Ao fim de três minutos sabemos mais sobre os hábitos respiratórios do vizinho do que sobre alguns familiares diretos — o que diz algo sobre os transportes públicos, mas diz mais sobre as famílias.
Há sempre alguém ao telefone. Não a falar — a depor. Assuntos que normalmente exigiriam um padre, um advogado ou pelo menos a consciência de que há quarenta pessoas sem alternativa de saída são tratados em voz alta, com a naturalidade de quem não reparou que está rodeado de quarenta reféns. Ficamos a saber do divórcio, da dívida e do que a médica disse na quinta-feira. Somos, involuntariamente, o arquivo sonoro de vidas alheias. Sem remuneração, sem sigilo profissional e sem possibilidade de sair antes de Entrecampos.
Há pessoas que passam a ponte todos os dias sem nunca verem o Tejo. O máximo que conseguem observar da paisagem é o interior da nuca de um senhor de Setúbal.
Quando o comboio entra na ponte instala-se um silêncio estranho. Não é contemplação. É apenas a consciência colectiva de que ninguém consegue mexer-se o suficiente para falar. Este silêncio tem uma qualidade particular. Não é o silêncio de quem não tem nada a dizer. É o silêncio de quem percebeu que, para falar, precisaria de espaço para gesticular, e esse espaço pertence agora a outra pessoa. A comunicação humana depende, mais do que se imagina, da possibilidade de mover os braços.
De vez em quando alguém tenta sair em Entrecampos. O movimento gera uma pequena onda sísmica que percorre a carruagem de uma extremidade à outra, e cada passageiro ajusta a sua posição com a precisão de quem resolve um problema de engenharia em tempo real. O problema é sempre o mesmo: existe um corpo que precisa de sair e não há geometria disponível para o fazer.
O que o comboio da Fertagus demonstra todas as manhãs é que a coesão social não é um valor: é uma consequência da falta de alternativas. O contrato de concessão foi celebrado em 1998. Desde então, o Estado e a Fertagus têm negociado, renegociado e voltado a negociar os termos do acordo. É uma conversa longa, tecnicamente complexa e conduzida entre duas partes. O passageiro não é uma delas. É o assunto. Durante 15 minutos, o diretor-geral e o assistente operacional partilham o mesmo metro quadrado, o mesmo ar e a mesma ausência de voto na matéria — que é também, curiosamente, a posição que lhes foi atribuída no contrato. Ali convivem em silêncio um senhor que leva sempre um guarda-chuva mesmo em agosto e um indivíduo misterioso que insiste em abrir caminho dizendo “só mais um bocadinho”. Esse bocadinho é geralmente um adulto inteiro. A igualdade que não se consegue por política, consegue-se por falta de investimento em infraestruturas. É um modelo com custos, mas tem resultados.
Quando finalmente as portas se abrem em Lisboa, cada pessoa recupera o seu espaço vital, a sua dignidade e, em alguns casos, a circulação sanguínea.
E, durante alguns segundos, acontece na plataforma um fenómeno curioso. Toda a gente respira fundo. Não é alívio. É apenas para confirmar que ainda cabe ar nos pulmões.
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O problema é o Estado e os comunistas. A CP e a IP, ambas dominadas pela CGTP, nunca gostaram da Fertagus pelo excelente serviço prestado durante anos, eu sou testemunha disso como utente diário. Como é privada trataram de dar cabo dela, descendo ao nível do péssimo serviço da CP ou mesmo pior. Conseguiram, pena que não temos um governo à altuea para privatizar a CP e pôr os comunas na rua.
Caro José, como autor do artigo e tendo pesquisado para o fazer. Posso assegurar que não tem de ver com ideologias ou cor partidárias. Trata-se de um braço de ferro entre a extensão do contrato por um período mais extenso por parte da Fertagus e o Governo rejeitar, por entender que dada a falta de investimento Fertagus e à necessidade de haver concorrência, não era solução.
Já a algum tempo desde que nossa amada Margem sul tomou outras proporções, é necessário investimento por parte da Fertagus e do governo .
As pontes ,já não absorvem e as linhas de comboio também não .
Por mais que mandem os imigrantes embora, o fluxo de pessoas vai continuar sendo sempre acima do que a estrutura comporta .
E vemos essa situação em outras situações, como rotas de uto carros erradas, rotundas mal sinalizadas e sem sentido .
Quem se locomove por Lisboa, já sente este efeito a muito tempo.
A margem sul já passou do tempo de prosseguir com o metrinho de Almada até no mínimo o Seixal .
Iria desafogar muito a Fertagus.
Mas isso demora investimentos.
Têm orgulho em dizer que o valor do passe não sobe.
É claro estão faturando mil e mil milhões com os valores cobrados, e não se investe em absolutamente nada para o conforto do utente .
Desculpa a sinceridade. Nos barcos embora tenha demorado para melhorar a qualidade dos mesmos , ainda sofremos com horários ,nunca se pode marcar nada até esta do outro lado.
Enfim, isso não é uma crítica .
Apenas pontos para serem analisados pelos responsáveis.
Artigo Absolutamente Genial!!!
Caro Paulo, Agradeço imenso as palavras. Como em qualquer receita é bom ouvir quem a prova. Convido-o a participar. Os ingredientes estão em todo o lado, no café, no noticiário, no contrato que ninguém leu. O que falta quase sempre não é matéria-prima. É alguém disposto a cozinhá-la. Se alguma vez tiver algo na panela, já sabe escreva..
Caro Rui Fontes, mt bom o seu artigo !! Com arte de escrita filigrana, regista com saber, assertividde, competencia e pertinencia um tema interessante .. sem necessidade de recurso a IA .. mt bom BemHaja plo contributo !!
Caro José, Obrigado pelas palavras. “Filigrana” é um elogio que guardo com cuidado, é o tipo de coisa que se lê duas vezes para ter a certeza que não é ironia. Não era. Fico reconhecido e, o que é mais perigoso, encorajado.
como jornalista que fui e como leitor que continuo a ser, dou os parabéns ao autor.
Caro Carlos, obrigado. Há elogios que se recebem com agrado e elogios que se recebem com alívio. O de quem conhece o terreno pertence à segunda categoria, e é a mais valiosa.
EXCELENTE, EXCELENTE, EXCELENTE! Parabéns pela crítica “vestida” de humor.
Obrigado, Filomena. Fico feliz com o elogio. O vestido é meu. O modelo é da Fertagus.
Graças adeus 🙏 livrei me dessa praga.
Era horrível andar na Fertagus.
Cada parágrafo arrancou-me uma gargalhada, mas confesso que é dos tais casos em que uma pessoa ri para não chorar. Felizmente hoje trabalho na margem sul e são raras as vezes que tenho de passar por este suplício. Mas, de vez em quando, por infelicidade do destino, lá vem um evento ou uma reunião da vida que me obriga a vivenciar este experimento social. Confesso que a caminho da estação, vou a rezar um pai nosso e a suspirar, enquanto me preparo psicologicamente para a batalha que tenho pela frente… é inqualificável…
Obrigado, Mariana. A oração antes da estação sugere que a experiência tem uma dimensão espiritual que eu subestimei. Talvez o contrato de concessão devesse prever capelania.
Lendo o seu artigo, tenho de lhe dizer que gostei muito, está mesmo muito bem escrito! Ainda há pouco tempo li numa entrevista/artigo ligado à Fundação Champalimaud, alguém destacar com grande orgulho o facto de receitas associadas à taxa de carbono estarem a ser canalizadas para reduzir o custo dos transportes públicos, nomeadamente o valor dos passes.
Ou seja, há uns anos quem vinha de fora de Lisboa pagava cerca de 110 euros e hoje paga 30. Mas, na minha opinião, baixar o preço do passe não é, por si só, aquilo que faz as pessoas optarem pelos transportes públicos. E o seu artigo mostra exatamente isso.
O problema continua a ser a falta de qualidade, de fiabilidade e de investimento. Para muitos cidadãos, a diferença entre pagar 30 ou 50 euros não é assim tão determinante se depois os transportes não funcionam como deveriam.
Se esse esforço financeiro fosse mais direcionado para melhorar o serviço, aumentar a segurança e garantir respostas eficazes às necessidades reais das pessoas, aí sim estaríamos perante um verdadeiro avanço — que beneficiaria tanto os cidadãos como o ambiente.
Esta é apenas uma opinião pessoal, naturalmente, mas que o seu artigo ajudou a reforçar.
Cara Sara, Agradecido pelas palavras. Baixar o preço do bilhete tem o mérito de ser uma medida visível. O metro quadrado, esse, ficou igual.
Excelente forma de escrever. Muitos parabéns ao autor e ao Almadense.
Caro Pedro, Obrigado pela generosidade. O Almadense tem a virtude rara de juntar leitores que ainda lêem até ao fim. Muito obrigado. O mérito é em parte do comboio – sem a lotação, o texto ficava mais curto.
Este artigo está maravilhoso, parabéns.
Aliás, quando ando neste comboio por vezes sou obrigada a gritar: … ” parem de empurrar porque a carruagem está cheia!” Já o fiz três vezes, porque estavam a esmagar-me.
Obrigada Rui.
Afinal não e só metro de lisboa
Obrigado, Fátima. O grito que descreve não está no texto – mas devia estar. É o único protocolo de emergência que o passageiro tem ao seu dispor.
Muitos parabéns!! Artigo excelentemente escrito! Não tenho palavras para classificar o que acho! Muito bom!!! Muito bem escrito mesmo!!! Continue a escrever assim Rui,
muitos parabéns!!
Caro José, Obrigado. Fico contente que o texto tenha chegado — e a tempo. Se quiser embarcar e não apenas assistir à partida, a estação é conhecida: fica na ponta de uma Bic.
Excelente!
Não uso este transporte, mas gostei de saber o que passam os utentes diários. O contributo do Rui é fundamental e incisivo! Espero que chegue às pessoas com poder decisivo, para alterarem esta situação inaceitável!
( O Rui é um escritor exemplar, como poucos, hoje em dia! Obrigada, Rui! Li o texto e também as respostas aos comentários, que seguem a mesma linha)